Reforma tributária exige adaptação acelerada e acende alerta para o caixa das empresas

Opinião

José Eduardo Barella e Elisa Calmon

A aproximação da entrada em vigor da reforma tributária coloca as empresas brasileiras diante de uma ampla transformação operacional. A partir de janeiro de 2027, o novo modelo de tributação sobre o consumo começará a ser implementado, com a substituição gradual de tributos atuais por um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual, formado pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

Embora a reforma tenha entre seus objetivos a simplificação do sistema tributário, a fase de transição impõe desafios relevantes para as empresas. Entre eles estão a adaptação de sistemas, a revisão de contratos, a formação de preços, o relacionamento com fornecedores e, principalmente, os possíveis efeitos sobre o fluxo de caixa.

Os pontos foram destacados por especialistas e executivos ouvidos pelo NeoFeed, em reportagem publicada em 17 de setembro de 2026. Segundo a publicação, empresas estão acelerando seus preparativos diante de um calendário considerado apertado e de regras que ainda dependem de definições.

Novo modelo muda a lógica dos créditos

A reforma prevê a extinção gradual de cinco tributos − ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI, com exceções relacionadas à Zona Franca de Manaus − e a criação do IBS e da CBS. O novo sistema também amplia a lógica da não cumulatividade, permitindo o aproveitamento de créditos tributários ao longo da cadeia.

Na avaliação de especialistas ouvidos pelo NeoFeed, compreender exatamente quais despesas gerarão créditos será fundamental para que as empresas consigam calcular custos, margens e preços de forma adequada.

A mudança terá impacto especialmente em empresas que trabalham com cadeias extensas de fornecedores e grande volume de operações. No varejo, por exemplo, será necessário revisar preços e contratos e garantir que sistemas de gestão estejam preparados para trabalhar simultaneamente com o modelo atual e o novo durante o período de transição.

Split payment preocupa pelo impacto no capital de giro

Um dos pontos que mais despertam atenção é o chamado split payment, mecanismo pelo qual o pagamento dos tributos é separado do valor destinado ao fornecedor.

A lógica busca assegurar que o imposto correspondente à operação seja efetivamente recolhido, permitindo que o crédito tributário esteja vinculado ao pagamento. A mudança, porém, pode alterar a dinâmica financeira das empresas, principalmente porque valores que hoje permanecem temporariamente no caixa podem deixar de cumprir essa função.

Segundo especialistas citados pelo NeoFeed, o impacto tende a variar conforme o setor e o ciclo financeiro de cada negócio. No agronegócio, por exemplo, o intervalo entre a aquisição dos insumos e a geração de receita pode ser longo. Na indústria, ciclos produtivos maiores também podem aumentar a sensibilidade ao tempo de recuperação dos créditos. Já no varejo, margens mais estreitas tornam a gestão diária da liquidez particularmente importante.

O ex-secretário extraordinário da Reforma Tributária Bernard Appy afirmou, segundo a reportagem, que o split payment não deverá ser aplicado inicialmente às operações de venda direta ao consumidor. A implementação começaria nas transações entre empresas e ocorreria de maneira gradual.

Preços e fornecedores entram no radar

Outro desafio será a necessidade de rever a formação de preços. Com a tributação passando a ser calculada dentro de uma nova lógica, empresas precisarão renegociar condições comerciais e recalcular custos de produtos e serviços.

Para o varejo, o processo pode envolver milhares de itens e fornecedores. A reportagem do NeoFeed relata que grandes empresas já trabalham na construção de cenários por produto, avaliando possíveis efeitos sobre custo, preço e margem.

A necessidade de integração entre empresas também ganha importância. ERPs, sistemas fiscais, meios de pagamento e processos internos terão de conversar adequadamente para reduzir o risco de erros durante a implantação.

Impactos diferentes entre setores

A reforma não produzirá necessariamente o mesmo efeito sobre todas as empresas. Um levantamento do Tax Group citado pelo NeoFeed, realizado com 198 empresas de 19 estados e sete segmentos, aponta que 56,6% das companhias analisadas poderiam ter aumento da carga tributária, enquanto 43,4% teriam redução.

O estudo considera empresas cujo faturamento somado alcança R$ 47,4 bilhões e indica que os impactos dependerão de fatores como setor de atuação, estrutura de custos, utilização de créditos e capacidade de adaptação.

O setor de serviços aparece entre os segmentos que merecem atenção. Atualmente, determinadas atividades estão submetidas a alíquotas de ISS inferiores à tributação incidente sobre diversos bens. Com a aproximação entre a tributação de bens e serviços, empresas com menor volume de insumos − e, consequentemente, menor possibilidade de geração de créditos − poderão enfrentar uma mudança importante na estrutura de custos.

Preparação passa a ser prioridade

Além dos efeitos diretamente tributários, a transição exige planejamento empresarial. Empresas terão de revisar contratos, treinar equipes, parametrizar sistemas, avaliar fornecedores e construir diferentes cenários para preços e margens.

Outro ponto de atenção é o cronograma de definição das alíquotas. Conforme relatado pelo NeoFeed, a proximidade entre a definição de parâmetros importantes e o início da implantação reduz o tempo disponível para que as empresas concluam seus planejamentos.

Para o setor produtivo, portanto, a reforma representa simultaneamente uma mudança tributária e operacional. A expectativa de um sistema mais simples no longo prazo convive, no curto prazo, com a necessidade de investimentos, adaptação tecnológica e maior atenção à gestão do capital de giro.

A transição seguirá até 2033. Até lá, empresas precisarão administrar a convivência entre dois sistemas, ajustar processos e acompanhar a regulamentação para reduzir riscos e identificar os efeitos da nova estrutura sobre custos, preços e competitividade.

Fonte: https://neofeed.com.br/economia/os-nos-da-reforma-tributaria-as-armadilhas-no-caixa-e-os-custos-ocultos-da-transicao/

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