A expansão da terceirização e do interim management busca mais eficiência e acesso a especialistas, mas exige atenção à gestão e integração das equipes
Levantamento da LHH aponta expansão dos modelos terceirizados e do interim management até 2030. Movimento acompanha a busca por eficiência, flexibilidade e acesso rápido a competências especializadas, mas exige atenção a contexto regulatório, gestão e integração das equipes.
A terceirização continua ampliando espaço nas estratégias das empresas brasileiras. Pressão por eficiência, necessidade de acessar competências especializadas e maior busca por flexibilidade ajudam a explicar o movimento, que já não se restringe a funções operacionais e começa a alcançar posições de alta liderança.
Segundo dados reunidos pela LHH no e-book O Futuro da Liderança: 2025-2030, 80% das empresas brasileiras utilizam algum tipo de serviço terceirizado. O levantamento também aponta que 69% dos interim managers, globalmente, ocupam posições C-Level e projeta que esse mercado poderá movimentar cerca de US$ 580 milhões até 2030.
Os números são apresentados pela consultoria como sinal de expansão do setor e devem ser lidos dentro desse contexto: tratam-se de projeções e estimativas produzidas pela própria organização, e não de dados oficiais consolidados do mercado brasileiro.
Ainda assim, a tendência encontra paralelo em outros indicadores recentes. O Mundo RH mostrou que as contratações temporárias cresceram 15% no Brasil, com maior procura em áreas como finanças, tecnologia, vendas e marketing.
Flexibilidade ganha espaço na estratégia
Para Fernanda Baldivia, Head of Interim Management Brasil da LHH Brasil, a terceirização já representa uma parcela relevante da estrutura de custos das organizações.
Segundo ela, empresas brasileiras destinam, em média, 18,6% de seus orçamentos a soluções terceirizadas, e mais de 12 milhões de trabalhadores atuariam nesse modelo.
A especialista associa esse crescimento a contextos em que as companhias precisam responder rapidamente a mudanças, sem necessariamente ampliar permanentemente o quadro de funcionários.
“Estamos falando de um mercado robusto, onde cerca de 80% das empresas no país já utilizam algum modelo de terceirização”, afirma.
A busca por estruturas mais flexíveis também aparece em outro movimento analisado pelo Mundo RH. Em Trabalho temporário deixa de ser solução emergencial e ganha papel estratégico nas empresas, a modalidade é apresentada como ferramenta utilizada para projetos específicos, sazonalidade e necessidades de transformação organizacional.
Interim management leva terceirização à alta liderança
Uma das mudanças mais relevantes está na presença de profissionais temporários em funções executivas.
O chamado interim management permite que empresas contratem líderes experientes por períodos determinados, geralmente para conduzir transformações, substituir executivos, apoiar processos de recuperação ou liderar projetos com prazo definido.
Esse formato já vinha sendo observado pelo Mundo RH em reportagem sobre C-levels interinos e temporários, destacando aplicações em situações como implantação de sistemas, reorganização de estruturas e entrada em novos mercados.
Para a LHH, cenários de turnaround, crises operacionais e necessidade de escalabilidade estão entre os principais contextos de contratação de lideranças interinas
Escassez de talentos também influencia decisão
A expansão da terceirização ocorre em paralelo a outro desafio: encontrar profissionais com as competências necessárias.
Pesquisa divulgada pelo Mundo RH mostrou que 80% dos empregadores brasileiros enfrentam dificuldades para encontrar talentos. Entre as respostas adotadas aparecem capacitação interna, flexibilização de horários, busca por novos grupos de profissionais, terceirização de funções e ampliação da força de trabalho temporária.
Esse contexto ajuda a explicar por que modelos flexíveis ganharam relevância.
Quando uma empresa não consegue contratar rapidamente determinado especialista ou precisa de uma competência por período limitado, recorrer a profissionais terceirizados, temporários ou interinos pode funcionar como alternativa.
Isso não significa, entretanto, que o modelo seja adequado para toda situação.
Terceirização e trabalho temporário não são a mesma coisa
Um ponto importante para o RH é diferenciar as modalidades.
O trabalho temporário possui regras específicas e está previsto na Lei 6.019/1974, sendo utilizado em situações como substituição transitória de pessoal permanente ou demanda complementar de serviços.
Já a terceirização possui estrutura jurídica distinta.
O próprio Mundo RH já destacou essa diferença ao abordar o Decreto do Trabalho Temporário e sua distinção em relação à terceirização.
Por isso, tratar todos os modelos flexíveis como equivalentes pode gerar erros de gestão e interpretação jurídica.
Eficiência precisa ser analisada além do custo
A redução de despesas pode ser uma das razões para terceirizar, mas não deveria ser a única.
Empresas também precisam avaliar qualidade da entrega, conhecimento crítico, continuidade operacional, gestão da informação, segurança, cultura e integração entre profissionais internos e externos.
Em determinadas funções, manter competências dentro da organização pode ser estratégico.
Em outras, contratar especialistas externos para projetos específicos pode representar ganho de velocidade.
A decisão depende menos de uma regra geral e mais da natureza da atividade.
Liderança interina pode ajudar em momentos de transição
No caso de executivos, o formato pode ser particularmente útil durante processos de transformação.
Um líder interino pode assumir uma área temporariamente, organizar processos e preparar uma transição para uma liderança permanente.
Mas esse tipo de contratação também exige clareza sobre autoridade, objetivos, duração e responsabilidades.
A presença de um executivo externo em posição estratégica precisa ser compreendida pelas equipes para evitar sobreposição de papéis ou perda de referência na tomada de decisão.
Essa preocupação ganha relevância em um cenário no qual a liderança intermediária já enfrenta desafios importantes. Reportagem do Mundo RH sobre a crise silenciosa da liderança intermediária chama atenção para a dificuldade de transformar estratégia em execução e para a pressão crescente sobre gestores.
Regulação e transformação econômica entram na equação
Fernanda Baldivia também aponta mudanças regulatórias, como a reforma tributária, além da pressão por resultados e processos de crescimento acelerado, como fatores que podem favorecer a procura por lideranças temporárias e terceirizadas.
Nesses ambientes, contratar profissionais com experiência prévia em transformação pode reduzir o tempo necessário para estruturar uma resposta.
Por outro lado, mudanças regulatórias exigem cautela.
Empresas precisam acompanhar impactos trabalhistas, fiscais e contratuais antes de alterar modelos de contratação ou transferir atividades.
O desafio do RH é definir onde flexibilidade gera valor
A expansão dos modelos terceirizados coloca o RH diante de uma questão mais ampla.
Nem toda função precisa ser interna.
Mas nem toda função deve ser terceirizada.
A decisão precisa considerar criticidade, necessidade de conhecimento acumulado, duração da demanda, custo, riscos, cultura e capacidade de gestão.
O avanço do trabalho temporário já mostra que modelos mais flexíveis deixaram de ser vistos apenas como soluções emergenciais. Reportagem do Mundo RH sobre como empresas e profissionais se beneficiam da contratação temporária aponta o uso da modalidade para responder a sazonalidades, projetos e necessidades específicas.
A discussão sobre terceirização caminha na mesma direção.
O crescimento projetado pelo estudo da LHH sugere que empresas continuarão buscando formatos capazes de combinar agilidade e acesso a competências.
Mas o avanço quantitativo não elimina a necessidade de uma pergunta qualitativa: em quais posições a terceirização aumenta a capacidade do negócio e em quais ela pode criar novos riscos?
Para o RH, responder a essa pergunta com dados, planejamento e visão de longo prazo será tão importante quanto decidir quantas pessoas contratar.