Como disciplina operacional, negociação com fornecedores e inteligência comercial estão perdendo e transformando desperdício em resultado
Avançar o conceito de lixo zero no varejo alimentar é um desafio que começa muito antes da gôndola. Envolve negociação com fornecedores, cultura interna, controle rigoroso de estoque e, principalmente, mudança de confiança.
Para Marlon Vale, gerente do Supermercados Leal do Vale, o primeiro grande obstáculo é a comunicação integrada entre loja, indústria e colaboradores. “O lixo zero não depende apenas da operação interna. Ele começa na negociação com a indústria e no alinhamento com parceiros estratégicos”, afirma.
Na mercearia, negociar prazos de validade mais adequados é decisivo para garantir um giro saudável. Já no hortifrúti, o foco está na qualidade e na frequência de abastecimento. “Produtos com padrão elevados e entregas mais exigentes significativamente as perdas”, explica o gestor.
Mas os processos, por si só, não resolvem. O engajamento da equipe é peça-chave. No Leal do Vale, em Tremembé (SP), o tema faz parte da cultura organizacional, com atuação dedicada da equipe de prevenção de perdas nas duas unidades. “Não adianta ter procedimento se o tempo não entender o impacto econômico e ambiental do desperdício”, reforça.
Na prática, as iniciativas são objetivas e os resultados, mensuráveis. No hortifrúti, uma rede estruturada de parcerias com fornecedores que realizam entregas três semanas, permitindo trabalhar com volumes mais assertivos e produtos sempre frescos. A conferência rigorosa no recrutamento garante padrão de qualidade e evita que itens fora de planejamento avancem na cadeia.
O investimento em infraestrutura também faz diferença: climatizado no estoque e ar-condicionado na área de vendas amplia a durabilidade dos produtos. É uma gestão de detalhes que impacta diretamente o DRE.
Outro movimento estratégico é o reaproveitamento inteligente. Frutas e legumes com pequenos machucados, mas próprios para consumo, são processados e vendidos cortados, picados ou ralados, embalados em pacote embalado. A prática agrega valor, reduz o descarte e atende um consumidor que busca conveniência.
Quando não há possibilidade de retorno ao fornecedor, produtos ainda adequados para consumo são destinados a instituições locais de Tremembé, como asilos e o Carmelo das irmãs carmelitas, ampliando o impacto social da operação.
Na mercearia, além do acompanhamento diário, a rede promove mensalmente um mutirão setorial: todos os produtos de um setor são retirados das gôndolas, conferidos item a item e reorganizados. O sistema PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai) é aplicado com rigor. Para itens próximos ao vencimento, entram em cena estratégias comerciais agressivas para acelerar o giro.
Para Marlon Vale, lixo zero não significa apenas reduzir desperdício. “É transformar perda em oportunidade, seja por eficiência operacional, inteligência comercial ou responsabilidade social.”