Atacarejo responde pela maior parte da operação de nove das dez maiores redes varejistas em faturamento; com aumento de custos, modelo está numa encruzilhada
A explosão de abertura de lojas de atacarejo na última década mudou o mapa do varejo brasileiro de alimentos e bebidas. Quatro redes de supermercados que figuravam entre as dez maiores no País em faturamento em 2016 tinham caído fora desse grupo em 2025, segundo os rankings da Associação Brasileira de Supermercados (Abras).
Em contrapartida, as redes que ascenderam ou estrearam na lista das dez que mais faturaram nesse período tiveram como ponto comum a aposta no modelo de loja de atacarejo.
O atacarejo é uma invenção do varejo nacional. Ganhou força com a inflação alta e o baixo poder aquisitivo do brasileiro. Nesse formato de loja, os produtos são vendidos no varejo, como nos supermercados, porém com preços menores, isto é, de atacado.
“O ranking das dez primeiras posições de 2025 é o ranking do atacarejo, praticamente”, afirma Marcos Escudeiro, professor da pós-graduação em gestão do varejo alimentar da ESPM e conselheiro de empresas.
O hipermercado está decadente, o supermercado continua crescendo, só que o atacarejo cresceu mais, observa o especialista ao avaliar o sobe e desce das varejistas na lista das dez que mais faturaram em 2025.
Comparando o ranking de 2025 com o de 2016, as redes de supermercados Walmart, Zaffari, Condor Supercenter e Sonda deixaram de figurar entre as maiores em vendas.
Sobe e desce
A americana Walmart saiu do País, quando vendeu a sua operação para o fundo Advent. A Condor deixou de participar do ranking por opção. Já as redes Zaffari e Sonda perderam posições. A rede Zaffari era a quinta em faturamento no ranking de 2016 e caiu para 12º lugar em 2025. No mesmo período, a rede Sonda foi da décima para 18ª posição.
Já o Carrefour consolidou-se na liderança do ranking das empresas de maior faturamento de 2025, por conta do Atacadão, o braço do atacarejo da rede francesa.
O ranking de 2025, elaborado a partir dos dados do ano anterior, mostra que, em 2024, o Carrefour faturou R$ 120,59 bilhões, e o Atacadão respondeu por 71% dessa cifra. Das 718 lojas, de todos os formatos — hipermercados, supermercados, lojas express, clube de compras e atacarejo — o Atacadão detém mais da metade dos pontos de venda, com 385 unidades.
Dez anos atrás, a rede francesa ocupava a segunda posição no ranking de faturamento, com vendas de R$ 42,7 bilhões. Na época, em 2015, a liderança estava com a Companhia Brasileira de Distribuição, o Grupo Pão de Açúcar (GPA), que faturava R$ 76,9 bilhões. A Companhia Brasileira de Distribuição reunia os supermercados Pão de Açúcar, hipermercados Extra e o atacarejo Assaí.
Em 2021 houve uma cisão. O atacarejo Assaí virou uma empresa independente com ações negociadas nas bolsas brasileira e de Nova York. E o GPA ficou com os supermercados e minimercados sob a bandeira Pão de Açúcar.
Resultado: em 2024, o Assaí, que é uma rede só de atacarejo, ocupou a vice-liderança entre as dez maiores varejistas de alimentos em faturamento, com vendas R$ 80,57 bilhões.
GPA perde protagonismo
Enquanto o Assaí ascendeu, a empresa mãe, o GPA, afetada por questões societárias e focada só em supermercados, após ter desativado a bandeira de hipermercados Extra, despencou da liderança para a quinta posição no ranking de vendas em dez anos.
Além do Carrefour e do próprio Assaí, passaram à frente do GPA na lista duas varejistas que têm lojas de atacarejo como pilar de vendas. Uma delas é o Grupo Mateus, que ficou em terceiro lugar em 2024, com receita de R$ 36,38 bilhões. Desse total, mais da metade (56%) vem do atacarejo. Das 272 loja, 90 são de atacarejo.
O Supermercados BH é outra varejista que ultrapassou o GPA em 2024. A rede mineira faturava R$ 3,97 bilhões em 2015 e ocupava a sétima posição. Em 2024 ascendeu para o quarto lugar, com vendas de R$ 21,27 bilhões.
Em uma década, a rede Irmãos Muffato ficou estacionada na sexta posição no ranking da Abras, porém mais que quadruplicou as vendas no período. Faturava R$ 4,09 bilhões em 2015 e atingiu R$ 17,43 bilhões em 2024.
O Grupo Pereira, que em 2015 figurava com a razão social SDB para o atacado, subiu apenas uma posição em dez anos, do oitavo para o sétimo lugar na lista dos dez maiores faturamentos. No entanto, a receita deu um salto: foi de R$ 3,88 bilhões para R$ 15,32 bilhões no período.
