A presença de conselhos consultivos nas empresas familiares brasileiras tem crescido de forma consistente, impulsionada pela busca por profissionalização e pelo aumento da oferta de programas de formação de conselheiros. No entanto, apesar da expansão, especialistas alertam que a simples criação dessas estruturas ainda está longe de garantir mudanças efetivas na gestão.
Parte do mercado sustenta que conselhos consultivos não profissionalizam empresas automaticamente. A avaliação é que, na prática, muitos desses fóruns acabam funcionando mais como espaços de troca de ideias do que como instâncias capazes de influenciar decisões estratégicas.
Para o consultor Marcus Vinícius Baptista, que atua diretamente com empresas familiares, essa análise é válida, mas incompleta. “Dizer que o conselho não profissionaliza pode ser correto, mas é uma visão limitada. O ponto central é que ele não garante, por si só, a profissionalização − embora seja um passo relevante dentro de um processo mais amplo de evolução”, afirma.
Estrutura não basta
Um dos principais equívocos, segundo Baptista, é confundir a criação de estruturas com transformação organizacional. “A profissionalização não acontece porque você instituiu um conselho. Ela depende de fatores como qualidade das decisões, clareza de papéis, processos bem definidos e disciplina de governança”, explica.
Esse desalinhamento ajuda a entender por que muitos conselhos têm atuação restrita. Sem autonomia real e sem um processo decisório estruturado, o órgão perde relevância e tende a ficar subordinado à figura do fundador ou da família controladora.
“O conselho precisa operar no nível estratégico, olhando para o futuro do negócio. Quando se envolve excessivamente nas urgências operacionais, isso indica que a empresa ainda não avançou em sua maturidade de gestão”, diz.
Entre avanço e simbolismo
O crescimento dos conselhos consultivos revela uma dualidade: ao mesmo tempo em que indica evolução nas práticas de governança, também expõe um movimento simbólico em parte das empresas.
Há casos em que o conselho é criado mais como instrumento de imagem ou validação institucional do que como mecanismo efetivo de decisão. “Existe o risco de se montar um conselho apenas para sinalizar modernização. Nesses casos, ele não influencia o rumo da empresa e se torna um espaço de conversa sem consequência prática”, afirma Baptista.
Entre os sinais de fragilidade estão a falta de independência dos conselheiros, ausência de agenda estratégica, reuniões sem encaminhamentos concretos e concentração de poder nas mãos do fundador. “Sem impacto real nas decisões, o conselho vira um ‘board de fachada’”, resume.
Função estratégica e mudança cultural
Para cumprir seu papel, o conselho consultivo precisa estar inserido em um contexto mais amplo de governança. Isso envolve regras claras, processos estruturados e, sobretudo, abertura genuína da liderança para o contraditório.
“O conselho consultivo não existe para controlar o executivo ou discutir operação. Sua função é provocar reflexão estratégica, apoiar decisões relevantes e orientar o futuro da empresa”, afirma Baptista.
Quando bem estruturado, o impacto vai além da gestão e alcança a cultura organizacional. “Um dos principais ganhos é a transição de um ambiente baseado em controle para um ambiente de confiança. O conselho atua como uma bússola, não como um fiscal.”
Os desafios invisíveis
Apesar do foco frequente em estruturas, Baptista destaca que os maiores obstáculos estão no fator humano − especialmente em empresas familiares.
Questões como sucessão, conflitos entre gerações, expectativas do fundador e até a solidão da liderança influenciam diretamente a efetividade do conselho. “Na prática, o que leva um empresário a buscar um conselho vai muito além da profissionalização. Existem dores profundas envolvidas, como insegurança na sucessão e dificuldades em decisões críticas”, afirma.
Caminho para a perenidade
Quando bem implementado, o conselho consultivo pode se tornar um instrumento decisivo para a longevidade do negócio. Para isso, alguns pilares são indispensáveis: conselheiros bem formados, preparados, experientes e independentes, agenda estratégica consistente e, principalmente, disposição real da liderança em ouvir diferentes perspectivas.
“O conselho é parte de um sistema maior. Ele só funciona quando há compromisso genuíno com a evolução da empresa e com a construção de uma governança madura”, conclui Baptista.
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Thais Abrahão – Presstalk Comunicação
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