Os resultados do 1° trimestre de 2026 das grandes redes de supermercados listadas na B3 mostram um setor ainda pressionado pela fragilidade do consumo das famílias brasileiras, especialmente as de baixa renda, em um cenário marcado por juros elevados, alto endividamento e inflação mais moderada dos alimentos.
Na leitura de analistas de grandes bancos, como BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), Itaú BBA, Safra e Santander, os balanços de Grupo Mateus, Assaí Atacadista e GPA revelam uma combinação desafiadora. As instituições apontam desaceleração nas vendas em mesmas lojas, dificuldade para repassar custos, pressão sobre margens e necessidade crescente de ganho de eficiência operacional.
O diagnóstico mais abrangente veio do BTG, que afirmou em relatório recente que o varejo alimentar permaneceu “sob pressão” de janeiro a março deste ano, em um ambiente particularmente deflacionário nas principais categorias de produtos básicos, como arroz, leite, açúcar e feijão.
Segundo o banco, apesar de a demanda seguir relativamente resiliente, as empresas têm encontrado dificuldade para converter volume em crescimento nominal robusto e expansão de lucratividade.
“O cenário atual reforça a dificuldade que os varejistas do setor alimentício enfrentam para transformar uma demanda relativamente resiliente em um crescimento nominal mais robusto e em uma expansão da lucratividade, especialmente enquanto a inflação dos alimentos permanecer moderada”, afirmaram os analistas do banco.
“Assim, a visibilidade quanto a uma aceleração significativa nas tendências operacionais continua relativamente limitada e ainda depende fortemente de melhorias no poder de compra dos consumidores e de uma normalização da dinâmica da inflação”, complementaram.
O banco também destacou que o elevado endividamento das famílias e o poder de compra ainda restrito continuam pressionando o consumo das classes mais baixas, enquanto a intensidade promocional e o enfraquecimento do tráfego de clientes seguem afetando diferentes formatos do varejo alimentar. Esse ambiente aparece de forma clara nos números reportados pelas companhias.
Grupo Mateus: receita cresce, mas vendas nas mesmas lojas despencam
Nos primeiros três meses do ano, o Grupo Mateus registrou lucro líquido de R$ 212,9 milhões no primeiro trimestre, o representa uma queda de 21,8% em relação ao mesmo período de 2025.
A companhia atribuiu o desempenho à desalavancagem operacional decorrente da desaceleração do crescimento da receita e ao pior resultado financeiro na comparação anual. Parte da pressão foi compensada por um efeito tributário positivo de R$ 28,5 milhões relacionado a benefício fiscal de subvenção para investimento.
A receita líquida cresceu 12,9%, para R$ 9,4 bilhões, impulsionada principalmente pela consolidação do Novo Atacarejo, pela expansão das vendas do atacado B2B, o chamado business to business, de empresa para empresa, e pelo aumento das vendas de eletrodomésticos.
Apesar disso, o principal sinal de deterioração operacional apareceu nas vendas em mesmas lojas (SSS), que caíram 7,3% no trimestre. A companhia afirmou no balanço que o indicador foi impactado pela deflação de alimentos, especialmente commodities com quedas mais acentuadas de preços, pelo maior nível de endividamento das famílias e pela mudança no perfil da cesta de consumo da população.
O custo das mercadorias vendidas cresceu 11,9%, para R$ 7,25 bilhões, enquanto as despesas operacionais totais, excluindo depreciação e amortização, avançaram 26,9%, para R$ 1,61 bilhão. A piora foi puxada principalmente pelas despesas com vendas, que cresceram 27,9%, chegando a R$ 1,49 bilhão.
Com isso, o o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, o Ebitda, caiu 7,3%, para R$ 543 milhões, e a margem Ebitda recuou de 7% para 5,8%. O resultado financeiro líquido ficou negativo em R$ 222,1 milhões, piora de 22,6% em um ano.
Apesar da deterioração operacional, a companhia apresentou melhora relevante na geração de caixa e na alavancagem. A dívida líquida caiu para R$ 735,9 milhões, redução de R$ 323,5 milhões frente ao fim de 2025, enquanto a alavancagem encerrou o trimestre em 0,33 vez.
Para o Itaú BBA, o trimestre foi “fraco”, com Ebitda 13% abaixo das estimativas do banco e receita 7% abaixo do esperado. O banco chamou atenção para o fato de a companhia ter deixado de divulgar o SSS por segmento, o que, segundo os analistas, prejudicou a percepção dos investidores.
