Varejo lidera risco de Burnout, aponta pesquisa

A entrada em vigor das exigências previstas na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforça a atenção à saúde mental no ambiente corporativo, acende um alerta no varejo alimentar brasileiro. Além de se adequar às novas regras trabalhistas, empresas do segmento enfrentam outro desafio crescente: a dificuldade para atrair e reter profissionais em um mercado historicamente marcado por jornadas intensas e alta rotatividade.

Os desafios se tornam ainda mais urgentes diante dos dados do relatório “NR-1: do compliance à alta performance”, realizado pela plataforma de empregos Gupy. O estudo aponta um cenário preocupante para a saúde mental no varejo: o setor registra a maior taxa de respostas na faixa crítica de esgotamento, com 10,79%.

Para Priscila Siqueira, Chief Revenue Officer da Gupy, o percentual reflete cobranças diárias do setor: “Esse número não é um acaso, mas o reflexo de uma operação de alta fricção por natureza: pressão por resultado, metas agressivas, sazonalidade extrema e jornadas, muitas vezes, sem previsibilidade”.

A executiva ressalta ainda que o fator que mais contribui para o adoecimento não é apenas o risco de trabalho, mas a falta de visibilidade sobre o ‘risco humano’ na mesma velocidade em que se monitora o estoque ou as metas de vendas. Enquanto as empresas continuarem tratando o tema como uma questão individual, continuarão sofrendo com o ‘vazamento silencioso’ de valor em forma de turnover e absenteísmo”, afirma Priscila.

Os principais sintomas e o “presenteísmo”

Segundo o levantamento, 86% dos trabalhadores brasileiros já vivenciaram algum problema de saúde mental relacionado ao trabalho. Entre as queixas mais frequentes, aparecem o estresse (65%), ansiedade (54%) e insônia (40%). Para uma liderança de varejo, isso significa que uma parcela expressiva pode estar operando em “presenteísmo”: estão fisicamente presentes, mas sem foco.

De acordo com Priscila, o burnout é um processo, não um evento súbito. “Os sinais como exaustão, desengajamento e queda na concentração manifestam-se na planilha da empresa como queda de produtividade e erros operacionais”, comenta.

Na tentativa de tornar as vagas mais atrativas e reduzir o desgaste das equipes, algumas redes já começaram a testar mudanças na escala de trabalho, como a adoção do modelo 5×2 — em substituição a jornadas mais longas e menos flexíveis, comuns no setor. A movimentação busca não apenas atender às novas exigências legais, mas também responder a uma demanda do próprio mercado de trabalho, cada vez mais atento à qualidade de vida e ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Prevenção na prática

Quando os sintomas surgem, o primeiro passo é reconhecer o problema. “Para a empresa, isso significa abrir espaço seguro para escuta, acionar lideranças preparadas, envolver RH e saúde ocupacional quando necessário e revisar o contexto de trabalho daquela pessoa ou equipe: carga, metas, jornada, apoio, clareza de papel e qualidade da liderança”, completa.

Nesse contexto, as empresas precisarão ir além do cumprimento formal da NR-1. A adoção de políticas voltadas ao bem-estar, programas de apoio psicológico, revisão de escalas e benefícios mais competitivos tendem a se tornar fatores estratégicos para a sustentabilidade do negócio.

“É importante reforçar, porém, que a ação deve ser sistêmica”, afirma Priscila. No Brasil, os benefícios concedidos por transtornos mentais e comportamentais saltaram de pouco mais de 200 mil para mais de 540 mil por ano entre 2021 e 2025.

“A NR-1 chega para dar governança: exige inventário de riscos e planos de ação. Na Gupy, defendemos que essa jornada deve ser holística. Para o colaborador, o caminho é a sinalização precoce; para a empresa, é a garantia de um ambiente psicologicamente seguro onde essa conversa possa acontecer sem medo, com protocolos e ações claras e justas”, destaca a executiva da Gupy.

Mais do que uma questão de compliance, o cuidado com a saúde mental passa a ser visto como uma ferramenta para reduzir turnover, elevar a produtividade e tornar o varejo mais competitivo na disputa por talentos.

Pesquisas de clima ajudam a identificar padrões por área e acompanhar individualmente a experiência dos colaboradores com base em avaliações e indicadores qualitativos. Em linha com a NR-1, o burnout passa a ser tratado como um risco operacional, ligado à cultura, performance e sustentabilidade das empresas — e não apenas como uma questão pontual ou jurídica. Ainda assim, o diagnóstico deve ser feito por um profissional de saúde, já que esses sinais não substituem avaliação clínica.

“A prevenção do burnout começa quando a saúde mental passa a ser tratada como parte estratégica da gestão do negócio. Isso exige monitoramento contínuo dos riscos psicossociais, com escuta frequente dos colaboradores, identificar hotspots, revisão da carga de trabalho, metas realistas e lideranças preparadas para oferecer segurança psicológica” afirma Priscila.

Na prática, a prevenção passa por medidas como:

●       Clareza de expectativas e prioridades

●       Metas realistas e melhor distribuição de carga

●       Lideranças preparadas para gerar segurança psicológica

●       Escuta contínua por meio de pesquisas e dados

●       Revisão do desenho do trabalho, e não só ações pontuais de bem-estar

●       Canais confiáveis e proteção contra retaliação

Dados do relatório apojtam que 69% dos profissionais afirmam que seus gestores têm o maior impacto em sua saúde mental, reforçando o papel da liderança na prevenção. Além disso, a tecnologia pode ajudar a treinar líderes e a medir a eficácia das ações, tornando a criação de um ambiente saudável uma decisão empresarial, e não apenas uma responsabilidade individual do colaborador.

Fonte : https://samais.com.br/publicacoes/varejo-lidera-risco-de-burnout-aponta-pesquisa

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