Em entrevista exclusiva à EXAME, Belmiro Gomes afirma que a disparada dos juros mudou a conta da compra do Extra e obrigou a companhia a desacelerar investimentos
Quando o Assaí desembolsou cerca de R$ 7 bilhões para adquirir e reformar 66 pontos do Extra, em 2021, a conta parecia fazer sentido. A taxa básica de juros estava em 2%, e as projeções apontavam para um cenário de Selic ao redor de 7%. Cinco anos depois, a realidade é bem diferente.
A brincadeira do executivo resume o impacto que a política monetária teve sobre a companhia. Hoje, o Assaí desembolsa cerca de R$ 7 milhões por dia em despesas financeiras, incluindo fins de semana e e feriados. No acumulado do ano, a conta chega a aproximadamente R$ 2,3 bilhões.
“Mesmo pagando esse valor, nós reduzimos o montante da dívida líquida em R$ 1,2 bilhão no último ano. Isso mostra a capacidade de geração de caixa da companhia”, afirma.
A aposta que mudou o Assaí
A compra dos pontos do Extra marcou uma mudança estratégica na história da varejista. O objetivo era acelerar a presença do Assaí em regiões centrais das grandes cidades e ampliar sua participação entre consumidores de renda mais alta.
Por muito tempo, o atacarejo foi visto como um varejão de pobre. Havia um desejo nosso de levar o modelo para as classes sociais mais elevadas”, afirma.
A barreira imobiliária nas grandes metrópoles, segundo Belmiro, tornava quase impossível conseguir novos terrenos em regiões estratégicas. A aquisição dos pontos do Extra foi a maneira encontrada para acelerar essa expansão.
“Alguns desses pontos são muito difíceis de serem replicados, seja pela questão imobiliária ou pelo próprio licenciamento”, afirma.
Eu compraria o Extra novamente’
Apesar da conta dos juros, Belmiro diz que não se arrepende da operação.
Segundo ele, parte da frustração veio do fato de que toda a operação foi construída em um cenário macroeconômico completamente diferente.
“Nós trabalhamos com a expectativa do Boletim Focus da época. Ninguém imaginava esse nível de juros”, diz.
A expansão ficou mais lenta
O aumento dos custos financeiros obrigou o Assaí a mudar a rota. O plano original era abrir cerca de 15 lojas por ano. Agora, a prioridade é outra.
“Estamos investindo menos do que gostaríamos para reduzir a dívida”, afirma o executivo que adiantou que para este ano estão previstas 5 novas lojas no estado de São Paulo.
“Hoje a prioridade é preservar caixa e reduzir a dívida”, diz.
Novas apostas continuam
Frear a expansão não significa interromper investimentos. Pelo contrário.
Farmácias, marcas próprias, serviços financeiros, parceria com iFood e Mercado Livre e até a entrada no mercado de postos de combustíveis fazem parte das novas frentes de crescimento da companhia.
“Estamos segurando investimentos, mas preparando as próximas transformações”, afirma Belmiro.
O peso dos juros no Brasil
Para o executivo, o problema vai muito além do Assaí.
“Hoje, tirando a Rússia, que está em guerra, talvez o Brasil tenha a maior taxa de juro real do mundo”, afirma.
Na avaliação dele, os juros elevados acabam cobrando um preço ainda maior da população.
“O impacto para as companhias existe, mas talvez o custo maior seja para a sociedade. O juro alto por muito tempo aumenta a desigualdade social”, diz.
Olhar para os próximos dez anos
Sob o comando de Belmiro Gomes desde 2011, o Assaí saiu de um faturamento de R$ 3 bilhões para R$ 84,7 bilhões. Hoje, conta com cerca de 90 mil funcionários e recebe 40 milhões de clientes por mês.
Mesmo diante de um cenário mais adverso, o executivo mantém a convicção de que a aposta feita em 2021 será julgada pelo longo prazo, e não pelo custo atual da dívida.
“Algumas decisões estratégicas precisam ser tomadas, mesmo que exista o risco de as coisas não acontecerem como imaginávamos. Daqui a dez anos, a dívida terá ficado para trás. Os ativos continuarão lá , afirma.
Fonte : https://exame.com/negocios/hoje-pagamos-r-7-milhoes-de-juros-por-dia-diz-ceo-do-assai/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento