Varejo tem 12 grandes empresas em sinal de alerta financeiro

Segundo o relatório Monitor RGF, o ponto em comum é o volume alto de dívidas bancárias

Com custos fixos elevados para manter estoques, lojas e capital de giro, o varejo brasileiro tem recorrido ao endividamento para financiar a operação. Em um cenário de juros altos, as dívidas ficam mais caras e pressionam o caixa das empresas. Nos últimos meses, gigantes do setor entraram com pedidos de recuperação extrajudicial ou recuperação judicial para reestruturar suas dívidas, mas a situação é ainda mais desafiadora. Segundo o relatório Monitor RGF-BIZDOC, 649 empresas do setor entraram em recuperação judicial no segundo trimestre.

Entre as 1.000 maiores empresas do País em faturamento, 12 estão em sinal de alerta. Dessas, três já estão em recuperação judicial ou extrajudicial: Casas Bahia, ToK&Stok e Grupo Pão de Açúcar.

A avaliação é feita a partir do Quantum CD, metodologia que reúne 105 indicadores para medir o risco de insolvência das empresas. Entre os principais critérios está a taxa de cobertura de juros, que mostra a capacidade de uma companhia de gerar recursos suficientes para arcar com as despesas financeiras. O levantamento também considera o nível de endividamento e compara as empresas com outras do mesmo setor.

No varejo, a mediana registrada pelo estudo é de 74,1. Isso significa que as empresas que registram um score mais baixo enfrentam pressão financeira significativamente maior do que a média de seus concorrentes, operando e competindo com mais dificuldade no mercado.

Entre as empresas com os menores scores, aparecem nomes como GPA, Pernambucanas, ToK&Stok e Casas Bahia. O ponto em comum é o volume alto de dívidas bancárias. Como boa parte do crescimento foi financiada por bancos e fundos, estão expostas às oscilações de juros.

“Todas elas, sem exceção, têm um passivo bancário alto, que fica com uma fatia de dinheiro que faz falta para operação. É muito difícil ter uma operação que gere rentabilidade suficiente para pagar juros tão altos. Os juros atrapalham, sem dúvida, mas atrapalham porque existe um estoque de dívida alto”, explica Cláudio Damasceno, sócio sênior da RGF Associados e coordenador do Monitor RGF BizDoc.

O peso da estrutura no varejo

A estrutura tradicional do varejo também aumenta a pressão sobre empresas endividadas. As empresas que demoraram para rever seus modelos de negócio – não transformaram lojas em estruturas de apoio à distribuição ou não reduziram unidades nem passaram a trabalhar com pontos de venda menores, por exemplo – sofrem mais pressão.

“O varejo que a gente conhece acabou. É outro mundo. O principal é não carregar o mesmo peso de estrutura que existia no passado. É preciso fazer mudanças profundas”, diz.

O ideal, destaca, é que a empresa tome medidas antes de atingir o estágio considerado crítico. No Quantum CD, a faixa crítica corresponde a scores abaixo de 35. Nessa situação, a empresa apresenta geração operacional de caixa negativa, dificuldade para pagar juros e comprometimento do próprio capital.

Segundo Damasceno, a recuperação da situação financeira pode ocorrer em diferentes etapas. Antes da judicialização, uma empresa pode promover uma reestruturação interna, com mudanças de gestão e redução de custos. Em seguida, pode negociar suas dívidas com instituições financeiras por meio de uma recuperação extrajudicial. Quando essas alternativas não são suficientes, chega-se à recuperação judicial, que envolve credores, fornecedores e demais partes relacionadas.

Recuperação judicial e falência

O varejo apresenta ainda uma característica diferente em relação a outros setores: a maior incidência de falências. Segundo o levantamento, 686 empresas fecharam as portas no primeiro semestre, o equivalente a 0,7 falência para cada recuperação judicial. No agronegócio, por exemplo, a proporção é de aproximadamente uma falência para cada 100 recuperações.

A explicação, segundo Damasceno, está na estrutura dos negócios. Diferentemente da indústria, que possui máquinas e equipamentos, ou do agronegócio, que conta com terras e outros ativos, muitas varejistas, principalmente as pequenas e médias, têm patrimônio mais limitado. E, quando a operação perde capacidade de pagamento, há menos ativos para sustentar uma recuperação.

“A recuperação geralmente se aplica a quem tem um patrimônio a proteger ou uma marca a proteger. O volume de varejo que não tem patrimônio, portanto, não tem escolha”, afirma.

Empresas que anteciparam mudanças

Damasceno cita o Magazine Luiza como exemplo de empresa que passou por mudanças na operação, incluindo alterações na estrutura de custos e no uso das lojas físicas, e conseguiu atravessar a turbulência sem chegar ao nível crítico.

“O Magalu é um bom exemplo de uma empresa que, há bastante tempo, começou essa reformulação e essa mudança de modelo. A lição de casa foi feita lá atrás. Também houve um uso intensivo de tecnologia. O atual CEO, antes de assumir o cargo, era diretor de Tecnologia, e chegou à posição depois de adquirir maturidade para conduzir essa transformação. É um exemplo de varejista que conseguiu se reinventar”, diz.

Outro exemplo é o da Lojas Renner, que não construíram a operação sobre uma elevada dependência de crédito bancário. Com isso, a companhia tem menor exposição às despesas financeiras justamente por não depender dos bancos para financiar sua operação. “A Renner não depende de dinheiro de banco, portanto o juro não impacta a vida dela”, afirma.

Fonte : https://mercadoeconsumo.com.br/

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