Em momentos como os atuais, é sempre melhor que as entidades falem por seus associados como forma de evitar o desnecessário e, às vezes, perigoso, foco nas opiniões individuais. Mas o cenário atual no Brasil não permite hesitação. É preciso marcar posição.
A escalada de insanidades que se desenha no cenário político e jurídico, com inevitáveis consequências nos planos econômico, financeiro e institucional, atravessou a fronteira da simples e passageira turbulência. Ela é sintoma de algo mais sério e estrutural, que chegou às raias do surreal, diante do nível e amplitude dos envolvimentos em todos os escalões dos três poderes federais a partir de um jogo jogado no setor financeiro por um hábil e inescrupuloso operador.
O Brasil vive um momento em que os problemas deixaram de ser predominantemente setoriais ou regionais. São problemas da Nação, que não está estruturada para encará-los.
A combinação de insegurança institucional, polarização, desigualdade, baixa produtividade, déficit fiscal, juros elevados, insegurança e transgressões jurídicas, com perda de capacidade de planejamento, compromete principalmente o futuro muito mais do que o presente ou o curto prazo.
Para agravar, estamos às vésperas de decisivas eleições presidenciais.
As questões não envolvem a falta de recursos ou capacidade de gestão, nem a ausência de uma visão de longo prazo capaz de mobilizar a sociedade. Estão na deterioração de valores e na quebra da ética no mais alto nível do Poder Judiciário do País. E que se espalham para outros segmentos, níveis e poderes.
A lógica do “aqui e agora” representada pela perspectiva de reeleição ganhou espaço sobre qualquer coisa que envolva a construção e o compromisso com o futuro.
A proximidade das eleições, a utilização crescente e quase sem pudor de recursos públicos e as disputas políticas por espaços e vantagens imediatas produzem decisões que atendem fundamentalmente ao ciclo político, mas transferem custos, desânimo e consequências para as próximas gerações.
E o País se divide e se apequena cada vez mais, apesar dos inegáveis e fartos recursos naturais, estruturais e humanos dos quais dispõe.
Não dá para ignorar
Em todos os ambientes empresariais, não faltam diagnósticos e visões globais e locais de caminhos para mudar o assustador cenário.
Os manifestos oportunos e necessários ecoam a frustração generalizada e pedem ética, respeito e solução.
Empresários e dirigentes do setor privado sabem muito bem que, em um cenário como esse, não se pode esperar milagres ou a chegada de um salvador da pátria. Não pode haver ilusão.
O realinhamento ético e de valores por meio da transformação e educação política levará decênios para acontecer. Se em algum momento for iniciado. Mas o descalabro acontece aqui e agora e contamina de forma indefinida as eleições que ocorrem em poucas semanas.
O que quer que se pense construir tem que partir da realidade presente e dentro das regras do jogo democrático.
Nesse contexto, um caminho prático, objetivo e com começo, meio e fim são a mobilização e a integração do setor empresarial para fazer parte da solução assumindo compromissos para além de cuidar de seus negócios e atividades.
Até porque já está totalmente imerso no problema, como demonstram o endividamento empresarial, a derrocada de algumas empresas tradicionais, o desestímulo aos investimentos, o aumento da informalidade e a transferência de recursos, emprego e negócios para o exterior por quem tem essa alternativa.
A busca de referências
A inspiração para um movimento dessa natureza vem em especial do Keidanren, entidade nascida no Japão no pós-guerra que se tornou elemento fundamental no projeto de reconstrução daquele país e se mantém até hoje como referência em modelo de inteligência estratégica organizada do setor privado. Hoje, reúne 1.580 empresas, 103 entidades setoriais nacionais e organizações econômicas das 47 províncias.
Em outra escala e proposta, na Alemanha existe o BDI, e na França, o MEDEF. Há, ainda, a FKI na Coreia ou mesmo o BUSA na África do Sul.
Em todos os casos, o conceito é de uma unidade central integrando os diversos setores e segmentos empresariais com envolvimento mais direto nos grandes temas nacionais e estratégicos de cada país.
O que distingue esses movimentos do quadro atual de fragmentação da representação empresarial é exatamente a busca de unidade, articulação e o consenso possível para defender o investimento, o emprego e os valores e projetos de longo prazo do país.
São temas sérios e estratégicos demais para serem deixados apenas no âmbito dos três poderes federais.
