Contas públicas pioram, mas inflação e atividade econômica dão sinais de alívio

Economia

Apesar da deterioração fiscal e juros ainda elevados, empresários e especialistas que avaliam a conjuntura na ACSP apontam resiliência do mercado de trabalho, avanço do e-commerce e possível retomada da atividade no terceiro trimestre.

O segundo semestre começa com um cenário deterioração das contas públicas, em contraste com sinais de alívio na inflação e de resiliência, ainda que moderada, da atividade econômica. O diagnóstico é dos empresários e economistas do Comitê de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que participaram da reunião de agosto para analisar os indicadores mais recentes da economia brasileira.

A pedido da ACSP, os nomes dos participantes não são divulgados.

A maior preocupação do colegiado reside na área fiscal. Os dados analisados apontam que o déficit primário acumulado em 12 meses, até junho de 2026, subiu para -1,2% do PIB, piorando em relação ao índice anterior de -1,1%. O déficit nominal saltou de -9,6% para -10,0%, o que ajudou a impulsionar a dívida bruta do governo geral para 81,9% do PIB.

Inflação desacelera, mas juros continuam elevados

Por outro lado, o cenário monetário trouxe algum alívio. O IPCA acumulado em 12 meses até julho desacelerou para 4,44%, enquanto a prévia de agosto (IPCA-15) recuou para 4,24%, mantendo-se abaixo do limite superior da meta, que é de 4,50%. Esse recuo permitiu que o Banco Central reduzisse a taxa Selic para 14% em sua última reunião de agosto, embora a autoridade monetária não tenha sinalizado os próximos passos da política de juros.

No setor externo, a balança comercial registrou superávit de US$ 81,4 bilhões no acumulado de 12 meses até julho, impulsionada por US$ 370,4 bilhões em exportações e US$ 289,0 bilhões em importações. Apesar do déficit de 2,49% do PIB nas contas correntes, a entrada de Investimentos Diretos no País (IDP) somou 3,5%, cobrindo o saldo negativo externo. O Comitê, contudo, alertou para a necessidade de cautela global em razão dos conflitos no Oriente Médio e da imposição de novas tarifas internacionais de até 37,5%.

Agronegócio enfrenta incertezas

Os depoimentos setoriais no Comitê revelam realidades distintas na economia brasileira. No agronegócio, o clima é de forte incerteza no início do período de plantio. Produtores enfrentam margens estreitas, fretes elevados e escassez de fertilizantes.

No setor sucroalcooleiro, o subsídio à gasolina pressiona os preços do etanol, e o cenário macro do setor é agravado pela recuperação judicial de sua maior empresa. Diante de juros elevados e da queda na compra de máquinas, os representantes do agro presentes à reunião projetam que, embora a área plantada deva se manter estável, a redução no uso de insumos pode derrubar a produtividade da próxima safra.

Em contrapartida, o e-commerce segue em forte expansão, com projeção de crescimento de 10% no ano, movimentando R$ 258 bilhões. Os dados da Cielo apontam que as vendas do Dia dos Pais no e-commerce saltaram 12,1% (contra 6,6% do varejo físico).

As expectativas para as próximas datas comemorativas são positivas. Para o Dia das Crianças, a previsão é de alta de 8,4%; na Black Friday, que cresce a cada ano, o tíquete médio estimado é de R$ 808, alta de 3,3. Já a expectativa de movimento no Natal é de R$ 29,6 bilhões, alta de 13%.

Desempenho industrial e importações

Na indústria em geral, a produção avançou 1,5% no primeiro semestre, sustentada quase integralmente pela indústria extrativa (+7,4%), enquanto a de transformação registrou um crescimento baixo (0,4%). No acumulado dos últimos 12 meses encerrados em junho, a produção industrial mostrou alta de 0,7% (1,7% na base anual de junho, beneficiada por um dia útil a mais). A perda de tração nos investimentos preocupa: a venda de máquinas recuou 13,8% (dados da Abimaq) e os Bens de Capital (BK) caíram 5%.

