Na América Latina, o prazo médio para pagamento é de 56 dias. No Brasil, chega a 66 dias, o mais elevado da região, ao lado da Argentina.
Mesmo em um cenário de desaceleração econômica, juros elevados e maior pressão sobre o fluxo de caixa, as empresas brasileiras continuam entre as mais expostas ao risco de crédito na América Latina.
A conclusão é da Pesquisa de Pagamentos da América Latina 2026, da Coface, empresa especializada em seguro de crédito e gestão de riscos. O levantamento, realizado entre abril e maio deste ano com 272 empresas de seis países latino-americanos, mostra que o Brasil mantém os maiores prazos médios de pagamento entre empresas da região.
Ao mesmo tempo, o país convive com elevados índices de atraso nos recebimentos e um ambiente de crescente insolvência corporativa.
A venda a prazo continua sendo prática quase universal na região. Em 2026, 95% das empresas afirmaram conceder crédito comercial aos clientes, acima dos 88% registrados no ano anterior.
A diferença é que, diante do aumento das incertezas econômicas, boa parte das companhias passou a encurtar os prazos para reduzir a exposição ao risco. No Brasil, porém, esse movimento não ocorreu, segundo a pesquisa.
No conjunto da América Latina, o prazo médio para pagamento caiu de 59 para 56 dias. No Brasil, o prazo permaneceu em 66 dias — o mais elevado da região, ao lado da Argentina.
Segundo Patricia Krause, economista da Coface para a América Latina, o crédito comercial continua sendo um importante instrumento para manter a competitividade, mas as empresas passaram a selecionar com mais cuidado para quem concedem esse benefício.
“A redução dos prazos mostra uma postura mais cautelosa, diante da necessidade de preservar liquidez e de um ambiente de risco que segue pressionado”, afirma.
Apesar desse movimento, os atrasos continuam disseminados. A pesquisa aponta que 79% das empresas latino-americanas registraram pagamentos em atraso neste ano, percentual ligeiramente superior ao observado em 2025. Em contrapartida, o tempo médio desses atrasos diminuiu de 42 para 33 dias, sugerindo que as empresas têm conseguido agir com mais rapidez na cobrança e recuperação dos valores em aberto.
Entre as principais razões para os atrasos aparecem a inadimplência dos próprios clientes, apontada por 63% das empresas entrevistadas, seguida pela queda da demanda (29%), aumento da concorrência (26%) e custos elevados de financiamento (19%). No caso brasileiro, o peso dos juros elevados amplia a dificuldade das empresas em administrar capital de giro e manter o equilíbrio financeiro.
Realidade brasileira
Esse cenário também se reflete nos indicadores nacionais. Dados da Serasa Experian mostram que, em fevereiro de 2026, 8,8 milhões de empresas estavam inadimplentes, praticamente o mesmo patamar do recorde histórico registrado no fim de 2025.
Juntas, elas acumulam mais de 60 milhões de dívidas, que somam R$ 201,7 bilhões. As micro e pequenas empresas representam aproximadamente 95% desse universo, enquanto o setor de serviços concentra a maior parte das companhias negativadas, seguido por comércio e indústria.
A deterioração das condições financeiras também aparece nas estatísticas de recuperação judicial. Em 2025, foram registrados 2.466 pedidos no país, o maior número da série histórica.
Confiança
Esse cenário também se reflete no ambiente de negócios brasileiro. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram que o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) ficou em 44,4 pontos em julho, permanecendo abaixo da linha dos 50 pontos há 19 meses consecutivos, o menor nível desde junho de 2020, quando marcou 41,2 pontos.
Embora a indústria tenha registrado uma leve melhora nas condições de acesso ao crédito e na percepção sobre sua situação financeira, os juros elevados continuam entre os principais entraves ao desempenho das empresas.
Para Marcel Solimeo, economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a deterioração da saúde financeira das empresas e o ambiente macroeconômico se retroalimentam.
“Uma coisa está ligada à outra. Manter juros elevados por tanto tempo mina a saúde financeira das empresas. Mesmo negócios capitalizados sentem os efeitos, porque uma dívida pequena pode crescer rapidamente se não houver controle”, diz.
Segundo ele, a política fiscal também contribui para manter o crédito caro. “O desequilíbrio das contas públicas pressiona as taxas de juros, encarece o crédito bancário e dificulta o financiamento da atividade econômica. E com tanta concorrência, as empresas não podem se dar ao luxo de não permitir esse tipo de crédito.”
