Nova tecnologia deve movimentar mais de R$ 100 bilhões este ano; Brasil é um dos pioneiros na adoção
O cliente de comércios e serviços vai fazer um pagamento, mas, do outro lado do balcão, quem vai receber o dinheiro não oferece uma maquininha para completar a transação, mas um telefone celular. O cenário se tornou mais comum na economia brasileira.
A modalidade de pagamento tap on phone, que permite que smartphones e tablets aceitem pagamentos por aproximação diretamente, funcionando como terminais de venda sem a necessidade de maquininhas tradicionais, movimentou R$ 27,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, com crescimento de 114,6% em relação ao mesmo período do ano passado.
Em dois anos, o crescimento acumulado das transações por essa tecnologia foi de impressionantes 1.188,8%, segundo pesquisa da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).
Por modalidade de pagamento, o crédito respondeu por R$ 25,4 bilhões, com um aumento de 115,6% de um ano para o outro, o débito, por R$ 1,2 bilhão (alta de 105,4%) e o pré-pago, por R$ 500 milhões (92,6%). Essa nova tecnologia vem sendo adotada, principalmente, para facilitar a digitalização de pequenos negócios.
Ao fim deste ano, a expectativa é de que serão movimentados R$ 100 bilhões em pagamentos recebidos em telefones celulares. É um valor bastante representativo, mas ainda uma parcela do universo total do mercado de pagamentos por cartões, que deve chegar a R$ 5 trilhões, neste ano.
“Haverá crescimento contínuo por vários anos. É muito difícil estimar a expansão pelos próximos anos, por que o setor como um todo cresce, e o uso dessa tecnologia está longe de atingir uma estabilidade”, afirma o vice-presidente da Abecs, Ricardo Vieira. “O próprio mercado de cartões vai crescer em torno de 37% este ano.”
A tecnologia tap on phone começou a ser adotada em 2021, mas teve um salto bastante expressivo nos últimos dois a três anos, refletindo uma espécie de revolução silenciosa no mercado de pagamentos, que se digitalizou fortemente após a pandemia. Essa revolução envolve o Pix e os pagamentos sem contato.
A adoção acelerada dessas novidades contrasta, por exemplo, com outras de um passado recente. Por exemplo, os pagamentos de cartões por proximidade começaram a ser adotados em 2008, e acabou por se popularizar apenas cerca de 10 anos depois. Agora, com o tap on phone, os aparelhos com o sistema Android do Google passaram a estar aptos a receber os pagamentos em 2021 e os da Apple, apenas em 2023.
Poderia haver uma expectativa de que essa adoção trouxesse uma canibalização de outras modalidades de pagamentos, como o uso da própria maquininha, mas o que se percebeu é que pessoas que não utilizavam maquininhas, como profissionais liberais (médicos, dentistas, personal trainers e professores de línguas) aderiram ao tap on phone, e começaram a usar o celular para receber pagamentos.
Esses não eram o público-alvo inicial, e sim o microcomércio, que também adotou a tecnologia, até como uma alternativa para momentos em que as maquininhas ficam sem sinal ou sofrem defeitos.
Sistema baseado em software, em vez de hardware
“O tap on phone foi criado pela Visa exatamente para atender esse pequeno comércio, como o taxista e o feirante, para que pudessem aceitar cartões com uma adoção por baixíssimo custo. É um sistema baseado em software, em vez de baseado em hardware, como as maquininhas”, afirma o diretor de aceitação da Visa, Marcos Marins. “Mas, no Brasil, a adoção foi um pouco diferente, com profissionais liberais, como personal trainers, dentistas e professores de inglês aderindo. Ela atingiu o nanocomércio e também uma camada de profissionais que nós não estávamos imaginando inicialmente. Caiu como uma luva para eles.”
Até por isso, no ambiente da Visa, o pagamento médio do tap on phone no Brasil supera bastante o de países próximos. O tíquete médio das compras pela plataforma gira, no País, em torno de US$ 78 (em torno de R$ 400), enquanto nos demais países da América do Sul que já receberam a tecnologia, como Argentina, Peru e Colômbia,
o gasto médio é de US$ 28 (R$ 140). Isso acontece por que, aqui, muitos pagamentos se referem a mensalidades de aulas e atendimentos, ou outros serviços de mais alto custo.
“O Brasil é sempre escolhido para liderar e iniciar revoluções digitais, por causa da velocidade de adoção de novidades. Estamos surfando esta onda de novas tecnologias de pagamentos, como o Pix e os pagamentos por aproximação”, diz Marins. Segundo dados da empresa americana, já existem no Brasil 3,5 milhões de terminais ativos para tap on phone, o que fez o País liderar o pódio que tem também os EUA e o Reino Unido, entre as três primeiras posições.
Os pagamentos por aproximação (conhecido pela sigla em inglês NFC) são uma tecnologia que deu muito certo no Brasil. A Abecs estima que 75% das compras presenciais já são feitas dessa forma. Em 2022, eram apenas 19%. A adoção dessa modalidade de pagamentos abriu caminho para o tap on phone. A migração para aparelhos celulares mais modernos também, lançados desde 2021 e munidos de antenas NFC liberadas.
“O tap on phone é uma tecnologia de grande disrupção de mercado. Como surfamos na onda do PIX, agora, estamos surfando na onda do tap”, diz o vice-presidente da fintech Recarga Pay, Gilmar Hansen. “O celular funcionar como uma maquininha parece algo simples, mas vence tantos obstáculos para facilitar o uso. A maquininha exige o pagamento de taxa de aluguel do equipamento, exige que fique sempre carregada, não pode quebrar, ou ser esquecida de ser levada para a prestação de um serviço. Já o celular faz parte da vida das pessoas o tempo todo. Está o tempo todo com elas.” Além disso, os telefones têm penetração de mercado por todo o território. Em lugares mais distantes, a manutenção das maquininhas pode ser mais complicada.
en, vice-presidente da Recarga Pay Foto: MARTA SANTOS
“De um mês para o outro, estamos vendo um crescimento em torno de 25% a 30% nos pagamentos por tap on phone”, afirma Hansen. A Recarga Pay é uma das fintechs que aproveitaram essa renovação nos meios de pagamentos.
Segundo a Visa, já existem 17 empresas clientes suas habilitadas para oferecer o recebimento de pagamentos por celular para os comércios e serviços.
Isso envolve tanto fintechs independentes, como o caso da Recarga Pay, quanto empresas de pagamentos e de maquininhas de grande porte. Na liderança da oferta dessa nova plataforma, estão Stone, Cloudwalk, PagSeguro, Mercado Pago e PicPay.
“Estamos há mais de três anos neste mercado de tap on phone, e mais de 4 milhões dos 9 milhões de empreendedores que atendemos usaram a tecnologia nos últimos 12 meses”, afirma o diretor-sênior de pequenas e médias empresas do Mercado Pago no Brasil, Daniel Davanço. “Para quem faz até 10 cobranças por dia, o tap on phone atende superbem”, completa o executivo. Desses 4 milhões de clientes, aproximadamente um terço também cobra com outros meios, como maquininha, link de pagamento e QR Code.
Esse tipo de uso de diversas plataformas e por públicos específicos facilita a promoção da tecnologia por empresas que surgiram no mercado de maquininhas, uma vez que elas não precisam temer muito uma canibalização do seu negócio principal ou uma substituição delas por telefones.
As tecnologias parecem conviver bem. Os estabelecimentos maiores, como restaurantes, lojas e supermercados, não aderem da mesma forma aos celulares, por que precisam de um sistema centralizado mais robusto, possível com as maquininhas.
Sem canibalização do mercado de maquininhas
Dessa forma, a nova tecnologia se insere como uma plataforma adicional dentro de um ecossistema de pagamentos. ”A tecnologia se destaca principalmente em situações de mobilidade, vendas externas, atendimentos fora de um ponto fixo e operações em que o empreendedor precisa começar a aceitar cartão de forma rápida e simples”, defende o diretor de produto da Stone, João Misko. “Essa tecnologia abre a porta para um perfil de empreendedor que muitas vezes não aceitava cartão e trabalhava principalmente com Pix. Quando você permite que um profissional autônomo, um vendedor porta a porta ou um prestador de serviço aceite cartão pelo próprio celular, você amplia o acesso dele ao mercado de pagamentos.”
Outra empresa desse mercado, a PicPay, do grupo J&F, começou a oferecer a modalidade de pagamento por celular em novembro de 2025. “O tap on phone vem crescendo em ritmo acelerado e já demonstra escala relevante no mercado brasileiro”, diz o executivo responsável por aceitação e adquirência no PicPay, Carlos Fernando. Entre janeiro e maio deste ano, o volume transacionado por essa tecnologia cresceu 72,4% na base de clientes ativos.
Fonte : https://www.estadao.com.br/economia/negocios/uso-de-celular-como-maquininha-dispara-e-transacoes-crescem-1189-em-dois-anos/