Juros altos e endividamento das famílias pressionam varejo no segundo trimestre

O varejo brasileiro enfrenta um cenário de perda de ritmo, crédito mais caro e aumento do endividamento das famílias. Os resultados divulgados por grandes empresas do setor no segundo trimestre de 2026 indicam que o ambiente econômico adverso tem afetado as vendas e os resultados financeiros das companhias, segundo matéria de hoje da Folha de S. Paulo.

Entre os destaques negativos está o Magazine Luiza, que registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões no segundo trimestre, revertendo o lucro de R$ 1,8 milhão obtido no mesmo período de 2025. Segundo a empresa, o resultado foi fortemente impactado pelo nível elevado dos juros e pelo aumento das despesas financeiras.

A Renner também revisou para baixo sua projeção de crescimento da receita líquida em 2026. A expectativa, que anteriormente variava entre 9% e 13%, passou para uma faixa de 4% a 8%. Além do ambiente macroeconômico mais difícil, a companhia apontou a redução do fluxo de clientes nas lojas físicas durante a Copa do Mundo como um dos fatores que contribuíram para a revisão.

Endividamento limita consumo

O elevado comprometimento da renda das famílias é outro fator de preocupação para o setor. De acordo com levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 82% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida em julho, o maior percentual da série histórica. Em junho, eram 81,6%.

Em média, 29,5% do orçamento familiar está comprometido com dívidas, com um período médio de comprometimento de 7,2 meses. A CNC ressalta que o endividamento, por si só, não é necessariamente negativo, já que o crédito contribui para movimentar o consumo. O problema surge quando as famílias passam a ter dificuldades para cumprir seus compromissos financeiros.

O cenário é especialmente desfavorável para a aquisição de produtos de maior valor, que normalmente dependem de financiamento. Para Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, a combinação entre juros elevados, famílias endividadas e forte concorrência vem dificultando a geração de resultados operacionais pelas empresas.

Varejo perde força ao longo do ano

Embora o comércio ainda registre crescimento em 2026, os dados mostram desaceleração. Segundo a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE, o volume de vendas acumulava alta de 1,7% até maio, abaixo dos 2,4% registrados até março. O segmento de móveis teve desempenho negativo, com retração de 3,7% nas vendas.

A redução da Selic de 14,25% para 14% ao ano, anunciada pelo Banco Central, pode contribuir para melhorar as condições de crédito, mas os efeitos sobre o consumo não são imediatos, segundo o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.

Empresas sentem impacto dos juros

Na C&A, o lucro líquido ajustado chegou a R$ 130,1 milhões no segundo trimestre, alta de 4,3% em relação ao mesmo período de 2025. Apesar do crescimento, o Ebitda ajustado ficou em R$ 435,9 milhões, queda de 0,6% e abaixo da expectativa dos analistas. A empresa também apontou os juros elevados e o comprometimento da renda das famílias como obstáculos ao consumo.

No varejo alimentar, o Assaí apresentou resultado mais positivo, com lucro líquido de R$ 484 milhões, alta de 121% na comparação anual. Ainda assim, a companhia destacou os efeitos da inflação dos alimentos e do endividamento sobre o comportamento dos consumidores, especialmente entre as famílias de menor renda, que vêm ajustando sua cesta de compras para preservar o orçamento.

Para Felipe Cima, especialista em renda variável da Manchester Investimentos, a permanência dos juros em níveis elevados, somada ao alto endividamento das famílias, reduz a atratividade do varejo brasileiro. O cenário também começa a afetar o setor bancário, que registra piora nos indicadores de crédito e maior cautela na concessão de empréstimos.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/consumo-fraco-credito-caro-e-endividamento-pressionam-varejistas.shtml

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