A promessa que nenhum governo consegue cumprir

Opinião

Vitória Saddi

 Economista da SM Futures, com mestrado em economia pela FGV, Ph.D pela University of Southern California e uma das co-fundadoras do site Astra Agnostics

A ironia é que a credibilidade não nasce de discursos convincentes. Nasce de amarras. Um governo que se autolimita — que aceita perder a opção de “ajudar a economia” com uma dose de inflação de ocasião — é, paradoxalmente, o único capaz de entregar a inflação baixa que promete

Todo governo que assume o poder promete a mesma coisa: inflação baixa, sem custo de emprego. E quase todo governo, mais cedo ou mais tarde, trai essa promessa. Não por incompetência nem por má-fé pontual — mas porque a matemática do problema empurra qualquer administrador racional, mesmo o mais bem-intencionado, a fazer exatamente aquilo que jurou não fazer. Esse é um dos resultados mais robustos da macroeconomia das últimas cinco décadas, e explica boa parte da história inflacionária do Brasil e do mundo.

O economista Finn Kydland e o depois-Nobel Edward Prescott batizaram o fenômeno, em 1977, de inconsistência temporal. A ideia é simples de  enunciar e desconfortável de aceitar: a política que é ótima quando anunciada no início de um governo deixa de ser ótima assim que o público passa a acreditar nela. Um Banco Central que promete inflação zero, se for levado a sério, cria justamente a condição em que inflacionar “de surpresa” passa a valer a pena — um pouco mais de emprego, um pouco mais de receita, no curto prazo, sem custo imediato de credibilidade, porque ninguém está esperando por isso.

O problema é que o público não é ingênuo. Os economistas Robert Barro e David Gordon, em 1983, formalizaram essa interação como um jogo entre governo e sociedade — uma versão macroeconômica do dilema do prisioneiro. Se a sociedade acredita na promessa de inflação zero e o governo tem incentivo para trapacear, a sociedade racional deveria simplesmente parar de acreditar. E aí mora a armadilha: o equilíbrio final não é nem a inflação zero prometida, nem o ganho de emprego que tentava a trapaça — é uma inflação permanentemente mais alta do que o necessário, sem nenhum benefício real, porque todo mundo já embutiu a desconfiança nos preços e nos salários desde o início.

Esse é o ponto central que minha dissertação de mestrado — premiada pelo BNDES em 1994 como a melhor do ano — tentou explicitar usando a teoria dos jogos em vez das técnicas tradicionais de controle ótimo que dominavam a macroeconomia até então. A diferença não é cosmética. Nos modelos antigos, a inconsistência temporal aparecia como um defeito técnico, quase um bug de cálculo. Na leitura estratégica, ela é a consequência inevitável de um jogo em que o governo tem informação e poder discricionário — e o público, expectativas racionais.

A saída teórica que emerge dessa literatura não é pedir mais boa vontade aos governantes. É tirar deles a opção de trapacear. Barro e Gordon mostraram que, quando o jogo se repete indefinidamente — quando o governo sabe que vai precisar da credibilidade do público amanhã, depois de amanhã, e assim por diante —, a cooperação se torna racional: o custo de romper a regra hoje supera o ganho de curto prazo, porque a punição (desconfiança permanente) dura para sempre. Já num jogo com fim conhecido, a tentação de trapacear no último período contamina todos os períodos anteriores por indução retroativa, e a inflação alta volta a ser a única saída racional.

Essa distinção — jogo finito versus jogo infinito, discrição versus regra — não é um exercício de sala de aula. É a lógica que, décadas depois, levou dezenas de países, o Brasil incluído, a blindar formalmente seus bancos centrais da vontade política de ocasião. Regras de meta de inflação, mandatos fixos e independência formal da autoridade monetária são, na prática, a resposta institucional a um problema que a teoria dos jogos identificou muito antes de virar política pública: só um Banco Central que não pode ser convocado a inflacionar sob pressão consegue, de fato, manter a inflação baixa sem pagar o preço do desemprego.

A ironia é que a credibilidade, nesse arcabouço, não nasce de discursos convincentes. Nasce de amarras. Um governo que se autolimita — que aceita perder a opção de “ajudar a economia” com uma dose de inflação de ocasião — é, paradoxalmente, o único capaz de entregar a inflação baixa que promete. Trinta anos depois de Kydland e Prescott formalizarem esse paradoxo, ele continua sendo a explicação mais econômica, no sentido literal, de por que bancos centrais independentes funcionam e promessas de política monetária discricionária, por mais bem-intencionadas, tendem a fracassar.

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Fonte : https://dcomercio.com.br/publicacao/s/a-promessa-que-nenhum-governo-consegue-cumprir

 

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