Na realidade brasileira, corresponderia a integrar, num grande fórum nacional, entidades oficiais como CNI, CNA, CNC, mais outras também de natureza estritamente privada, como IDV, CNDL, CACB, IFB, ABF, Abras, Abrasel, ANR, Abrasce e Febrafar dos setores de varejo e consumo, com outras dos setores financeiro, construção, energia, agricultura, transportes, educação e serviços.
Seguramente, o desenvolvimento do modelo não seria nem simples nem rápido, mas, com a ótica da objetividade e o interesse maior nos temas estratégicos nacionais, seria possível construir algo mais ambicioso, permanente e decisivo para um projeto de Nação.
Na prática, significa criar um fórum nacional integrando setores e entidades que se converta num elemento fundamental na análise, discussão e eleição dos temas estratégicos que envolvam a Nação e atuando junto aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário como órgão assessor, porém com o peso de sua representatividade econômica e social. E suportado e financiado pelas próprias entidades, mas com o poder de discutir e contribuir com a visão e a lógica para além dos interesses do setor público.
A visão estratégica
Trata-se de construir uma convergência empresarial em torno do Brasil, reunindo grandes, médias e pequenas empresas; indústria, varejo, serviços, agricultura e tecnologia; Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul; empresas nacionais e multinacionais.
Uma plataforma capaz de transformar a experiência acumulada pelo setor privado em conhecimento, propostas e compromissos para o desenvolvimento da Nação.
Essa iniciativa permitiria construir uma Proposta Estratégica, com visão de 10, 20 e 30 anos, estabelecendo prioridades e metas para temas como educação, saúde, segurança, produtividade, infraestrutura, reforma do Estado, equilíbrio fiscal, tecnologia e IA, competitividade, desenvolvimento regional, redução das desigualdades e inserção internacional.
E, principalmente, estabelecer uma regra fundamental de que o interesse do Brasil deve estar acima do interesse setorial, regional, empresarial ou eleitoral.
De forma definitiva, é algo simples de enunciar e complexo de equacionar. Mas o setor empresarial não pode esperar que governos resolvam tudo. Definitivamente, não têm vontade, interesse, compromisso ou vocação para isso. O setor precisa se mobilizar, integrar-se e assumir protagonismo na construção das soluções.
O Brasil possui empresas, empreendedores, universidades, centros de pesquisa, profissionais e organizações com conhecimento e capacidade suficientes para contribuir decisivamente para essa agenda. Falta transformar essa inteligência dispersa em inteligência coletiva nacional.
O cenário atual demonstra, de forma inabalável, que o momento exige menos disputa por protagonismo e mais disposição para construir convergências. O exemplo só pode vir do setor empresarial, pois, no plano público e político, o que assistimos hoje é a prova inconteste de que o modelo não deu certo. E o cenário à frente desestimula qualquer esperança de mudança relevante e definitiva dentro das regras democráticas.
Há males que vêm para o bem
Que o cenário assustador que vivemos no momento possa nos inspirar para sairmos da mesmice e da prostração para reimaginar e construir um outro futuro.
Que ele capitalize o acervo natural, financeiro, técnico, humano e de inegável competência que o Brasil reúne e que possa se converter numa Nação mais segura, menos desigual e com expressivo potencial de crescimento, geração de emprego, renda e crescimento econômico.
Mais do que a reflexão, faz-se necessária ação.
Notas:
- De 15 a 17 de setembro acontece, em São Paulo, o 11º Latam Retail Show, com mais de 100 horas de conteúdo, 220 palestrantes, 9 eventos integrados e 16 pesquisas e estudos inéditos. O evento discute o presente e o futuro dos setores de varejo, consumo e serviços no Brasil e no mundo. É uma oportunidade para conectar, conhecer e discutir as tendências globais que impactam esses setores e avaliar alternativas para o repensar de negócios no cenário atual e futuro. Maiores informações neste link.
- No evento, será apresentado o RET.AI.L AI Maturity Index 2026, desenvolvido para avaliar o status de integração de Inteligência Artificial no varejo. Trata-se de uma realização do Ecossistema Gouvêa com coordenação do professor Ricardo Pastore e apoio da plataforma Mercado&Consumo;
- Também será apresentado o Go.Beyond, novo programa de relacionamento e interação do Ecossistema Gouvêa envolvendo parceiros, clientes, apoiadores e interessados nos temas de varejo, consumo e serviços.
- Haverá o lançamento, ainda, do livro “Retail Services AI: a transformação estratégica do varejo pelos serviços e soluções potencializados pela Inteligência Artificial”, com 22 coautores nacionais e internacionais discutindo a transformação do setor de varejo pelos serviços e soluções.
Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem gerada por Inteligência Artificial (ChatGPT)