Bets e o varejo brasileiro: um risco sistêmico em escala

Opinião

Juedir Teixeira
Vice-presidente de Marketing do SindilojasRio, empresário, consultor de Varejo, Mestre em Gestão Estratégica de Negócios e Doutor em Administração

As apostas on-line deixaram de ser apenas uma nova forma de entretenimento para se transformar em uma variável econômica com capacidade de afetar o comportamento de consumo das famílias brasileiras. Para o varejo, o fenômeno merece atenção especial: recursos que antes poderiam ser destinados à compra de alimentos, roupas, eletroeletrônicos, lazer e outros produtos e serviços passaram a disputar espaço no orçamento familiar com as plataformas de apostas.

Dados apresentados com base no Banco Central indicam gastos mensais entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões no primeiro trimestre de 2025. Pela anualização utilizada no estudo, isso representa aproximadamente R$ 300 bilhões por ano. E isso coloca o Brasil como o terceiro maior mercado global de apostas on-line.

O dinheiro das apostas sai do consumo. Segundo os dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), entre janeiro de 2023 e março de 2026, o varejo brasileiro deixou de receber R$ 143,82 bilhões em vendas em decorrência do desvio de renda para as plataformas de apostas. O valor equivale aproximadamente a dois períodos completos de vendas de Natal.

Esse comportamento cria uma sequência perigosa para o varejista: menos renda disponível -> menor volume de compras -> produtos mais baratos -> pressão sobre ticket médio -> pressão sobre margem. Portanto, o impacto não ocorre somente no faturamento. Ele pode chegar diretamente à rentabilidade.

Pesquisa da Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting + Technology aponta que 23% dos apostadores deixaram de comprar itens de vestuário para sustentar gastos com apostas, percentual superior aos 19% identificados em supermercados. O material também destaca impactos em eletroeletrônicos, bares, restaurantes, delivery, roupas e acessórios.

O problema se agrava quando as apostas encontram o endividamento. Existe ainda uma segunda dimensão que preocupa o varejo: o comprometimento financeiro das famílias. O estudo do Ibevar/FIA Business School citado no material associa o crescimento das apostas ao aumento do endividamento familiar. Segundo os dados apresentados, para cada aumento de 1% nos gastos com apostas, o endividamento cresce 0,23%.

Para o varejo, essa relação tem consequências importantes. Um consumidor mais endividado possui menor capacidade de consumo futuro e pode representar maior risco para empresas que operam crediário próprio ou outras modalidades de financiamento. Forma-se, assim, um círculo potencialmente prejudicial: aposta -> redução da renda disponível -> redução do consumo -> endividamento -> inadimplência -> menor capacidade de consumo futuro.

O varejista individualmente não controla o crescimento das apostas, mas pode – e deve – adaptar sua estratégia. A primeira providência é incorporar essa variável aos modelos de demanda, comparando comportamento de ticket médio, frequência, inadimplência e mix por região e perfil socioeconômico. A segunda é o portfólio para o trade down com marcas próprias e produtos econômicos, oferecendo preços menores sem destruir margens. E pode, ainda, fortalecer programas de fidelidade, aumentando a percepção de valor da compra, fazendo com que o cliente permaneça dentro do ecossistema do varejista.

As apostas não explicam, por si só, as dificuldades do consumo brasileiro, mas já alcançaram uma dimensão econômica que o varejo não pode ignorar. Ao disputar a renda disponível das famílias, as bets podem reduzir a frequência de compra e o valor gasto em cada visita, estimular a busca por produtos mais baratos, agravar o endividamento e mudar a demanda. Para o lojista, a lição é olhar além da própria loja e dos concorrentes que vendem os mesmos produtos: embora não comercializem alimentos, roupas ou eletrodomésticos, as bets disputam o dinheiro que permitiria ao consumidor comprá-los. Por isso, compreender seu impacto deixou de ser apenas uma questão de comportamento e passou a fazer parte das decisões estratégicas do varejo brasileiro.

Fonte : Revista Empresário Lojista

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