Brasil remunera mais o tempo livre do que o trabalhado

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A Folha de S. Paulo entrevistou o novo presidente da FecomercioSP, Ivo Dall’Acqua Júnior, eleito para suceder Abram Szajman após 42 anos à frente da entidade. O empresário assume a representação de cerca de 1,8 milhão de empresas paulistas em um momento marcado pelo debate sobre mudanças nas relações de trabalho, especialmente a proposta de extinção da escala 6×1. A reportagem também destaca que ele deverá presidir os conselhos regionais do Senac e do Sesc em São Paulo, instituições que completarão 80 anos em 2026.

Fim da escala 6×1

O principal tema da entrevista é a proposta de redução da jornada de trabalho. Dall’Acqua afirma ser contrário ao fim da escala 6×1, classificando a iniciativa como resultado de “populismo explícito”. Segundo ele, mudanças nas regras trabalhistas precisam ser construídas por meio de negociações entre empregadores e trabalhadores, e não impostas pelo Estado.

Na avaliação do dirigente, a redução generalizada da jornada desconsidera as diferenças entre setores econômicos. Ele cita áreas como saúde e alimentação, que possuem características operacionais específicas, e argumenta que uma regra única poderia comprometer modelos de trabalho já consolidados.

Também defende que aumentos de produtividade sejam compartilhados entre empresas e trabalhadores, mas somente após negociação coletiva.

Impactos econômicos

O presidente da FecomercioSP sustenta que uma redução obrigatória da jornada elevaria os custos das empresas, exigindo novas contratações e mudanças na forma de atendimento ao público.

Ele cita como exemplo restaurantes, onde a contratação de mais funcionários poderia reduzir o valor recebido pelos trabalhadores na divisão das gorjetas, mesmo que o salário permanecesse inalterado.

Dall’Acqua também compara a legislação brasileira com a de outros países, argumentando que o Brasil já possui elevada quantidade de dias não trabalhados, considerando férias, descansos semanais remunerados e feriados.

Mercado de trabalho e informalidade

Outro eixo da entrevista é a informalidade. Para ele, o aumento do custo da contratação formal tende a estimular relações informais de trabalho.

Como exemplo, menciona a Lei das Domésticas, afirmando que, após sua aprovação, parte das trabalhadoras teria optado pelo trabalho por diária em vez da contratação formal.

Na visão do dirigente, a informalidade decorre menos da reforma trabalhista de 2017 e mais da existência de programas sociais que oferecem uma porta de entrada, mas não estabelecem mecanismos claros para incentivar o retorno ao mercado formal.

Programas sociais

Dall’Acqua faz críticas ao desenho de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.

Ele afirma que essas políticas devem ser acompanhadas de mecanismos que incentivem a autonomia financeira e a inserção no mercado formal de trabalho, evitando que o benefício se torne permanente.

Durante a entrevista, chegou a defender que seria uma “condição interessante” restringir o direito de voto de beneficiários de programas sociais, afirmando, equivocadamente, que isso ocorreria em alguns países desenvolvidos.

Posteriormente, enviou uma retificação à reportagem reconhecendo o erro da informação. Também afirmou que o direito ao voto deve ser garantido em uma democracia e esclareceu que sua defesa é por políticas que condicionem a permanência no benefício à comprovação da necessidade e à busca por emprego formal.

Relação entre capital e trabalho

Ao comentar sua trajetória como empresário, juiz classista e dirigente sindical patronal, Dall’Acqua afirma que nunca enxergou capital e trabalho como lados opostos.

Segundo ele, empresas precisam investir e confiar em seus funcionários, enquanto os trabalhadores precisam gerar resultados. Quando essa relação funciona adequadamente, diz, todos são beneficiados por meio da geração de empregos, renda e bem-estar.

Ele também critica a concentração econômica brasileira e afirma que pequenas empresas enfrentam maiores dificuldades para oferecer benefícios semelhantes aos das grandes corporações.

Críticas ao ambiente político

O dirigente sustenta que decisões sobre relações trabalhistas têm sido influenciadas por interesses políticos e eleitorais.

Na sua avaliação, propostas populares muitas vezes avançam sem estudos econômicos suficientes e acabam produzindo efeitos negativos sobre empresas, trabalhadores e o mercado de trabalho.

Prioridades na FecomercioSP, Senac e Sesc

Ao assumir a presidência da FecomercioSP, Dall’Acqua afirma que pretende preservar o legado da gestão anterior, ao mesmo tempo em que adapta a entidade às novas demandas econômicas e sociais.

Para o Senac, sua prioridade será ampliar a oferta de ensino médio técnico e educação profissional, diante do crescimento da procura por essa modalidade.

No Sesc, pretende expandir a atuação da instituição principalmente no interior paulista, criando formatos mais compactos para levar atividades culturais, esportivas e de lazer a municípios que ainda não comportam grandes unidades.

Perfil pessoal

A reportagem também traça um perfil do novo presidente da FecomercioSP. Natural de Araraquara, ele relata que entrou no sindicalismo patronal “por acidente”, tem forte ligação com o varejo e considera o teatro seu principal hobby.

Dall’Acqua se define como mais comunicativo do que seu antecessor, Abram Szajman, e afirma que chega ao cargo com respeito à história da entidade, mas disposto a preparar a federação para os desafios das próximas décadas.

Fonte: Diego Alejandro, Folha de S.Paulo. Artigo publicado em 28 de junho de 2026.

Link da reportagem: Ivo Dall’Acqua Júnior: “Brasil remunera mais o tempo livre do que o trabalhado”

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