Atacarejos, hipermercados e supermercados disponibilizaram 1,6 milhão de anúncios de ofertas em outubro; 35% das vendas do varejo alimentar hoje são de itens em promoção
Nunca houve tanta promoção de alimentos no varejo brasileiro como hoje. Em outubro,1,6 milhão de anúncios de comida com preços em oferta foram disponibilizados nos supermercados.
O dado é da Shopping Brasil, que há 25 anos monitora continuamente as ofertas do mercado alimentar no País. Em todo esse período, não havia sido registrado num único mês, de acordo com a companhia, um volume tão grande de ofertas de alimentos.
Minoru Wakabayashi, CEO da empresa que é referência no setor e que acompanha 80% das ofertas do mercado alimentar, diz que a promoção, antes esporádica, virou rotina.
“É cada vez mais frequente ver clientes indo para loja a procura de preço”, afirma o executivo. Ele estima que hoje 35% das vendas do varejo alimentar são de itens em promoção. No passado, essa fatia oscilava entre 25% e 30%.
Varejistas e indústrias captaram a tendência de focar nas promoções, estratégia que ficou nítida a partir de 2024 e atingiu neste ano patamar histórico.
De janeiro a outubro, o total de promoções de alimentos deu um salto e foi 73% maior em relação a igual período de 2019, o último ano de vendas normais antes da pandemia. Em relação a 2024, a alta foi de 7,5%.
Atacarejo
Vários fatores combinados têm contribuído para que as promoções na venda de alimentos deixassem de ser uma questão tática e virassem rotina no varejo.
O avanço dos atacarejos, modelo de loja que combina atacado com varejo e que é sinônimo de preço baixo, foi um dos fatores que intensificaram o volume de promoções, segundo Wakabayashi. Ele ressalta também a forte concorrência que passou a existir nesse segmento, com a entrada de novos competidores, o que intensificou as promoções.
Levantamento da consultoria mostra que o atacarejo dobrou sua participação no total de ofertas de alimentos em apenas quatro anos, de 14% em 2021 para 33% em 2025. O formato também investiu em sortimento mais completo, com destaque para perecíveis (carne, leite, frutas, verduras, queijos, iogurtes, ovos, frango e peixe).
Frutas, legumes, carnes e aves passaram a ser mais ofertados pelos atacarejos para aumentar a frequência de visitas às lojas e competir com supermercados e hipermercados em compras recorrentes.
Coincidentemente, a categoria de perecíveis, foi uma das que mais cresceram em promoções, de acordo com a consultoria. Em 2020, representava 29% das ofertas. Em 2025, esse número chegou a 34%.
Outro fator, na análise de Wakabayashi, que explica a avalanche de promoções em alimentos é a digitalização. Antes as ofertas eram anunciadas em folhetos impressos ou na TV a um custo elevado e com menor agilidade. Em 2019, apenas 6% das ofertas eram veiculadas em redes sociais. Neste ano, essa participação saltou para 57%. Com as ofertas na tela do celular, a prática de promoções ganhou impulso e encontrou um consumidor ávido por ofertas.
Nível de preços elevado
Apesar da perda de fôlego recente da inflação de alimentos no domicílio, que chegou a ser projetada pelos economistas para este em 7% e agora está ao redor de 2%, o brasileiro está perdendo ao longo dos anos poder de compra na hora de abastecer a despensa.
No ano passado, a inflação de alimentos no domicílio fechou com alta de 8,2%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo do IBGE. Em 2021, os preços dos alimentos subiram 8,2%, em 2022 o aumento foi de 13,2%, seguido de um pequeno recuo de 0,5% em 2023. Essa trajetória mostra que o nível de preços da comida está elevado e ainda pesa no orçamento das famílias.
Fora isso, Wakabayashi pondera que, apesar de a taxa de desemprego ter encerrado outubro na mínima histórica de 5,4%, o menor nível desde 2012 na série do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o endividamento continua elevado e os juros também. “Com os juros altos, quem está endividado não consegue sair dessa situação.”
Outro fator que tem contribuído para o aperto no orçamento é o avanço das apostas esportivas, as Bets, aponta o CEO da Shopping Brasil. Números do Banco Central indicam que R$ 30 bilhões estão sendo direcionados mensalmente para as apostas. “Em um ano são R$ 360 bilhões subtraídos do consumo.” Com esse cenário, o dinheiro fica curto e a oferta passa a ser fundamental na hora de comprar.
Fonte : https://www.estadao.com.br/economia/varejo-nunca-teve-tantas-promocoes-em-alimentos-veja-o-que-ficou-mais-barato/