“O menor crescimento da receita gera inevitavelmente revisões para baixo; precisamos ver uma recuperação neste ponto”, afirmou o Itaú BBA. O banco destacou ainda que o Nordeste parece enfrentar uma pressão de consumo mais intensa, citando o desempenho de outras companhias expostas à região.
Na avaliação do Itaú, sem retomada da receita, a empresa terá dificuldade para melhorar o restante da demonstração de resultados, mantendo pressão sobre a alavancagem operacional.
O BTG também avaliou o trimestre do Grupo Mateus como difícil. O banco destacou que a companhia continua priorizando rentabilidade em detrimento do volume, especialmente no canal “Balcão”, voltado a clientes B2B de maior porte. Essa estratégia, na avaliação da instituição financeira, ajudou a preservar a margem bruta, que subiu 70 pontos-base, para 22,9%, beneficiada por negociações com fornecedores e iniciativas de otimização comercial.
Por outro lado,as despesas operacionais cresceram 29,3%, bem acima da receita, refletindo a integração da Novo Atacarejo, expansão de lojas e investimentos em novas iniciativas de negócios, como Spazio e Mateus Food.
O BTG também destacou que as operações mais recentes da Novo Atacarejo seguem com rentabilidade fraca, registrando margem Ebitda de apenas 2,2% e prejuízo líquido no trimestre.
Ainda assim, o banco reconheceu melhora importante no capital de giro e na conversão de caixa. O ciclo de conversão de caixa caiu 16 dias em um ano, para 40 dias, enquanto o capex recuou 11,7%, refletindo uma postura mais disciplinada de alocação de capital em meio aos juros elevados.
Para os analistas, porém, o sentimento dos investidores deve permanecer cauteloso no curto prazo. “Precisamos entender melhor quanto dessa superação no capital de giro é sustentável e quanto é resultado natural de um crescimento mais fraco da receita no curto prazo”, disse o Itaú.
“A GMAT continua enfrentando desafios importantes em relação à receita, o que reforça nossa percepção de que a região Nordeste está sob maior pressão de consumo (como evidenciado por outras empresas, como a Natura). Sem o crescimento da receita, fica difícil controlar o restante do P&L, o que gera pressão sobre a alavancagem operacional. A situação financeira parece continuar desafiadora e o desempenho abaixo do esperado no 1º trimestre deve provocar novas revisões para baixo nos lucros, pressionando as ações”, acrescentou o banco.
Assaí: pressão no consumo reduz vendas e derruba lucro
O Assaí reportou lucro líquido de R$ 86 milhões no primeiro trimestre, queda de 46,7% na comparação anual. Considerando novos créditos de PIS/Cofins, o lucro teria sido de R$ 367 milhões. A receita líquida somou R$ 18,64 bilhões entre janeiro e março, praticamente estável frente ao mesmo período de 2025. O Ebitda ajustado, que exclui despesas e receitas pontuais ou não recorrentes, ficou em R$ 1,025 bilhão, também praticamente estável.
Os números vieram abaixo das expectativas do mercado. Analistas consultados pela LSEG esperavam Ebitda de R$ 1,39 bilhão e receita líquida de R$ 18,95 bilhões. As vendas em mesmas lojas caíram 0,9%, impactadas pela deflação de alimentos.
No balanço, o Assaí afirmou que o trimestre foi marcado por “deflação na alimentação básica” e pelo “patamar recorde de endividamento das famílias”, agravado pela alta taxa de juros. A companhia também destacou impactos indiretos da guerra no Oriente Médio, que elevaram custos de embalagens, produtos de limpeza e fretes.
As despesas com vendas, gerais e administrativas cresceram 2,7%, para R$ 2,1 bilhões. Ainda assim, a empresa afirmou que o crescimento ficou abaixo da inflação do período. O Assaí encerrou o trimestre com alavancagem financeira de 2,52 vezes, abaixo das 3,15 vezes registradas em março de 2025.
Na visão do BTG, a companhia voltou a apresentar tendências operacionais fracas.
“A Assaí mais uma vez registrou tendências operacionais fracas, com o SSS (vendas nas mesmas lojas) caindo 0,9% em relação ao ano anterior, prejudicada por uma deflação significativa nos preços de produtos como arroz, leite, açúcar e feijão, o que distorceu o crescimento nominal apesar do tráfego e dos volumes relativamente estáveis”, disse o banco.
Segundo os analistas, a dinâmica do consumo entre consumidores de baixa renda continua pressionada pelo elevado endividamento e pela restrição do poder de compra.
