A discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhou força nas últimas semanas e passou a envolver empresários, trabalhadores e integrantes do governo federal. A proposta de reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas está em análise no Congresso e divide opiniões.
Enquanto parte do setor produtivo demonstra preocupação com possíveis impactos nos custos, há também empresários que defendem mudanças no modelo atual. Para eles, o debate não deve se limitar apenas à escala de trabalho, mas incluir uma revisão mais ampla das regras trabalhistas.
CEO do Assaí apoia debate sobre o fim da 6×1
O CEO do Assaí Atacadista, Belmiro Gomes, afirmou que a empresa está preparada para se adaptar caso o Congresso aprove alterações na escala 6×1. A rede conta com cerca de 90 mil funcionários em todo o país e atua no modelo de atacarejo, que combina características de atacado e varejo.
Segundo o executivo, a operação da empresa tem estrutura enxuta e menor necessidade de mão de obra em comparação com o varejo tradicional. Por isso, eventuais mudanças na jornada não seriam tratadas de forma isolada, mas acompanhando o movimento do mercado.
Belmiro também destacou que as relações de trabalho mudaram muito nas últimas décadas. Ele observou que o modelo tradicional de emprego com carteira assinada já não é visto da mesma forma por parte da população, especialmente diante do crescimento de novas formas de atuação profissional.
Para o CEO, oferecer mais flexibilidade pode ser positivo. Ele citou como exemplo o avanço dos aplicativos e do trabalho autônomo, que permitem ao profissional escolher horários e organizar melhor a própria rotina.
Entre os pontos defendidos pelo executivo estão:
• possibilidade de pagamento por hora trabalhada
• adaptação das empresas à demanda variável ao longo da semana
• revisão do modelo atual da CLT diante das novas formas de trabalho
• reconhecimento do crescimento dos microempreendedores individuais
Ele afirmou que o debate sobre a escala é apenas o começo de uma discussão maior sobre o modelo trabalhista no país.
Governo defende negociação e jornada adaptada por categoria
O tema também foi tratado durante a 2ª Conferência Nacional do Trabalho, realizada em São Paulo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu que a construção de uma solução passe por diálogo entre empresários, trabalhadores e governo.
Lula afirmou que é preciso considerar as diferenças entre categorias profissionais, já que cada setor possui realidade própria. Para o presidente, pode haver uma regra geral, mas a regulamentação deve levar em conta as especificidades de cada atividade.
A ministra do Planejamento, Simone Tebet, também apoiou a proposta de mudança. Ela afirmou que a economia brasileira tem condições de suportar a redução da jornada e que a medida é viável. Segundo a ministra, é necessário avançar na negociação para garantir dignidade aos trabalhadores sem comprometer o funcionamento das empresas.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, destacou a importância de pensar no que o país pretende produzir com a nova organização da jornada. Já o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, avaliou que a redução pode gerar impacto nos custos, mas também melhorar o ambiente profissional e a qualidade de vida.
No Congresso, a proposta tramita por meio de projetos e propostas de emenda à Constituição. O governo não descarta enviar um projeto com urgência caso considere que a discussão esteja avançando lentamente.
Com posições distintas dentro do setor empresarial, o apoio de um CEO de grande rede de supermercados reforça que o debate sobre o fim da escala 6×1 vai além da política e envolve diferentes visões sobre o futuro das relações de trabalho no Brasil.