A combinação entre maior facilidade de acesso ao crédito e taxas de juros elevadas contribuiu para levar a inadimplência a um dos níveis mais expressivos dos últimos anos no Brasil. Segundo levantamento apresentado pelo UOL, 83,9 milhões de brasileiros estão inadimplentes, o equivalente a cerca de 51% da população adulta.
O cenário é resultado de um processo que ganhou força especialmente nas últimas décadas. A ampliação do acesso a cartões, empréstimos e outras modalidades de crédito permitiu que mais consumidores antecipassem o consumo e financiassem despesas. O problema surge quando a renda deixa de acompanhar o volume das obrigações e os juros fazem a dívida crescer rapidamente.
Cartão de crédito concentra parte das dívidas
Entre os principais compromissos em atraso, o cartão de crédito aparece em destaque, seguido por contas básicas e outros débitos financeiros. Os juros cobrados sobre determinadas modalidades de crédito podem elevar significativamente o valor devido, dificultando a quitação para famílias que já possuem orçamento comprometido.
A reportagem mostra ainda que, entre 2011 e 2026, a concessão de crédito para pessoas físicas praticamente dobrou. Nesse período, fintechs e novas plataformas financeiras também ampliaram a oferta de serviços, tornando o acesso ao crédito mais rápido e menos dependente dos modelos tradicionais de atendimento bancário.
Renda comprometida
Mesmo com a melhora de alguns indicadores do mercado de trabalho e o crescimento dos salários em determinados períodos, o comprometimento da renda das famílias com dívidas permanece elevado. Para muitos consumidores, o crédito passou de uma ferramenta para financiar compras pontuais a um mecanismo utilizado para complementar o orçamento.
A situação também evidencia a importância do planejamento financeiro. Especialistas ouvidos pelo UOL apontam que a combinação de crédito abundante, juros elevados e pouca capacidade de planejamento pode criar um ciclo difícil de interromper.
Renegociação ajuda, mas não resolve o problema
Programas de renegociação de dívidas, como o Desenrola 2.0, têm contribuído para reduzir o estoque de débitos. Entre maio e agosto, cerca de 10 milhões de dívidas foram negociadas, envolvendo 5,54 milhões de operações e aproximadamente R$ 22,4 bilhões em débitos renegociados.
Apesar do alívio proporcionado pelas renegociações, os dados indicam que o problema é mais amplo. O alto custo do crédito, especialmente em modalidades como o cartão, continua sendo um dos principais obstáculos para a recuperação financeira das famílias.
O cenário coloca o consumidor diante de um desafio duplo: o acesso ao crédito tornou-se mais simples, mas o custo de permanecer endividado continua elevado. Para o varejo, a situação também merece atenção, já que o comprometimento da renda pode afetar a capacidade de consumo das famílias.