BC: 82% dos reajustes salariais por negociações coletivas ficaram acima da inflação

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Diário do Comércio – João Mendes, de Brasília

No mercado de trabalho formal do setor privado, 82% dos reajustes salariais obtidos por meio de convenções coletivas ficaram acima da inflação entre junho e agosto deste ano. É o que mostra o Relatório de Política Monetária, apresentado nesta quinta-feira, 24/09, pelo Banco Central.

Enquanto as correções subiram, em média, 5,1%, a inflação anual acumulada no trimestre ficou em 4,22%. Foi a primeira vez que o Banco Central publicou esse indicador, que passa a ser divulgado todos os meses.

“Os dados ajudam a compreender a dinâmica do mercado de trabalho e sua relação com a inflação. Em particular, os indicadores mostram elevada aderência entre os reajustes nominais e a inflação passada e indicam predominância de ganhos salariais reais em momentos de taxa de desocupação baixa”, descreve o documento, comentado pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e pelo diretor de Política Econômica da instituição, Paulo Pichetti.

De acordo com o relatório, a taxa de desocupação, de forma geral, ficou estável em nível historicamente baixo, e a geração de empregos continua positiva, apesar de ter diminuído. “O mercado de trabalho continua aquecido, mas algumas variáveis trazem indícios de moderação. Apesar de continuar positiva, a geração de empregos com carteira diminuiu, enquanto as medidas de salário real evoluíram de forma mais contida”.

Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, foram gerados, em média, 52 mil empregos por mês no trimestre maio-julho, abaixo dos 86 mil constatados no período de fevereiro a abril, e dos 68 mil entre novembro e janeiro. Além disso, o rendimento médio real do trabalho, de acordo com o IBGE, com tendência de crescimento desde 2022, recuou 0,6%, com a queda concentrada na renda dos informais.

PIB, inflação e crédito

O relatório confirma expectativa do governo, apresentada pelo Ministério da Fazenda na última terça-feira (22), de redução do crescimento econômico e da desaceleração da inflação e oferta de crédito.

A projeção de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2026 foi revisada para baixo, de 2,0% para 1,8%, enquanto a estimativa inicial para 2027 é ainda menor: 1,4%. “Mantém-se a expectativa de crescimento moderado da atividade econômica no segundo semestre de 2026 e ao longo de 2027. No próximo ano, espera-se, ainda, contribuição mais limitada da agropecuária e da indústria extrativa para o crescimento”, informa o relatório.

O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, após expansão de 1,1% no trimestre anterior, com desaceleração dos setores mais sensíveis ao ciclo econômico e queda do consumo das famílias. “A desaceleração no segundo trimestre, que deve prosseguir no terceiro, faz parte de um quadro mais amplo de diminuição do dinamismo da atividade econômica desde o final de 2024, quando teve início um ciclo de aperto monetário”, analisa o Banco Central.

“Tanto o Banco Central quanto o mercado, nas suas comunicações, vêm demonstrando que existem mais evidências de consolidação de um processo de desaceleração”, declarou Galípolo em entrevista coletiva.

Já a inflação continua acima do centro da meta do Banco Central, que é de 3%, ainda que tenha diminuído na comparação com o relatório anterior. A alta dos preços, medida pelo IPCA, acumulada em doze meses, passou de 4,72% em maio para 4,22% em agosto.

Resultado da política monetária restritiva, o mercado de crédito, segundo o relatório, continua com sinais de desaceleração e o endividamento segue pressionando as condições financeiras de famílias e empresas. “O endividamento permaneceu em patamar historicamente alto, enquanto o comprometimento de renda e a inadimplência atingiram novos recordes.”

As concessões de crédito a pessoas físicas recuaram e, tanto nas contratações das famílias quanto nas das empresas, houve maior participação de modalidades emergenciais ou de curto prazo. Em sentido oposto, as concessões de crédito direcionado permaneceram elevadas, sustentadas pelo financiamento imobiliário às famílias e pelos fundos garantidores para empresas.

Na análise do Banco Central, o endividamento mantém-se em patamar historicamente alto desde o final de 2021 e atingiu 49,9% em janeiro deste ano, recorde da série, e que se mantém até agora. O comprometimento da renda aumentou nos últimos meses, alcançando 28,9% em junho, o maior valor da série. Para a instituição, o processo de inclusão bancária, aliado a inovações tecnológicas e a condições favoráveis no mercado de trabalho, impulsionou o acesso das famílias ao crédito, contribuindo para a elevação do endividamento e do comprometimento de renda nos últimos anos.

Galípolo explicou que “estamos tendo um processo de inclusão financeira, em que uma série de pessoas estão entrando no sistema financeiro, tendo acesso ao mercado e, muitas vezes, o primeiro produto que elas têm acesso é o crédito. Nos últimos anos, o que assistimos foi um processo de recompor esse poder aquisitivo com ganhos reais, mas que precisa ser feito com muito cuidado, pois, se tentar fazer isso de forma muito rápida, você acelera demais a inflação e acaba transformando o objetivo mais distante do que pretendia”.

Galípolo afirmou que o Banco Central está preocupado com a oferta de “crédito predatório” e que vai lançar gradativamente um conjunto de medidas para tentar limitar, assim como ações para aumentar a consciência dos consumidores sobre suas decisões de empréstimo. “Do ponto de vista de estabilidade, estamos preocupados com oferta de crédito agressivo ou até predatório. As medidas independem do momento do ciclo econômico”, disse.

Cenário fiscal e externo

O relatório aponta que, no governo central, o aumento das despesas superou o crescimento da receita. No acumulado do ano até julho, a receita líquida cresceu 5,9% em termos reais, sustentada pela arrecadação de tributos mais correlacionados à atividade econômica e ao mercado de trabalho, como o Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido e Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

Pelo lado das despesas, que cresceram 6,2%, benefícios previdenciários, pessoal e outros gastos obrigatórios mantiveram expansão real expressiva, de 4,0%, 6,7% e 3,9%, respectivamente, acima do limite máximo preconizado pelo arcabouço fiscal para a despesa total, que é 2,5%. As despesas discricionárias, por sua vez, avançaram 44,6% em termos reais, refletindo, principalmente, a maior execução de emendas parlamentares.

A incerteza em torno do cenário internacional permanece elevada, na avaliação do Banco Central. “O ambiente externo segue incerto em função da indefinição acerca dos conflitos armados ainda não resolvidos no Oriente Médio e das decisões futuras de política monetária em algumas economias avançadas. Tal cenário requer cautela por parte das economias emergentes em ambiente de maior volatilidade dos preços de ativos e commodities”, analisa a instituição.

 IMAGEM: Pedro Ladeira/Folhapress

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