Reforma Tributária
O economista da ACSP chama a atenção ainda para outro fator que pode aumentar a pressão sobre o caixa das empresas: a implementação do chamado Split Payment, mecanismo previsto na Reforma Tributária que direciona automaticamente parte do pagamento ao recolhimento dos tributos.
Ele lembra que uma característica tradicional do mercado brasileiro é a venda a prazo entre empresas, especialmente no comércio, que começa a formar estoques para datas específicas, como o Natal, meses antes das vendas ao consumidor.
“Com o Split Payment, o imposto é recolhido no momento da transação. Se a mercadoria demorar para ser vendida, o empresário já terá desembolsado esse recurso, o que pode provocar um forte impacto no capital de giro, principalmente das pequenas empresas”, destaca Solimeo.
Segundo o economista, a experiência internacional mostra que esse modelo exige cautela para não gerar mais burocracia e desequilíbrio financeiro. “Uma transição gradual, com redução progressiva dos prazos de crédito, seria menos traumática para a economia do que uma adoção ampla e imediata do novo sistema. Na Europa não deu muito certo.”
Sobre as estratégias para enfrentar um ambiente de crédito mais restritivo, Solimeo pontua que as empresas precisam olhar primeiro para dentro de casa antes de recorrer a novos empréstimos. “Em muitos casos, vale mais a pena desmobilizar ativos ou buscar recursos dentro da própria empresa do que contratar crédito caro no mercado”, conclui.
Visão do empresariado
Na prática, o cenário já alterou a rotina de muitas empresas. É o caso do empresário Carlos Henrique Almeida, de 48 anos, proprietário de uma distribuidora de materiais elétricos em Campinas (SP).
Com cerca de 50 funcionários e uma carteira formada principalmente por lojas de materiais de construção de médio e pequeno porte, ele sempre trabalhou com vendas a prazo, oferecendo entre 60 e 90 dias para pagamento. Nos últimos dois anos, porém, o aumento dos atrasos levou a empresa a endurecer a análise antes de aprovar novos negócios.
Clientes que tradicionalmente mantinham os pagamentos em dia passaram a solicitar renegociações, obrigando a distribuidora a recorrer com maior frequência a recursos próprios e a adiar investimentos em estoque e novas contratações.
“Hoje não basta avaliar apenas o tamanho da compra. Precisamos analisar o histórico financeiro do cliente, revisar limites de crédito e, em alguns casos, exigir uma entrada maior. Queremos vender, mas precisamos ter segurança de que esse dinheiro vai retornar para a empresa. Já tive muito prejuízo. Ao mesmo tempo, a concorrência é grande e cada caso precisa ser avaliado individualmente”, ressalta Almeida.
A mudança também afetou os planos de expansão do negócio. Investimentos em estoque e novas contratações foram adiados para reforçar a liquidez. “Antes, nossa preocupação era crescer. Agora, é crescer sem comprometer a saúde financeira. Um único cliente inadimplente pode afetar vários meses do meu fluxo de caixa”, diz o empresário.
Gestão de risco
Para Ricardo Costa, diretor comercial da Coface Brasil, vender a prazo deixou de ser apenas uma condição comercial. “Hoje, essa decisão precisa ser tratada como uma decisão de crédito. O prazo pode ajudar a impulsionar vendas e aumentar competitividade, mas também impacta diretamente capital de giro, fluxo de caixa e o nível de risco assumido pela empresa.”
Levantamento do Sebrae mostra que essa preocupação também chegou aos pequenos negócios. Entre os empreendedores que buscaram financiamento, 41% recorreram ao crédito para reforçar o capital de giro, sinalizando que a principal necessidade continua sendo sustentar a operação em um ambiente econômico mais restritivo.
Diante desse cenário, parte das empresas reforçou seus mecanismos de proteção. O seguro de crédito é hoje a ferramenta mais utilizada, adotada por 35% das companhias entrevistadas. Em seguida aparecem os serviços especializados de cobrança de dívidas (32%) e os relatórios de análise de crédito (31%). Ainda assim, 21% das empresas afirmam não utilizar nenhuma estratégia estruturada para reduzir o risco de inadimplência.
Apesar dos desafios, a pesquisa da Coface mostra que quase sete em cada dez empresas latino-americanas esperam melhorar seu desempenho ao longo de 2026. O otimismo, porém, vem acompanhado de uma postura mais cautelosa na concessão de crédito e na gestão financeira.