A urgência de incluir pessoas com deficiência e outros grupos minorizados na política brasileira
As eleições de 2026 se aproximam em um momento particularmente complexo, delicado e muito desafiador do que podemos chamar de democracia brasileira… se é que em algum momento da nossa sempre conturbada história já tivemos algum momento que não fosse complexo, delicado e desafiador!
Entre tantos desafios estruturais e estruturantes, um permanece historicamente negligenciado: a baixa representatividade das pessoas com deficiência nos espaços de poder e decisão. Na verdade, essa reflexão vale para todos os grupos de direitos, minorizados, excluídos, e subrepresentados, de nosso miscigenado e diverso espectro social. Ou seja, tem muita gente fora do sistema e isso não é justo, nem sustentável!
Trata-se de um paradoxo evidente!
Embora milhões de brasileiras e brasileiros vivam com algum tipo de deficiência, sua presença nos parlamentos, governos e instâncias estratégicas, públicas e privadas, ainda é extremamente limitada. Dados do IBGE indicam que pelo menos 7,3% da população brasileira possui deficiências em graus moderados e severos, o que representa mais de 14 milhões de pessoas de um total que deve chegar a 30 milhões. A esse continente, podemos somar seus familiares, amigos e entorno para termos a dimensão do seu inexplorado potencial eleitoral e o impacto que mais e melhores políticas públicas inclusivas poderiam ter na sociedade como um todo!
O stablishment conservador
Como o “inimigo” é comum – o stablishment conservador e preconceituoso, avesso a mudanças – imagine o poder que esses grupos politicamente esquecidos, diversos, juntos, representando parcela significativa da sociedade, poderiam promover e lograr em termos de representatividade nos espaços onde decisões fundamentais são tomadas.
Mas, sabemos, que essa articulação, união e consolidação de movimentos sociais não é tão automática e simples assim. Porém, essa interseccionalida, com certeza, seria o melhor dos caminhos, até porque significaria muito mais do que uma questão meramente numérica, mas, sim, uma potente e representativa campanha por justiça democrática.
A presença de pessoas diversas na política não deve ser vista como simbólica ou excepcional, mas como parte essencial de um sistema que deveria ser verdadeiramente plural. O mote internacionalmente reconhecido: “Nada Sobre Nós, Sem Nós” – vale para pessoas com deficiência e para cada um desses outros segmentos, reforçando o princípio de que políticas públicas eficazes só podem ser construídas com a participação ativa daqueles diretamente impactados.
Nesse contexto, engajar mais pessoas com deficiência nos partidos e nos processos eleitorais é um passo fundamental! Historicamente, nossa participação e representatividade têm sido pífias, com poucas e nobres exceções de candidatos com deficiência que logram se eleger e nos representar nos parlamentos pelo país.
O certo, mesmo, para mudar quadro atual, seria aperfeiçoar a legislação eleitoral e criar cotas afirmativas também para candidaturas de pessoas com deficiência e outros militantes diversos, a exemplo do que hoje já acontece com as mulheres! O que você, respeitável leitora ou leitor, pensa sobre o tema?
Com certeza, seria uma medida transformadora, mas ainda não suficiente. É igualmente essencial que todos os candidatos, com ou sem deficiência, incorporem, de forma consistente, compromissos com acessibilidade, inclusão social e garantia de direitos a esses segmentos sub-representados. A pauta não pode ficar restrita a um punhado de representantes; ela precisa ser transversal, suprapartidária e permanente!
A experiência brasileira demonstra que políticas inclusivas bem formuladas têm impacto direto na qualidade de vida não apenas das pessoas com deficiência, mas de toda a sociedade. Acessibilidade urbana melhora a mobilidade de idosos, gestantes e crianças; comunicação acessível amplia o acesso à informação; inclusão no mercado de trabalho fortalece a economia; educação inclusiva constrói uma cultura mais diversa e empática.
Preciso listar mais exemplos do impacto positivo de se promover o protagonismo de todos, sem exceções?
Por isso, é essencial que o debate programático eleitoral avance para além de promessas genéricas e passe a incorporar diretrizes concretas, como, entre outras:
- promoção da acessibilidade em todas as suas dimensões (arquitetônica/urbanística, digital/comunicacional, programática, metodológica, instrumental, natural/ambiental e atitudinal);
- fortalecimento de políticas públicas intersetoriais;
- investimento em tecnologia assistiva e inovação;
- ampliação do acesso à educação e ao trabalho;
- garantia de orçamentos condizentes e continuidade das políticas de inclusão.
Outro ponto central é a necessidade de transformar essa agenda ora espasmódica em políticas de Estado. O respeito aos direitos humanos, contemplando todas as pessoas, não pode depender de ciclos eleitorais ou de vontades individuais. Temos que exigir planejamento, conhecimento técnico, compromisso institucional de longo prazo e, importantíssimo, recursos orçamentários compatíveis com os desafios da inclusão.
Além disso, em movimento sinérgico, a sociedade civil tem de fortalecer suas entidades representativas e seus movimentos sociais organizados, que têm funções estratégicas nesse contexto, seja na formulação de propostas, no monitoramento das políticas públicas ou na cobrança por resultados concretos. A construção de uma agenda democrática e inclusiva é coletiva e permanente!
As próximas eleições, como as passadas e as futuras, representam, portanto, oportunidades reais de avanço, não apenas pela possibilidade de eleger mais representantes com deficiência e diversos, mas pela oportunidade de estruturar diretrizes nacionais, regionais e locais que atravessem partidos, ideologias e governos. Vamos votar em quem melhor nos representa!
Mais do que uma pauta específica, a inclusão dos políticamente excluídos é um grande indicador da qualidade da democracia de um país. Uma sociedade que não garante voz, espaço e direitos a todos os seus cidadãos ainda não atingiu seu pleno potencial democrático.
O desafio está posto: ampliar a representatividade, qualificar o debate e garantir que a inclusão deixe de ser exceção para se tornar regra. Afinal, uma democracia só é completa quando absolutamente ninguém fica de fora. Quem se engaja?