Vivemos um dramático quadro de falta de profissionais para trabalhar na absoluta maioria dos setores, mas, por razões óbvias, o varejo e os serviços são os mais afetados, pois são os mais dependentes de pessoas — a ponto de lojas não mais abrirem aos domingos, como acontecerá no Espírito Santo.
Mudanças generalistas nas políticas de emprego podem gerar consequências e danos se impostas de forma arbitrária, sem análise ampla das consequências e desprezando diferenças setoriais e regionais.
Nos últimos anos, o mercado de trabalho brasileiro registrou resultados históricos, com a taxa de desemprego de 5,6% em 2025, o menor nível desde 2012, segundo o IBGE. No quarto trimestre de 2025, o índice caiu para 5,1%, com cerca de 5,5 milhões de pessoas procurando trabalho.
É importante lembrar que os beneficiados pelo Bolsa Família, perto de 50 milhões de pessoas de diferentes idades, não precisam necessariamente procurar emprego formal e, portanto, não são considerados desempregados caso não estejam à procura de trabalho. Assim, ficam fora do critério que mede apenas quem está procurando emprego.
Essa redução da desocupação acompanha o crescimento do emprego, especialmente nos setores de serviços e comércio, que juntos respondem pela maior parte das vagas formais do País.
Esse cenário, aparentemente positivo, esconde um problema real para o varejo e os serviços, pois faltam trabalhadores qualificados e disponíveis, o que pressiona custos e compromete o atendimento. A ponto de já se considerar o fechamento de lojas e negócios aos domingos.
No Espírito Santo, essa decisão está encaminhada e, a partir deste domingo, 1º de março, entrou em vigor a proibição de funcionamento aos domingos para supermercados, atacarejos, mercearias, minimercados e lojas de material de construção no estado do Estado. A nova regra foi definida por meio de convenção coletiva de trabalho negociada entre sindicatos patronais e dos trabalhadores.
É importante considerar que existe uma significativa diferença em relação ao passado, pois o consumidor sempre terá a opção do canal de comércio eletrônico para atender às suas demandas, o que pode desequilibrar as atividades do setor e impactando sua capacidade de gerar emprego e renda.
Esse verdadeiro apagão de mão de obra se estende a diversos setores e ocorre em um momento em que muitas empresas, especialmente de pequeno e médio porte enfrentam dificuldades claras para contratar pessoal e atender à crescente demanda do empoderado omniconsumidor. O cenário sinaliza um desafio setorial ainda maior pressionando a rentabilidade dos negócios.
Os impactos dos programas sociais
Os programas sociais continuam sendo uma base de proteção indispensável para milhões de brasileiros. Ao todo, cerca de 90 milhões de pessoas são atendidas por algum programa social.
O Bolsa Família, em especial, tem papel relevante, atendendo mais de 20,8 milhões de famílias em todo o País. No entanto, precisa ser revisto, pois sua atual configuração, que restringe o trabalho com carteira assinada, é forte indutor da informalidade no emprego e, de alguma forma, contribui para esse apagão de mão de social.
Isso gera uma situação explosiva situação à frente, pois reduz a contribuição aos programas de aposentadoria, cujo déficit já é significativo e tende a ser agravado pelo processo de envelhecimento da população que temos no Brasil.
Esses aspectos têm sido solenemente ignorados no pensamento estratégico das políticas públicas, que estão baseadas em viés eleitoreiro, o qual pressiona todas as decisões na esfera federal neste ano.
Impactos no e do setor público
No setor público, vivemos uma situação particular: o emprego cresceu 3,8% em 2025 na comparação com 2024, alcançando 13,1 milhões de trabalhadores nas esferas federal, estadual e municipal. Trata-se de uma área em que a tecnologia e a produtividade deveriam ter proporcionado racionalização e simplificação de atividades e em que o impacto da redução da jornada igualmente tende a gerar pressão por aumento de funcionários, en que um quadro de escassez de mão de obra.
