O avanço das apostas esportivas online tem levado o varejo brasileiro a buscar novas formas de atrair consumidores e minimizar os efeitos da migração de parte da renda das famílias para as chamadas bets. Segundo estimativas da consultoria Strategy& Brasil, da PwC, entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões por ano deixaram de ser destinados à compra de produtos e serviços em razão do crescimento das apostas online.
O tema ganhou relevância nas últimas semanas, após declarações do presidente da companhia aérea Gol, Celso Ferrer, que apontou as bets como uma das responsáveis pela estagnação do mercado brasileiro de aviação, atualmente estimado entre 90 milhões e 100 milhões de passageiros por ano. Segundo o executivo, o setor tem potencial para crescer, mas enfrenta concorrência de novas formas de consumo que disputam o orçamento dos brasileiros.
De acordo com Gerson Charchat, sócio e líder de Consumo da Strategy& Brasil, o crescimento acelerado do mercado de apostas desde 2023 tem gerado preocupação em diversos segmentos econômicos. “Os varejistas foram muito afetados pelas bets e estão atentos a esse movimento”, afirma.
Uma das respostas encontradas pelo setor tem sido a incorporação de recursos típicos dos jogos digitais em plataformas de comércio eletrônico. Entre as iniciativas estão ferramentas como roletas, desafios e sistemas de recompensas, que buscam aumentar o engajamento do consumidor durante a experiência de compra.
Para Eduardo Terra, presidente do Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV) e fundador do Instituto Retail Think Tank (IRTT), a estratégia é uma forma de competir pela atenção do consumidor. “Se não posso vencer esse concorrente diretamente, procuro utilizar alguns dos mecanismos que tornam os jogos tão atrativos”, explica.
Especialistas apontam que o sucesso das apostas está relacionado a fatores comportamentais. Segundo Terra, a combinação de diversão, expectativa de recompensa e estímulos neurológicos ligados à liberação de dopamina contribui para o forte engajamento dos usuários.
Nesse contexto, empresas de comércio eletrônico vêm se inspirando em plataformas asiáticas como TikTok Shop, Shopee e Temu, que já utilizam elementos de entretenimento para tornar a jornada de compra mais interativa. A tendência, conhecida como “gamificação”, busca transformar a experiência de consumo em uma atividade mais envolvente e menos focada apenas na busca direta por produtos.
“Hoje o consumidor quer mais do que uma compra objetiva. Ele procura descoberta, interação e experiências durante a navegação”, observa Terra.
Embora a prática já esteja consolidada em mercados asiáticos, sua adoção ainda é considerada inicial entre varejistas brasileiros. Nas lojas físicas, porém, a aplicação desses recursos ainda enfrenta limitações.
Outra estratégia observada pelas empresas é o redirecionamento de investimentos em publicidade. Segundo Charchat, parte das verbas antes destinadas à mídia tradicional, como televisão e rádio, está migrando para as redes sociais e plataformas digitais, acompanhando os hábitos de consumo do público.
A avaliação dos especialistas é que o varejo precisará adaptar continuamente suas estratégias para competir pela atenção e pelo orçamento dos consumidores em um cenário cada vez mais disputado, no qual as apostas online se consolidam como um novo concorrente do consumo tradicional.