Pix Automático pode reduzir a inadimplência , mas a lição vai além da cobrança

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Nova modalidade de pagamento pode melhorar o fluxo de caixa das empresas. Mas seu maior valor está na forma como ajuda a repensar a relação com o cliente

Há uma cena que se repete diariamente em milhares de pequenas e médias empresas brasileiras. O mês termina. A venda foi feita. O serviço foi prestado. Os produtos foram entregues – mas o dinheiro não entrou.

A partir daí começa uma rotina que muitos empresários conhecem bem: emissão de segunda via de boletos, mensagens de cobrança, renegociação de pagamentos, conferência de planilhas e tentativas de localizar clientes. Normalmente, essa situação recebe um nome: inadimplência.

Mas talvez o problema não seja exatamente esse. Ou, pelo menos, não apenas esse. O lançamento do Pix Automático pelo Banco Central, que começa a chegar ao mercado como opção para pagamentos recorrentes, traz uma reflexão importante para quem administra um negócio: quanto custa receber de um cliente?

A resposta parece simples. Porém, ela vai muito além do valor que deixa de entrar no caixa. O custo invisível das cobranças. Quando um pagamento atrasa, a perda mais evidente é financeira. Entretanto, existem outros custos que raramente aparecem nos relatórios da empresa.

Há o tempo gasto pela equipe. Há o retrabalho administrativo. Há os recursos destinados à cobrança. E existe, principalmente, o desgaste na relação com o cliente. Esses custos não aparecem como despesas formais, mas corroem margem todos os meses.

Em muitos casos, o consumidor não deixa de pagar porque está insatisfeito ou porque decidiu abandonar a empresa.

• Ele simplesmente esquece.

• Perde o vencimento.

• Não encontra o boleto.

• Troca de cartão.

• Muda de conta bancária.

• Ou deixa para resolver depois.

O resultado é que empresas gastam tempo e dinheiro para recuperar receitas que poderiam ter entrado naturalmente. Esse é um problema antigo. E é justamente nesse ponto que o Pix Automático pode representar uma mudança relevante. Mais do que um novo meio de pagamento. 

À primeira vista, o Pix Automático parece apenas uma evolução tecnológica. O cliente autoriza previamente uma cobrança recorrente, e os pagamentos passam a ocorrer de forma automática, sem necessidade de novas confirmações a cada vencimento. 

Na prática, porém, o impacto pode ser muito maior. Empresas que trabalham com mensalidades, assinaturas, contratos recorrentes, academias, escolas, cursos, serviços de tecnologia, clubes de benefícios e associações convivem diariamente com desafios relacionados à previsibilidade financeira.

Quando uma parcela significativa dos clientes atrasa pagamentos, a empresa perde capacidade de planejamento. 

• O caixa fica mais apertado.

• Os investimentos são adiados.

• A operação se torna menos eficiente.

Nesse contexto, a nova modalidade pode contribuir para reduzir uma das maiores fontes de incerteza dos pequenos negócios: saber quanto efetivamente será recebido ao final do mês.

Pix Automático não é Pix Parcelado

A chegada das novas modalidades do sistema Pix tem gerado dúvidas entre empresários. Afinal, tanto o Pix Automático quanto o Pix Parcelado estão ganhando espaço no mercado. Apesar dos nomes parecidos, eles atendem necessidades diferentes.

O Pix Parcelado funciona como uma operação de crédito. O consumidor divide uma compra em parcelas, enquanto a instituição financeira realiza a  operação financeira necessária para viabilizar o pagamento.

Já o Pix Automático foi desenvolvido para cobranças recorrentes. Seu foco está em pagamentos periódicos, como mensalidades, assinaturas e contratos continuados.

Para pequenas e médias empresas, a diferença é importante. Enquanto o Pix Parcelado ajuda a vender, o Pix Automático ajuda a receber. Ou seja, tem potencial para melhorar a previsibilidade do caixa e reduzir custos relacionados à cobrança. A tecnologia resolve uma parte do problema

Existe, porém, um risco que merece atenção. Toda vez que surge uma nova tecnologia, existe a tentação de acreditar que ela resolverá problemas que, na verdade, pertencem à gestão. O Pix Automático facilita a cobrança, mas ele não substitui uma boa relação de consumo.

Se o cliente não compreender claramente o que está contratando, se houver dificuldade para cancelar um serviço ou se a empresa não mantiver canais eficientes de atendimento, os conflitos continuarão existindo. A diferença é que eles aparecerão em outro momento da jornada.

Por isso, o sucesso da ferramenta depende menos da tecnologia e mais da forma como ela será incorporada ao relacionamento com o consumidor. Empresas que comunicarem regras com clareza, oferecerem transparência e respeitarem a autonomia do cliente provavelmente colherão melhores resultados.

Cobrança também é experiência do cliente

Durante muito tempo, a cobrança foi tratada apenas como uma atividade financeira. Primeiro vendia-se. Depois cobrava-se. 

Hoje, essa lógica já não faz sentido. A experiência do cliente não termina quando a compra é concluída. Ela continua durante todo o relacionamento – incluindo o momento do pagamento.

Quando o pagamento é confuso, o cliente atrasa, a empresa cobra, perde tempo e, muitas vezes, concede desconto para resolver. Isso é margem indo embora. Processos simples, previsíveis e transparentes reduzem atritos. E empresas que reduzem atritos tendem a reter mais clientes.

Por isso, talvez a principal contribuição do Pix Automático não esteja na tecnologia em si. Ela pode estar na oportunidade de repensar uma etapa da jornada que costuma receber pouca atenção estratégica. Uma oportunidade para reduzir custos operacionais. 

Outro aspecto que merece atenção é o custo da operação. Hoje, muitas empresas dependem de boletos bancários, sistemas de cobrança terceirizados ou meios de pagamento que envolvem taxas mais elevadas.

O Pix Automático surge como uma alternativa potencialmente mais econômica para diversos modelos de negócio. Além da redução de custos, a padronização estabelecida pelo Banco Central tende a facilitar a integração entre empresas e instituições financeiras.

Na prática, isso pode tornar a adoção da ferramenta mais simples, inclusive para pequenos negócios que tradicionalmente enfrentam maiores dificuldades para implementar soluções de cobrança recorrente. O resultado pode ser uma operação mais eficiente, menos dependente de controles manuais, e com menor necessidade de intervenção das equipes administrativas.

A lição por trás do Pix Automático

O empresário costuma acreditar que perde dinheiro apenas quando o cliente deixa de pagar. Mas parte das perdas está nos custos invisíveis da operação. Está no tempo gasto com cobranças, nos processos manuais, nas taxas pagas para receber e nas dificuldades criadas ao longo da jornada do cliente.

O Pix Automático não resolve sozinho todos esses desafios. Porém, ele oferece uma oportunidade para simplificar processos, reduzir custos e fortalecer a previsibilidade financeira do negócio.

Em um cenário de margens cada vez mais apertadas, essa pode ser uma vantagem competitiva que vai muito além da tecnologia. Porque receber melhor continua sendo uma das formas mais eficientes de crescer de forma sustentável. 

Receber mal não aparece como linha isolada. Mas aparece no resultado — e costuma custar mais do que parece.

Fonte : https://dcomercio.com.br/publicacao/s/pix-automatico-pode-reduzir-a-inadimplencia-mas-a-licao-vai-alem-da-cobranca

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