Alta nas recuperações judiciais não sinaliza crise econômica, mas acende alerta

No primeiro semestre, 6.341 companhias buscaram a Justiça, ou soluções extrajudiciais, para se protegerem de seus credores, segundo dado do Monitor RGF-BIZDOC

O Grupo Casas Bahia, a Lojas Marabraz, o Grupo Gennius – dono do Habib’s e do Ragazzo -, o Grupo Pão de Açúcar (GPA), a Raízen e o Grupo Toky – dono da Tok&Stok e da Mobly – são algumas companhias que solicitaram recuperação judicial ou extrajudicial em 2026. O número de grandes empresas solicitando proteção judicial preocupa o varejo e pode ser um indicador da temperatura da economia brasileira, segundo especialistas ouvidos pelo Diário do Comércio.

O volume de empresas em recuperação judicial atingiu o maior patamar da série histórica iniciada em julho de 2023, segundo o Monitor RGF-BIZDOC. Apenas no final do primeiro semestre deste ano, 6.341 negócios buscaram proteção contra ações de credores. O dado representa um crescimento de 6,2% no total de empresas que precisavam de proteção judicial para renegociar dívidas.

O cenário evidencia a pressão que o setor empresarial tem enfrentado nos últimos anos, especialmente as companhias mais alavancadas ou com menor capacidade de geração de caixa. “Nos últimos anos, as empresas conviveram com custo de capital elevado, maior seletividade na concessão de crédito e, em diversos setores, pressão sobre margens e capital de giro. Quando esses fatores se combinam com uma estrutura de capital já pressionada, a capacidade de absorver novos choques e refinanciar obrigações tende a diminuir”, diz Kenzo Otsuka, sócio e Head of Financial Advisory na Forvis Mazars, consultoria empresarial e auditoria.

De acordo com Otsuka, é possível observar no ambiente empresarial uma combinação de endividamento elevado, menor geração de caixa, pressão sobre capital de giro e dificuldade de refinanciamento, que pode causar esse crescimento nos pedidos de recuperação judicial.

Um fator observado em empresas que recorrem à recuperação judicial é o descasamento entre o prazo das dívidas e o ritmo de geração de caixa do negócio. Isso ocorre, por exemplo, quando a empresa concentra muitos vencimentos no curto prazo para financiar ativos ou investimentos que só devem gerar retorno no longo prazo. Nesse cenário, o negócio pode ficar dependente da renovação ou do refinanciamento constante das dívidas. Com os juros elevados, porém, essa estratégia se torna mais difícil e pode agravar os problemas financeiros da empresa, segundo Otsuka.

Apesar de muitas empresas ainda sofrerem com as dívidas da época da pandemia, a taxa básica de juros (Selic) elevada, acima de dois dígitos desde 2022 e alcançando 13,75% ao ano atualmente, é um dos principais motivos para o crescimento das recuperações judiciais, de acordo com Pierre Oberson de Souza, professor de finanças da FGV EAESP. Segundo ele, isso ocorre devido à dificuldade de tomada de crédito pelas empresas.

“Colocar a conta apenas nos juros altos é simplificar a realidade de forma excessiva. Porém, é preciso pensar que vivenciamos um cenário desafiador do ponto de vista financeiro. Então, na empresa que gera lucro, boa parte deste valor é consumida pelos juros”, explica Oberson de Souza.

Além disso, outros fatores macroeconômicos se tornam desfavoráveis para as empresas, como a desaceleração econômica, que leva à diminuição do consumo, o que afeta diretamente o resultado operacional das companhias. “Se a receita está caindo, ou crescendo menos do que o esperado, e os juros estão altos, essa é a situação perfeita para a empresa entrar em crise”, diz o professor da FGV.

“A raiz do problema aconteceu na pandemia, quando muitas empresas tiveram que se endividar. À época, os juros estavam relativamente baixos. Então, eu tenho a raiz de um problema criado lá atrás, só que essas dívidas começam a vencer, e a empresa ainda não tem caixa para pagar essa dívida. Aí ela tenta refinanciar, só que essa dívida se torna muito mais cara devido à elevação dos juros”, complementa.

