Consumo mais seletivo desafia varejo alimentar e amplia diferenças entre empresas

Destaques

de Daniela Bretthauer

Dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) mostram que o consumo de alimentos no Brasil, importante indicador para o desempenho do varejo alimentar, apresentou crescimento real, ou seja, deflacionado pelo IPCA, da ordem de 2,5% no primeiro semestre do ano. Todavia, a pesquisa aponta para uma desaceleração na taxa de crescimento do segundo trimestre em relação ao primeiro. Enquanto o crescimento do faturamento no primeiro trimestre foi da ordem de 3,5%, o segundo terminou com uma taxa de crescimento de 1,9% em junho, o que demonstra um consumidor mais seletivo, atento a promoções e às oscilações de preços.

Dados divulgados pelo IBGE mostram um desempenho parecido entre os dois trimestres do ano em relação aos volumes comercializados pelos hipermercados, com alta de 1,3% no primeiro semestre de 2026. Do ponto de vista qualitativo, pesquisa divulgada pela NielsenIQ para o mesmo período sugere que cerca de 70% das categorias analisadas apresentaram retração de volume no 1T26 em relação ao 1T25. Além disso, 66% dos consumidores buscaram alternativas de marcas mais baratas, movimento conhecido como “downtrading”, e enquanto 60% das categorias recorrentes na cesta de compras perderam frequência de compra. Ou seja, os consumidores estão comprando menos, comparando mais e substituindo produtos por opções mais baratas.

Essas fontes sugerem que o mercado de varejo alimentar no Estado de São Paulo segue bastante competitivo, enquanto a região Nordeste apresentou um cenário macroeconômico mais desafiador em comparação com a região Sudeste, em grande parte devido à taxa de desemprego mais elevada que a do restante do País. Esse cenário ajuda a explicar a maior queda no volume de vendas registrada na região em comparação com a média do restante do País.

Os estudos mostram, ainda, que o atacarejo foi um dos formatos mais pressionados, encerrando o primeiro semestre com faturamento praticamente estável e queda de 2,5% nas unidades vendidas. Mesmo com o início dos jogos da Copa do Mundo no mês de junho, as comemorações das festas juninas e as datas comemorativas do Dia das Mães e do Dia dos Namorados no segundo trimestre, o fluxo de clientes e os volumes vendidos foram negativos no período.

Quando ajustados os efeitos de calendário e da Copa, tanto Assaí quanto GPA apresentaram desempenho nas vendas mesmas lojas (SSS) da ordem de 0,9% positivo no 2T26, enquanto o Grupo Mateus apresentou uma queda de 8% para este mesmo indicador em igual período. Dessa forma, podemos inferir que o crescimento da receita líquida de 12,2% apresentado pelo Grupo Mateus não refletiu a força da sua marca junto ao consumidor nordestino e/ou produtividade das lojas atuais, mas foi fruto principalmente da consolidação da operação do Novo Atacarejo, além da política de expansão de lojas e de outros negócios.

Segundo nossa análise utilizando a metodologia de earnings momentum, que leva em conta o desempenho das vendas líquidas, das margens bruta e operacional e do lucro líquido trimestral, Assaí apresentou o melhor desempenho entre as três empresas, com um earnings momentum positivo. Destacam-se a alta de cerca de 94% no lucro líquido e a resiliência de margens operacionais, com uma evolução na sua estratégia de desalavancagem financeira.

O resultado do GPA pode ser classificado de neutro para negativo. Reconhecemos que a companhia encontra-se ainda em processo de turnaround de resultados, com um top line fraco e com uma importante melhora na rentabilidade confirmada pela evolução das suas margens bruta e de EBITDA. Esse avanço, porém, ainda foi insuficiente para proporcionar uma melhora no lucro líquido.

Este é o segundo trimestre no qual GPA apresenta expansão de margens desde que entrou com pedido de recuperação extrajudicial. Já o Grupo Mateus apresentou um earnings momentum negativo com tendência de desaceleração, com queda de margens e do lucro líquido. Ou seja, uma parte da performance das empresas do varejo alimentar foi influenciada pelo cenário macroeconômico e efeitos calendário, mas a estratégia e a capacidade de execução de cada uma das empresas foram diferenciais no trimestre analisado.

Fonte : https://mercadoeconsumo.com.br/17/08/2026/mc-capital/consumo-mais-seletivo-desafia-varejo-alimentar-e-amplia-diferencas-entre-empresas/?utm_medium=email&utm_campaign=news_geral_-_1708&utm_source=RD+Station

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