Fim da 6×1: escala mais branda atrai profissionais, mas comércio deve ter aumento de custo

Márcia Rodrigues

Muito antes de a discussão sobre o fim da escala 6×1 ganhar força no Congresso, o Magic City Parques & Hotéis decidiu rever a jornada de trabalho de seus colaboradores. A mudança não foi motivada por uma eventual alteração na legislação, mas por uma percepção cada vez mais comum entre empresas que dependem de operações presenciais: oferecer uma rotina mais equilibrada pode fazer diferença na hora de contratar e manter profissionais.

Hoje, o grupo trabalha com escalas 5×2 e 12×36, conforme a necessidade de cada área. Para chegar a esse modelo, foi preciso redesenhar escalas, reorganizar processos e planejar a operação para preservar a qualidade do atendimento sem perder eficiência.

Segundo Jader Luiz, gestor de Pessoas & Cultura do Magic City, a decisão partiu da constatação de que a empresa funciona justamente quando a maior parte das pessoas está descansando, como finais de semana, feriados e datas comemorativas.

“Queríamos oferecer uma melhor qualidade de vida e um equilíbrio maior entre vida pessoal e trabalho”, diz Luiz.

A mudança fortaleceu a empresa como empregadora, de acordo com o gestor, que acredita que houve maior receptividade dos candidatos às vagas e melhora na retenção de profissionais. Ele também frisa que o principal ganho, porém, foi percebido no clima organizacional.

“Pessoas mais satisfeitas tendem a estar mais engajadas, e isso naturalmente reflete na operação”, afirma. Segundo ele, toda a transição foi planejada para ocorrer de forma sustentável, sem comprometer a eficiência do negócio.

O caso não é isolado

A experiência do Magic City reflete uma tendência que já aparece nas vagas de emprego, principalmente nos setores que mais dependem de operações presenciais. No varejo, 21,1% dos anúncios publicados no Indeed em junho de 2026 mencionavam termos relacionados a jornadas mais flexíveis. O percentual também chegou a 16% em preparação e serviço de alimentos, 14,1% em hotelaria e turismo, 13,2% em atendimento ao cliente e 12,1% em limpeza e higienização.

Entre as expressões analisadas pela plataforma estão “escala 6×1”, “jornada 5×2”, “banco de horas”, “flexibilidade” e referências a folgas nos finais de semana.

Quando se observa o mercado como um todo, o avanço é mais discreto. O percentual de vagas que mencionam esse tipo de benefício passou de 6,5%, em janeiro de 2022, para 8,3%, em junho de 2026, depois de atingir um pico de 9,7% em dezembro de 2025.

Embora a presença desses termos tenha aumentado nos últimos anos, o levantamento mostra que o ritmo de crescimento desacelerou após a expansão registrada entre o fim de 2023 e ao longo de 2024.

A conta não fecha: custo deve aumentar no varejo e acelerar automação

Mas os efeitos positivos não são unanimidade entre empresários. Há preocupação com os custos extras que o fim da 6×1 deve gerar à folha de pessoal de muitas empresas, especialmente entre aquelas de setores que dependem do funcionamento aos fins de semana.

Na avaliação de Wilson Victorio Rodrigues, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o varejo é um dos segmentos mais expostos aos impactos de um eventual fim da escala 6×1. “O comércio talvez seja o setor mais afetado, porque é justamente aos finais de semana que ocorre boa parte do consumo”, afirma.

Segundo ele, redes médias e grandes tendem a acelerar investimentos em tecnologia, autoatendimento e automação para compensar o aumento dos custos com pessoal. “O mercado é criativo e vai buscar soluções para ganhar eficiência financeira. A tendência é ampliar o uso de totens, atendimento digital e outras ferramentas tecnológicas”, diz.

Para Rodrigues, a preocupação maior está nas pequenas empresas. “O pequeno comércio de bairro dificilmente terá condições de investir em automação. Nesses casos, pode ser necessário contratar mais funcionários para cobrir as escalas, o que aumenta os custos da operação.”

Questionado sobre a adoção do trabalho intermitente para suprir a demanda do comércio, o vice-presidente da ACSP também avalia que o modelo, por si só, não resolve o problema. Segundo ele, o custo da folha de pagamento continua elevado e impede que essa modalidade compense integralmente a necessidade de reforçar as equipes.

Representantes do comércio defendem que uma eventual mudança na legislação deveria preservar a possibilidade de negociação entre empresas e trabalhadores, levando em consideração as características de cada setor.

Pauta eleitoreira

A ACSP também defende a necessidade de mais estudos técnicos que mensurem o real efeito do fim da escala 6×1 na economia e pede que a tramitação da matéria no Congresso aconteça após o período eleitoral, para evitar contaminação política de uma pauta que tem forte apelo popular.