O aumento dos pedidos de recuperação judicial em grandes redes de varejo, como o Grupo Casas Bahia, chamou a atenção do mercado. Contudo, a expansão do recurso para outros setores, como a indústria, acende um alerta geral entre os empresários. No caso das indústrias, que dependem de investimentos pesados, os juros acabam sendo um inibidor desses aportes.

Na visão de Oberson de Souza, o número de pedidos de recuperação judicial em diferentes setores, como agronegócio, varejo e indústria, evidencia um problema generalizado no Brasil. “É a ponta de um icebergue; a recuperação judicial vem de um caminho tortuoso. Se você olhar o índice de inadimplência de pessoa jurídica, ele foi crescendo ao longo dos anos”, diz.

Os pedidos de recuperação judicial também sinalizam uma falta de otimismo dos empresários em relação à queda da taxa de juros, uma vez que esse recurso se torna a única opção para tentar reverter os prejuízos. “Acho que não dá para dizer que é uma crise econômica generalizada, mas é um péssimo sinal”, diz o professor de finanças da FGV.

Entrar com pedido de recuperação judicial não quer dizer que a empresa está falida, mas sim que há uma oportunidade de essa empresa se reestruturar por meio da negociação com credores.

Ainda segundo o professor da FGV, devido à persistência da alta taxa de juros, a tendência é que o Brasil continue lidando com um grande número de pedidos de recuperação judicial nos próximos anos, sem previsão de uma desaceleração. “Ainda temos um período muito turbulento com eleições e outras incertezas, então não vejo muita perspectiva de melhora. Está evidente que vai ser um próximo ano difícil, qualquer que seja o cenário”, diz.

Sinais de alerta

Redução persistente da geração de caixa, dificuldade crescente de renovar linhas de crédito, concentração de vencimentos, aumento dos prazos de pagamento a fornecedores ou pressão sobre covenants financeiros (cláusulas financeiras que estabelecem limites e condições que a empresa deve cumprir para manter o financiamento) são alguns indicadores de que a empresa está caminhando para uma recuperação judicial.

Outro indicador importante é a capacidade prospectiva de geração de caixa em relação ao serviço da dívida. De acordo com Otsuka, é importante não apenas considerar o resultado contábil ou o EBITDA, mas sim o fluxo de caixa, o capital de giro, os investimentos, os juros, as amortizações e os vencimentos futuros.

“Uma empresa pode, inclusive, apresentar EBITDA positivo e ainda assim enfrentar dificuldades financeiras. O ponto central é avaliar quanto desse resultado operacional efetivamente se converte em caixa e se essa geração de caixa é suficiente para suportar as necessidades de capital de giro, investimentos, impostos e o serviço da dívida”, diz o especialista.

Para Otsuka, mesmo com a redução da taxa de juros, seus efeitos tendem a demorar para se refletir na economia e podem não ser suficientes para solucionar situações de maior estresse financeiro.

“Juros menores também não resolvem, isoladamente, problemas estruturais como margens insuficientes, baixa geração de caixa, excesso de dívida, elevada necessidade de capital de giro ou um modelo de negócios que precise ser ajustado. Para determinadas empresas, a redução dos juros pode ajudar significativamente; para outras, será necessário combinar a melhora do ambiente financeiro com medidas operacionais e de reestruturação do balanço”, diz.

Segundo ele, para evitar a recuperação judicial, é necessário que as empresas trabalhem com projeções de caixa e cenários de estresse, antecipando eventuais necessidades de financiamento ou renegociação. “Quando os primeiros sinais de pressão aparecem, medidas como redução de custos, revisão de investimentos, gestão mais rigorosa do capital de giro, venda de ativos não estratégicos, renegociação de dívidas ou reforço de capital tendem a ser mais eficazes se adotadas com antecedência”, diz Otsuka.

Fonte : https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/alta-nas-recuperacoes-judiciais-nao-sinaliza-crise-economica-mas-acende-alerta

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