O Brasil está gerando renda, mas uma parcela crescente dela está encontrando outros caminhos antes de chegar ao varejo formal.
No Brasil real, o desemprego está em seu nível histórico mais baixo e a massa salarial apresenta crescimento real e constante.
Mas o varejo formal não consegue transformar essa expansão em crescimento real consistente. Ao contrário.
Uma amostra importante formada pelas principais empresas desse setor tem desempenho real médio negativo há 18 meses, como mostra apuração do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV). O indicador, elaborado a partir da evolução das receitas informadas pelas empresas e apurado metodologicamente, é deflacionado pelo IPCA. Vale lembrar que as empresas associadas somam R$ 670 bilhões em vendas, geram 990 mil empregos diretos e operam 38 mil lojas, além de terem decisiva presença no e-commerce.
A PMC do IBGE, por sua vez, mostra um quadro menos negativo. Em junho, o volume de vendas do comércio varejista cresceu 0,5% sobre maio e 2,9% sobre o mesmo mês de 2025. Também acumulou alta de 1,9% no primeiro semestre, quando considerados termos nominais. Em termos reais, é negativo. Vale lembrar que a PMC tem como população-alvo empresas juridicamente constituídas, com CNPJ e 20 ou mais pessoas ocupadas.
Essa contradição precisa ser avaliada e entendida.
O que diferencia os indicadores é, principalmente, a composição das amostras e metodologias. O IAV-IDV acompanha as empresas associadas ao IDV com dados auditados, enquanto a PMC produz estimativas para o conjunto das empresas pesquisadas pelo IBGE.
Preocupante e precisa ser entendido
O Brasil tem gerado renda e emprego que estão cada vez mais sendo redirecionados do consumo de produtos e serviços para outras destinações. E isso caracteriza um dos grandes movimentos estruturais da economia brasileira.
Existe uma reconfiguração fundamental do emprego, com a renda sendo produzida por uma economia cada vez mais plural e diversificada.
A PNAD considera como ocupada a pessoa que está trabalhando, independentemente de ser empregada formalmente, informalmente, por conta própria ou em outras modalidades.
Faz parte desse cenário o menor crescimento do emprego com carteira assinada, a expansão das MEIs, o aumento do número de trabalhadores por conta própria, os prestadores de serviços autônomos e a ampliação da informalidade.
De alguma forma temos uma situação em que a taxa de informalidade se mantém muito elevada. No trimestre encerrado em abril de 2026, 37,2% da população ocupada, ou cerca de 38,1 milhões de trabalhadores, estavam em situação de informalidade, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo, havia 26 milhões de trabalhadores por conta própria, número que cresceu 2,3% no período de um ano.
Vale registrar que a informalidade no emprego não pode ser diretamente correlacionada à informalidade na economia, porém existe relação muito próxima.
Programas como Bolsa Família, gerador de renda e que reúne mais de 20 milhões de famílias ou pouco mais de 50 milhões de pessoas, inibem o emprego formal com carteira assinada, empurrando parte dessa população assistida para atividades econômicas e empregos informais.
Isso é apenas parte da resposta. O crescimento da massa de renda e do emprego nas suas diferentes alternativas não necessariamente se transforma na mesma proporção em vendas das principais empresas do varejo formal.
Mas existem outros componentes decisivos que envolvem o comprometimento da renda.
O Banco Central mostra que o endividamento das famílias está próximo de 50% e os dados da Serasa Experian indicam que 83,3 milhões de brasileiros estão inadimplentes, representando perto de 51% da população adulta do País.
Antes de se converter em consumo, parcela relevante da renda já está comprometida com pagamento de dívidas, juros, prestações, renegociação de atrasados, aluguel, serviços essenciais, transporte e um novo e importante concorrente: as bets.
As apostas online passaram a disputar diretamente a renda disponível das famílias com o consumo e teriam ultrapassado R$ 30 bilhões por mês em 2026, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC). A dimensão, consequências e impactos no consumo e no varejo formal são grandes demais para serem ignoradas ou minimizadas.
Um novo mapa do consumo
O Brasil está consumindo em categorias, locais, negócios e canais de maneira diferente. E não necessariamente está consumindo menos. Parte da renda continua passando pelas grandes redes de varejo.
Parte crescente vai para pequenos negócios e circula entre MEIs; parte vai para a economia informal, para serviços e soluções e para as bets, que se tornaram compulsão travestida de diversão e alimentada pela overdose de comunicação. Parte crescente é absorvida pelo crédito e pelo pagamento de dívidas. Sem falar no crescimento do comércio eletrônico internacional e das plataformas globais que adicionam uma nova camada de competição ao varejo formal brasileiro.
O resultado é essa fragmentação no destino da renda e seu impacto no desempenho do varejo formal.
Quando juntamos todas essas peças, surge uma imagem muito mais complexa do Brasil Real na sua vertente de consumo que muda de forma dramática o cenário presente e futuro.
Crédito, serviços, soluções, plataformas globais, informalidade, pequenos negócios, experiências e mais as bets mudaram completamente o jogo.
Esse talvez seja um dos mais importantes movimentos estruturais do Brasil Real e não pode ser ignorado.
É preciso repensar modelos de negócio, organização, categorias, canais, serviços e soluções para jogar o jogo (!) na nova realidade de consumo no Brasil.
O varejo formal está enfrentando um consumidor cuja renda circula por um ecossistema muito maior, mais fragmentado e mais competitivo e não apenas um consumidor com menos dinheiro e mais pressionado pelas circunstâncias.
Igualmente importante é ter a visão da necessidade de repensar algumas iniciativas de inegável benefício, como o Bolsa Família, para que não empurrem parte importante da população para a informalidade no emprego. E é fundamental disciplinar e inibir a expansão desenfreada do negócio das bets que, além de tudo, amplifica problemas sociais e de saúde mental.
Vale a estratégica e consciente reflexão.
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