Vale lembrar que a despesa total do setor público no Brasil, nos planos federal, estadual e municipal, foi estimada em cerca de 45,3% do PIB em 2023, segundo metodologia OCDE, e cresceu para 45,8% em 2024. Esse montante inclui gastos com em saúde, educação, segurança, habitação e proteção social.
Nos EUA, esse percentual é 38%, na Coréia; 34%, na Índia, 28%; na Austrália, 37%; e, na média dos países da OCDE, é 42,6%.
Ou seja, o setor público brasileiro tem percentual de gastos mais elevado de que o de muitos países, tem registrado crescimento no número de funcionários e também será impactado por medidas envolvendo aumento de custos por redução da jornada.
Além disso, passará a competir ainda mais com o setor privado, com a diferença de que o setor público não paga os impostos que sustentam os serviços públicos.
O impacto do envelhecimento da população
É preciso considerar, nesse quadro mais amplo, o processo de envelhecimento da população brasileira com todas as suas consequências na questão do emprego e, principalmente, previdenciário.
Entre 2000 e 2023, a proporção de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou, passando de 8,7% para 15,6% da população total.
A idade mediana (ponto médio entre mais jovens e mais velhos) subiu de 28,3 anos, em 2000, para 35,5 anos em 2023, e continuará em alta, pois há uma conjugação de maior tempo de vida das pessoas com a redução significativa da taxa de natalidade
Mantida essa tendência, em 2070, cerca de 37,8% da população brasileira terá 60 anos ou mais, em comparação com a realidade atual, com todas as consequências que isso trará para o mercado de trabalho e para o emprego, além do fato de que menos pessoas contribuirão para a Previdência, a fim de manter os aposentados. Sem dúvida, ainda haverá várias reformas até lá, e deixar de considerar essa perspectiva nas discussões atuais revela outra miopia presente em todo o processo.
O despropósito da redução da jornada neste momento
Num contexto de mercado de trabalho com escassez de trabalhadores disponíveis, as propostas que consideram reduzir a jornada de trabalho de 44 horas para 36 horas semanais, sem corte salarial, por meio de mudanças constitucionais, são despropositadas e beiram à inconsequência.
Defensores da redução sustentam que a medida poderia, no longo prazo, aumentar a qualidade de vida e até gerar empregos adicionais, ignorando a realidade do momento e generalizando políticas públicas, ao desprezar as diferenças estruturais entre os setores empresariais e os diferentes Brasis que convivem na mesma nação.
Impor essa mudança, em um momento em que o País enfrenta um apagão de mão de obra, é um risco, sobretudo para pequenos negócios de varejo e serviços, que já têm dificuldade para contratar e treinar trabalhadores.
Redução de jornada deve ser consequência da melhoria da produtividade que deve ser antecedida por programas de qualificação profissional, implantação de tecnologia, estímulos ao desenvolvimento e flexibilidade contratual.
Sem isso, vai aumentar custos operacionais, pressionar ainda mais os salários e a inflação e limitar a capacidade de crescimento dessas empresas, as maiores geradoras de emprego do País.
Conclusão
O Brasil vive hoje um paradoxo mais preocupante do que curioso: um mercado de trabalho fortalecido com desemprego historicamente baixo, um processo marcante e irreversível de envelhecimento da população e, ao mesmo tempo, empresas enfrentando dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados.
Programas sociais como o Bolsa Família atuam como um colchão que protege parte da população. Em compensação, inibem o trabalho formal, estimulam a informalidade no emprego e reduzem a contribuição para o sistema previdenciário em uma população que envelhece rapidamente, armando, com isso, uma bomba no sistema previdenciário que pode explodir no futuro próximo.
O açodamento na discussão e na aprovação da redução de jornada pela motivação eleitoreira não pode comprometer o futuro e isso deve engajar todos os de bom senso, em especial as entidades do setor privado — a se mobilizarem em uma ação conjunta junto ao Congresso, mostrando que não se pode trocar o eventual bem-estar no presente pela inconsequência em relação ao futuro. É preciso responsabilidade.
Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato