Podcast Acessando Lucília reúne especialistas para discutir os avanços promovidos pela legislação e os obstáculos que ainda impedem a plena inclusão de pessoas com deficiência nas empresas.
Há 35 anos, a Lei de Cotas para Pessoas com Deficiência transformou o mercado de trabalho brasileiro ao estabelecer a obrigatoriedade de contratação de profissionais com deficiência por empresas com 100 ou mais empregados. Apesar dos avanços conquistados desde a criação da Lei nº 8.213/1991, especialistas alertam que a inclusão ainda enfrenta barreiras estruturais, culturais e atitudinais.
Esses foram os principais temas debatidos no podcast Acessando Lucília, apresentado pela jornalista Lucília Machado. O episódio reuniu o médico sanitarista José Carlos do Carmo (KAL), coordenador da Câmara Paulista para Inclusão da Pessoa com Deficiência no Mercado Formal de Trabalho, e Maria de Fátima e Silva, especialista em inclusão, diversidade e responsabilidade social corporativa, coordenadora do programa Coexistir, do Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de São Paulo (Sincovaga-SP).
Durante a conversa, KAL destacou que a Lei de Cotas promoveu uma mudança histórica ao garantir o acesso de milhares de pessoas com deficiência ao emprego formal.
“Hoje já não surpreende encontrarmos pessoas com os mais diferentes tipos de deficiência desempenhando as mais diversas funções. Essas pessoas saíram da invisibilidade e passaram a ocupar espaços no mercado de trabalho. Isso representa uma grande conquista”, afirmou.
Ao mesmo tempo, ele lembrou que o cenário ainda está longe do ideal. Segundo o especialista, pouco mais da metade das vagas destinadas ao cumprimento da legislação está efetivamente ocupada.
“A metade cheia do copo mostra o enorme avanço conquistado. A metade vazia revela que ainda há um longo caminho para que a lei seja plenamente cumprida”, observou.
KAL também ressaltou que a atuação da Auditoria Fiscal do Trabalho foi determinante para ampliar as contratações ao longo dos anos. “Os estudos mostram que o avanço das contratações está diretamente relacionado à fiscalização. Quando ela diminui, o número de admissões também cai.”
Para Maria de Fátima, a maior contribuição da Lei de Cotas vai além do cumprimento de uma obrigação legal. Segundo ela, a legislação impulsionou uma importante transformação cultural dentro das organizações. “A Lei de Cotas contribuiu para mudar o olhar sobre as pessoas com deficiência e abriu caminho para que as empresas também passassem a discutir diversidade de forma mais ampla.”
Ela destaca, entretanto, que o capacitismo ainda é um dos principais entraves para a inclusão efetiva. “A empresa não contrata um ‘PCD’. Ela contrata um analista, um porteiro, um recepcionista, um profissional. Ter deficiência é apenas uma das características dessa pessoa.”
Outro ponto abordado foi o mito da falta de qualificação profissional. Para Maria de Fátima, esse argumento já não encontra respaldo na realidade. “Hoje não é possível dizer que faltam pessoas qualificadas. Ao longo dos anos, muitos profissionais com deficiência investiram na própria formação e ampliaram sua empregabilidade.”
Ela acrescenta que o desafio atual exige uma análise mais profunda dos dados. “Precisamos compreender tanto a realidade das empresas quanto a das pessoas com deficiência para encontrar soluções mais eficazes. Apenas os números já não explicam tudo.”
Durante o episódio, KAL reforçou que a contratação de pessoas com deficiência não deve ser encarada apenas como uma obrigação legal, mas como uma estratégia que fortalece as organizações. “Quando uma empresa deixa de contratar alguém por causa de uma característica, corre o sério risco de desperdiçar talentos. Apostar na diversidade é tornar-se mais preparada para enfrentar os desafios do mundo empresarial.”
Os especialistas também chamaram atenção para a necessidade de eliminar barreiras atitudinais, ampliar a acessibilidade e capacitar gestores e equipes de recrutamento para processos seletivos mais inclusivos.
Na avaliação dos convidados, cumprir a legislação continua sendo fundamental, mas a verdadeira inclusão depende de mudanças na cultura organizacional, na forma de enxergar as competências das pessoas com deficiência e no compromisso permanente das empresas com ambientes de trabalho acessíveis, diversos e livres de preconceitos.
Clique aqui e assista a entrevista na íntegra.
Thais Abrahão – Presstalk Comunicação
JUL/26