Ascensões meteóricas
Já Mart Minas Atacado e Koch hipermercados tiveram ascensões meteóricas. O Mart Minas, que só tem loja de atacarejo, saiu da 26ª colocação em 2015 no ranking das 300 maiores companhias do setor de supermercados, com vendas de R$ 1,3 bilhão, para a oitava posição em 2024 e faturamento de R$ 11,43 bilhões.
A rede Koch, com sede em Santa Catarina, escalou da 50ª posição em 2015 para o décimo lugar entre os maiores faturamentos em 2024, ano em que vendeu R$ 10,34 bilhões. Três quartos da receita (75%) da empresa vieram do atacarejo, que no final do ano passado correspondiam a 64 lojas de um total de 92.
Assim como o GPA, o Cencosud fez o caminho inverso: perdeu cinco posições em uma década. Era a quarta maior rede em faturamento em 2015, com vendas de R$ 9,26 bilhões, e caiu para a nona posição em 2024, faturando R$ 11,34 bilhões. E o atacarejo representa apenas 20% das vendas da empresa, concentradas em supermercados e hipermercados (74%).
Para Eduardo Terra, cofundador do Instituto Retail Think Tank (IRTT), a grande diferença entre o ranking das dez maiores varejistas de alimentos e bebidas de hoje comparado com o de dez anos atrás é que quase todas, exceto GPA e Assaí, são empresas híbridas. Isto é, têm lojas de supermercado e atacarejo. “Mas predomina o atacarejo porque essa é a realidade do Brasil hoje”, diz.
A corrida dos supermercados para abrir atacarejo provocou um boom no número de lojas desse formato. Em meados do ano passado, havia no País 180 marcas diferentes de atacarejos com ao menos duas lojas, diz Escudeiro, da ESPM, que fez um levantamento informal. “Hoje deve ter muito mais.”
Redes de supermercados de porte médio e grande estão investindo em atacarejo para ampliar vendas e se tornarem ainda maiores. Mas, segundo Escudeiro não são todos os mercados que comportam a presença de um atacarejo.
Esgotamento dos atacarejos?
A forte concorrência entre os atacarejos e até com os supermercados já ficou nítida no desempenho das vendas. No ano passado, o faturamento dos atacarejos cresceu menos do que a inflação oficial de 4,26% registrada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Também a taxa de aumento de receita das lojas de atacarejo foi a metade da atingida pelos supermercados, quando se considera a mesma base de lojas de 2024.
Segundo levantamento da Scanntech, plataforma de inteligência de dados para o varejo e indústria que monitora 13,5 bilhões de tíquetes por ano na boca do caixa do varejo alimentar, enquanto o faturamento dos supermercados cresceu 5% no ano passado ante 2024, o atacarejo avançou apenas 2,6%, na mesma base de comparação.
O desempenho pior dos atacarejos é resultado da queda de 3,4% no volume de unidades vendidas, do recuo de 1,3% no número de pessoas visitando as lojas. Essas retrações foram contrabalançadas parcialmente pelo aumento de 6,2% nos preços cobrados por unidade.
Já nos supermercados, a queda do fluxo de consumidores nas lojas foi bem menor, de apenas 0,3% no ano passado e o volume de unidades vendidas recuou 1,2%. O preço por unidade aumentou 6,3%, desempenho similar ao dos atacarejos.
Na disputa pelo consumidor, foram surgindo vários tipos de atacarejo que se distanciaram do modelo raiz. Isto é, lojas grandes, distantes do centro das cidades, com custo do aluguel barato, pequena oferta serviços e baixa participação de perecíveis no mix de produtos.
Nos últimos dez anos, apareceram atacarejos dentro dos centros urbanos, com mais perecíveis no sortimento e também oferta de serviços, como açougue, fatiamento de frios, por exemplo.
Com isso, essas lojas estão caminhando para ficarem muito parecidas com os hipermercados. “Esse tipo atacarejo não é melhor nem pior, mas é um bicho diferente: ele custa mais e por isso tem que cobrar mais caro”, diz Terra.
Para Escudeiro, da ESPM, o atacarejo está se aproximando de uma encruzilhada. Ao agregar serviços, encarece custos e acaba repassando esse diferencial para os preços ao consumidor. Assim, fica parecido com os supermercados.
O grande atrativo do atacarejo sempre foi o preço, mas há redes que começam a incluir nesse modelo de loja a experiência do cliente. “Do cliente que tem dinheiro”, diz Escudeiro. Ele pondera que a maior parte da população é das classes C, D e E, que têm renda mensal abaixo de R$ 4 mil.
Na avaliação de Terra, não existe um esgotamento do atacarejo, mas um “amadurecimento”. Isso significa, segundo o consultor, que daqui para frente o mercado não deve assistir a um movimento acelerado de expansão dos atacarejos. “Não há um esgotamento do formato, há uma quantidade de lojas nesse formato que hoje parece ser suficiente”, diz o consultor. A tendência, daqui para frente, é que ocorram muitas fusões no varejo alimentar, como um todo, com destaque para o atacarejo, prevê.