Empresários de Manaus mantêm otimismo anual, mas inflação, juros e cenário externo ampliam cautela.
O otimismo dos comerciantes de Manaus arrefeceu pelo segundo mês consecutivo em abril. Medidos pela CNC, os dados locais do Icec (Índice de Confiança do Empresário do Comércio) mostram retrocesso frente a março, em sintonia com a média nacional do setor e os impactos econômicos da guerra no Oriente Médio. O humor dos lojistas, contudo, ainda avançou no comparativo anual. Em síntese, a percepção sobre a economia, o setor e a empresa pioraram, assim como a satisfação com os estoques. O ceticismo também contamina as expectativas, freando investimentos, em detrimento das contratações de pessoal.
Manaus marcou 117,1 pontos de confiança em fevereiro, dado 1% inferior ao de março (118,3pontos). No índice da Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo, valores acima de 100 pontos indicam satisfação. O decréscimo foi puxado apenas pelas empresas com até 50 funcionários (-1,1%) e principalmente pelas que vende bens semiduráveis (-2,8%). Na comparação com abril do ano passado (113,2 pontos), no entanto, a confiança dos comerciantes locais avançou 3,5%. Na média brasileira (105,6 pontos), o Icec regrediu 1% na variação mensal, interrompendo cinco meses de altas. Mas, cresceu 2,9% diante da marca de 12 meses atrás (102,8 pontos).
O retrocesso do Icec local ocorre em um contexto fôlego recuperado para as compras do consumidor. O ICF (Intenção de Consumo das Famílias), também da CNC, sinaliza que o manauara ficou mais satisfeito com a renda e seguro com o emprego e já encontra menos dificuldades de acesso ao crédito, embora as expectativas não tenham melhorado. Medida pela mesma entidade, a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor) apontou estabilidade no número de famílias de Manaus embarreiradas por contas a pagar (87,7% do total, ou 621.316 delas) e retração na quantidade de negativadas (48,7% ou 345.405).
Contratações e investimentos
Oito dos nove componentes do indicador regrediram diante de março, e dois ainda estão no patamar de insatisfação. As quedas vieram principalmente dos subíndices relativos às condições atuais da economia (-3,3%) e às expectativas em relação às empresas comerciais (-3%). Outros recuos significativos vieram das condições presentes do comércio (1,9%) e do próprio negócio (-1,2%); das perspectivas para a economia (-1,8%) e para o setor (-1,7%); e da situação atual dos estoques (-1,1%). Já o nível de investimento das empresas (-0,1%) estabilizou, com viés negativo. A única melhora veio da contratação de funcionários (+4,7%), em sintonia com os preparativos para o Dia das Mães.
A queda mensal reforçou o fato de que o subíndice das Condições Atuais da Economia (75,4 pontos) ainda é o de mais baixa pontuação da lista do Icec manauara. A soma das avaliações que apontam que a situação “piorou muito” (32%) e “piorou um pouco” (31,1%) ainda supera com folga o somatório de comerciantes que garantem que “melhorou um pouco” (27,8%) e “melhorou muito” (9,1%). Em paralelo, as visões predominantes para a situação presente do comércio (94,2 pontos) e da empresa (123,5 pontos) ainda são de melhora moderada (34,9% e 44,7%, respectivamente).
A despeito do desempenho negativo em parte das expectativas, a sondagem ainda reforça um panorama consideravelmente melhor para um futuro sempre adiado. Os percentuais de comerciantes de Manaus que esperam que a economia brasileira (125,6 pontos) “melhore muito” (33,8%) ou pelo menos “um pouco” (33,4%) seguem predominantes e distantes dos grupos que esperam “muita” (16,8%) ou “pouca” (16%) piora. As projeções que pesam mais para o setor (145,1 pontos) e para os próprios negócios (156 pontos) também são de progressos mais significativos (47,6% e 50,6%, respectivamente).
O progresso medido no subindicador de contratações de funcionários (125,5 pontos) aumentou o passo, mas a maioria dos lojistas reafirma que seus quadros devem “aumentar um pouco” (42,7%). O entendimento predominante sobre o investimento (108,6 pontos) também é de que será “um pouco maior” (36%). Apesar do recuo, a percepção sobre os estoques (100 pontos) se segurou no nível de satisfação. Em torno de 63,3% consideram que a oferta está “adequada”; 18,3% dizem que está acima do ideal (em virtude de vendas baixas); e uma fatia idêntica de 18,3% aponta que está abaixo do desejável (em função de baixo capital de giro).
Petróleo, inflação, juros
Em comunicado à imprensa, a CNC informa que o otimismo do empresariado derreteu em meio aos impactos das tensões entre EUA e Irã na cotação do petróleo, inflação e juros. “O comércio brasileiro tem demonstrado uma resiliência notável, sustentada pela força do mercado de trabalho e pela recuperação da renda real. Contudo, o momento exige cautela e serenidade. O aumento da incerteza externa e as pressões inflacionárias globais demandam um ambiente interno de previsibilidade e estabilidade”, ponderou o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.
De acordo com a economista da CNC, Catarina Carneiro, a maior insegurança quanto ao cenário econômico futuro refletiu diretamente na queda da intenção de investimentos do Icec nacional. “Decisões que envolvem custos rígidos, como a ampliação do quadro de pessoal, tendem a ser postergadas em momentos de incerteza”, destacou, acrescentando que, além do cenário externo, o contexto de ano eleitoral contribui para uma postura mais defensiva dos tomadores de decisão.
Já o economista da Fecomercio-AM, Max Cohen, salientou à reportagem que o Icec local confirma um cenário de “confiança ainda elevada” em Manaus, embora acompanhado de “moderação crescente” no curto prazo. “O momento recomenda foco em eficiência operacional, disciplina financeira e priorização de investimentos com maior retorno e previsibilidade. Estratégias de expansão devem ser conduzidas com cautela, mantendo equilíbrio entre crescimento, preservação de caixa e controle de riscos, sobretudo diante de um ambiente macroeconômico nacional ainda percebido como restritivo e sujeito a volatilidade”, encerrou.
Fonte : https://jcam.com.br/noticias/confianca-do-comercio-recua-2