O Safra também revisou para baixo suas projeções para o Assaí. O banco reduziu a expectativa de crescimento do SSS para 1,5% em 2026, ante 2,1% anteriormente. Para o Safra, o cenário macroeconômico mais difícil, a concorrência e a menor renda disponível devem continuar impedindo que o crescimento das vendas acompanhe a inflação dos alimentos.
O banco, porém, elevou suas projeções de margem Ebitda, citando melhora na margem bruta e cortes em despesas administrativas. Mesmo assim, manteve recomendação neutra para as ações da companhia.
“Acreditamos que ela está sendo negociada a uma valorização exigente (P/L de 13x para 2026 e de 9x para 2027 em comparação com sua média histórica de 16x e nosso múltiplo implícito de 9x em nosso preço-alvo), com potencial de alta limitado de 16%”, afirmou o banco.
GPA: receita fraca, mas margens surpreendem
O GPA apresentou o balanço mais pressionado entre as grandes redes. A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 1,44 bilhão no primeiro trimestre, muito acima da perda de R$ 169 milhões registrada um ano antes. Segundo a empresa, o resultado foi impactado por efeitos não recorrentes e sem efeito caixa que somaram R$ 1,01 bilhão.
Entre os impactos estão baixa de software por obsolescência, impairment de lojas, baixa de fundo de comércio e reconhecimento de perdas tributárias no exterior. Desconsiderando esses efeitos, o prejuízo ajustado teria sido de R$ 333 milhões, ainda acima das perdas do ano anterior.
A receita líquida caiu 8,2%, para R$ 4,37 bilhões, enquanto as vendas totais recuaram 5,2%, para R$ 4,8 bilhões. Segundo o GPA, parte da queda reflete a decisão de priorizar canais mais rentáveis, incluindo a descontinuação do formato Aliados, voltado a pequenos comércios, além da menor prioridade dada a plataformas de e-commerce de terceiros.
Apesar da retração nas vendas, o custo das mercadorias vendidas caiu 12%, para R$ 3,02 bilhões, permitindo avanço de 1,3% no lucro bruto, para R$ 1,33 bilhão. As despesas com vendas, gerais e administrativas recuaram 3,5%, para R$ 917 milhões. Com isso, o Ebitda cresceu 12%, para R$ 458 milhões.
O resultado financeiro líquido ficou negativo em R$ 381 milhões, piora de 19,8%, pressionado pelos juros elevados. Ao fim de março, a dívida líquida era de R$ 3,2 bilhões, com alavancagem de 3,5 vezes.
Para o Santander, os resultados foram “mistos: receita fraca, mas margens significativamente melhores”, apontaram os analistas. O banco destacou que o SSS ajustado pelo calendário ficou em apenas 0,6%, abaixo das expectativas, refletindo consumo mais fraco e deflação em itens básicos.
Por outro lado, a margem bruta atingiu 30,4%, maior nível em vários anos, impulsionada pela saída de canais menos rentáveis, crescimento das receitas de retail media e redução de custos logísticos e perdas operacionais.
Segundo o Santander, os ganhos de eficiência somaram R$ 99 milhões no trimestre, equivalentes a quase um quarto da meta anual da companhia. Ainda assim, o banco ressaltou que as despesas financeiras seguem pressionando fortemente o resultado líquido, em meio à Selic elevada e aos custos relacionados ao processo de recuperação extrajudicial.
“O resultado líquido ficou abaixo do esperado devido às despesas financeiras, e o FCF piorou em relação ao ano anterior, apesar da melhora operacional. O prejuízo líquido ajustado ampliou-se de R$ 93 milhões no 1T25 para R$ 333 milhões, à medida que as despesas financeiras líquidas subiram para R$ 382 milhões após a implementação da IFRS 16, refletindo os custos mais elevados da Selic e relacionados a garantias”, disse o Santander.
“O processo de recuperação extrajudicial levou a uma deterioração de 7 dias no prazo de pagamento a fornecedores, piorando o FCF em cerca de R$ 95 milhões em relação ao ano anterior, apesar do crescimento do EBITDA e do corte de capex. A dívida líquida ficou em R$ 3,2 bilhões (3,5x o EBITDA pré-IFRS), embora o plano de recuperação extrajudicial, se homologado, reduzisse a dívida bruta em cerca de R$ 2,4 bilhões e levasse a alavancagem para 0,9x”, acrescentou.
Mesmo assim, o banco avalia que, caso o plano de recuperação extrajudicial seja homologado, a dívida bruta poderia cair cerca de R$ 2,4 bilhões, reduzindo a alavancagem para 0,9 vez.