A busca por jornadas mais flexíveis aparece nas pesquisas com trabalhadores antes mesmo do avanço do debate sobre o fim da 6×1. Segundo Lucas Rizzardo, diretor de vendas do Indeed, um levantamento realizado pela plataforma em 2024 mostrou que 61% dos profissionais que trabalhavam no regime 6×1 prefeririam trabalhar menos dias por semana, mesmo que isso significasse jornadas diárias mais longas, enquanto 74% manifestaram interesse em migrar para modelos como 5×2 ou 4×3.

Os resultados mostram que qualidade de vida e equilíbrio entre vida pessoal e profissional passaram a ter um peso crescente na escolha de uma vaga, independentemente da discussão sobre mudanças na legislação, na avaliação do executivo.

Essa percepção também aparece na pesquisa mais recente do Indeed. Entre os trabalhadores entrevistados, 68% disseram que não conseguem descansar plenamente nos dias de folga porque dedicam esse período a responsabilidades pessoais. Além disso, 64% relataram impactos negativos na saúde mental, como estresse, ansiedade ou depressão.

Se tivessem mais tempo livre, quase metade (49%) o destinaria à família e aos amigos. Outros 39% priorizariam atividades físicas e 37% afirmaram que simplesmente descansariam.

Jornada virou estratégia de negócios

Para Eliane Aere, presidente da ABRH-SP, o levantamento do Indeed confirma uma realidade já observada pelas empresas, principalmente em setores como varejo, alimentação, hotelaria e atendimento ao cliente, que enfrentam dificuldades crescentes para contratar e reter profissionais.

Segundo ela, a jornada de trabalho deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a fazer parte da proposta de valor oferecida ao trabalhador.

Em um cenário em que a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, aponta que 80% dos empregadores brasileiros têm dificuldade para preencher vagas, oferecer uma experiência de trabalho mais atrativa tornou-se um diferencial competitivo.

A presidente da ABRH-SP explica que, embora salários e benefícios continuem sendo importantes, outros fatores passaram a influenciar a decisão dos profissionais, como previsibilidade das folgas, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, tempo de deslocamento, qualidade da liderança e ambiente organizacional.

“Hoje, a jornada deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a ser um fator de competitividade na atração e retenção de talentos”, resume.

Pequenas empresas também podem avançar

Para empresas de pequeno e médio porte, rever a jornada costuma parecer uma tarefa difícil, principalmente por causa das equipes mais enxutas. Ainda assim, Eliane afirma que a mudança é possível, desde que seja construída com planejamento.

Segundo ela, o desafio não está apenas em trocar uma escala por outra, mas em reorganizar a operação para manter produtividade, qualidade do atendimento e controle dos custos.

Antes de qualquer mudança, a orientação é analisar a demanda do negócio, revisar processos, identificar oportunidades de ganho de eficiência e definir indicadores para acompanhar os resultados.

Na experiência da ABRH-SP, empresas que implementam mudanças de forma estruturada costumam relatar maior facilidade para atrair profissionais, aumento da satisfação das equipes e uma percepção mais positiva sobre o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Já os impactos sobre produtividade, absenteísmo e rotatividade variam conforme o setor, a maturidade da gestão e a forma de implementação.

Mudar a escala exige planejamento

Um dos maiores equívocos é imaginar que basta trocar os dias de folga para obter resultados, na avaliação da especialista em recursos humanos Jaciani Rizziolli.

Segundo ela, a mudança precisa nascer de uma análise profunda da operação e do comportamento da força de trabalho, e não apenas da necessidade de contratar mais pessoas.

“A adoção da escala 5×2 exigiu uma profunda revisão dos processos operacionais, planejamento das escalas, planejamento da produtividade e o uso de tecnologia na gestão das equipes”, afirma.

Ela explica que a reorganização envolve estudos sobre produtividade, previsibilidade da demanda e até o comportamento dos clientes. Sem esse trabalho prévio, a tendência é que a empresa encontre dificuldades para manter a eficiência da operação.

Quando a transição é bem estruturada, porém, os ganhos podem ir além da atração de profissionais. Segundo Jaciani, é possível observar melhora na retenção de talentos, redução do absenteísmo e do turnover, aumento do engajamento e do clima organizacional, além de redução de despesas relacionadas a benefícios e até acidentes de trajeto.

Não existe receita pronta

Apesar dos resultados positivos observados em projetos que liderou, Jaciani faz um alerta: não existe um modelo único que funcione para todas as empresas.

A maior barreira para mudar a jornada, de acordo com ela, não costuma ser tecnológica nem operacional, mas cultural. Como muitos segmentos trabalham há décadas com a escala 6×1, qualquer transformação exige o envolvimento da liderança, análise de dados e disposição para rever processos.

Por isso, ela recomenda que as empresas realizem projetos-piloto antes de implementar mudanças em toda a operação.

“Cada empresa tem uma realidade diferente. Não dá para pegar a receita que funcionou em um negócio e simplesmente replicá-la em outro.”

Para a especialista, mais do que uma discussão sobre legislação, a organização da jornada passou a fazer parte da estratégia das empresas para enfrentar um dos principais desafios do mercado atualmente: a escassez de mão de obra.

IMAGEM: Leonardo Rodrigues/DC

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