No segmento de Bens Duráveis, o mercado de automóveis acelerou 16%, impulsionado por grandes volumes de importação. Contudo, o transporte pesado amarga perdas, com queda de 12% em caminhões e 9% em ônibus. No varejo tradicional, o fechamento de junho apresentou alta anual de 2,9% (1,6% no acumulado de 12 meses), mostrando que indústria e comércio ganharam ritmo em relação a maio. O setor de serviços também expandiu 2,0% em base anual (2,6% em 12 meses).

A concorrência externa afeta os setores têxtil e de calçados. Com o fim da isenção tributária para compras internacionais de menor valor (popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”), as importações têxteis dispararam 52%. Paralelamente, barreiras tarifárias nos EUA fizeram com que, pela primeira vez, as importações brasileiras de calçados superassem as exportações, alertaram empresários do setor.

O paradoxo da política monetária e as eleições

No setor financeiro, o destaque positivo fica por conta do avanço das cooperativas de crédito, que já respondem por 13% do total de empréstimos do sistema, além de balanços favoráveis no segundo trimestre. De forma geral, as operações de crédito do sistema financeiro em junho registraram alta nominal anual de 9,7%. O crédito para pessoas físicas cresceu 11,7%, o imobiliário subiu 13,7% e o financiamento de veículos avançou 10,6%.

O crédito para a grande indústria acelerou para 7,4%. No entanto, a rápida bancarização e o amplo acesso ao crédito elevaram as Provisões para Devedores Duvidosos (PDD), acendendo o alerta para a inadimplência.

A eficácia da política monetária também divide opiniões. Integrantes do comitê avaliam que os juros altos perdem eficiência porque a política fiscal atua no sentido oposto, estimulando a demanda. Há o entendimento de que, se um ajuste fiscal rígido for implementado em 2027, o PIB poderá sofrer retração técnica.

O cenário macroeconômico sofre impactos, ainda, pela incerteza política das próximas eleições, que apresentam dois candidatos tecnicamente empatados, onde detalhes devem definir o pleito. A avaliação é de que promessas de superávit fiscal de 1,5% do PIB são de difícil execução, e que o debate real sobre o orçamento só ocorrerá após as urnas, abrindo espaço para novas lideranças.

Essa incerteza já se reflete nos índices de sentimento: o Índice Nacional de Confiança (INC) da ACSP caiu para 96 pontos em julho (campo pessimista), e a confiança da indústria pela CNI recuou para 44,4 pontos, permanecendo abaixo da linha dos 50 pontos há 19 meses.

Em contrapartida, o mercado de trabalho mostra resiliência moderada: a taxa de desemprego caiu para 5,3%, a massa de rendimentos subiu 4,1% e a ocupação cresceu 0,9% no trimestre encerrado em julho, segundo a PNAD do IBGE.

Projeções: inteligência artificial prevê inflexão no 3º trimestre

Apesar dos riscos fiscais, o comitê mantém um viés de resiliência fundado no tripé histórico que recuperou o país nas últimas décadas: agro, extrativismo e e-commerce. Atualmente, o Brasil pega “carona” no crescimento global, mitigando a desaceleração da China através da diversificação de mercados como Índia, Indonésia, Paquistão e Vietnã. Para o curtíssimo prazo, o modelo econométrico do IEGV/ACSP, que já utiliza a IA com a mediana de 8 modelos de preditivos, aponta para uma virada de tendência.

Após a desaceleração vista no varejo até o segundo trimestre, o modelo prevê uma inflexão com alta de 2,1% no terceiro trimestre de 2026. O Produto Interno Bruto (PIB) deve acompanhar o movimento e acelerar levemente para 2,1% no mesmo período, impulsionado por estímulos fiscais, expansão do crédito e crescimento da massa salarial.


*Dados: Relatório do Comitê de Avaliação de Conjuntura – Instituto de Economia Gastão Vidigal/ACSP 

Fonte : https://dcomercio.com.br/publicacao/s/contas-publicas-pioram-mas-inflacao-e-atividade-economica-dao-sinais-de-alivio

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