Diversidade não é onda e sim agenda civilizatória

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A Conferência Ethos é um dos principais eventos brasileiros sobre Responsabilidade Social Empresarial, Sustentabilidade e ASG (Ambiental, Social e Governança), realizado pelo Instituto Ethos. A edição 2025, que aconteceu nos dias 13 e 14 de agosto, em São Paulo, reuniu líderes empresariais, especialistas, representantes do governo e da sociedade civil para debater e construir um futuro mais justo e responsável, com foco em temas como desenvolvimento sustentável, equidade, diversidade, inclusão e transparência.

A diversidade foi tema do painel “Pesquisa Ethos/Época de Diversidade, Equidade e Inclusão – Resistência em Tempos de Retrocesso: Resultados, Desafios e Perspectivas”. Um dos especialistas convidados foi Reinaldo Bulgarelli, secretário e executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, que reforçou ser necessário insistir e falar sempre de diversidade.

“Sabemos que movimentos conservadores elegem alguns inimigos e nesse contexto a comunidade LGBTI+ é um alvo sempre. Por isso é importante estar aqui, reconhecendo as empresas que estão trabalhando e muito para fazer a diferença na valorização, promoção e gestão da diversidade, e todas as demais, que se mantêm articuladas em torno dessa ideia”, afirmou.

Para ele, como o quesito diversidade sexual e de gênero ainda não está presente na legislação brasileira, é um motivo a mais para seguir adiante na defesa desse público. “Nós do meio empresarial precisamos contribuir com o estado brasileiro para que assuma esse item como relevante nas questões de relações de trabalho. Muita gente diz que isso seria para ‘proteger’ as pessoas LGBTI+, o que é um equívoco. Estamos sob ataque, então o silêncio não nos ajuda, a visibilidade sim, mesmo que tenhamos que falar sobre isso todos os dias, porque é necessário enfrentar a discriminação”, reiterou.

Por fim, Bulgarelli destacou que as empresas reconhecidas naquele momento por suas ações de diversidade não haviam começado ontem. “Elas têm anos de dedicação a isso, com persistência, e colhem os frutos, em alguns casos, do trabalho feito por gerações”, completou.

A pesquisadora Winnie Santos, coordenadora de projetos no Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), compartilhou o que pesquisas mostram sob a perspectiva racial. “Considerando todo o histórico de desigualdades, a população negra ficou numa condição mais vulnerável, realizando os trabalhos mais precarizados, informais e menos reconhecidos por muito tempo. Hoje já percebemos avanços para essa inclusão, mas a mudança de cultura é um enorme desafio”, avaliou.

“As políticas afirmativas de acesso à educação, por exemplo, beneficiaram muito as pessoas negras para que tivessem a possibilidade de competir de forma igualitária no mercado de trabalho. Entretanto, um desafio ainda é que possam acessar também as melhores posições, pois mesmo capacitadas e habilitadas, isso não reflete na abertura de oportunidades”, analisou a pesquisadora.

Já a questão de gênero sofre de outro “mal”, segundo Margareth Goldenberg, gestora-executiva do Movimento Mulheres 360. “Por ter sido uma das primeiras pautas de inclusão a entrar em discussão nas organizações, muitas fazem uma leitura equivocada do cenário. A grande entrada de mulheres no mercado dá a impressão de que a questão está resolvida, mas em que cargos e em que áreas elas estão?”, questionou a especialista.

“As respostas a essas perguntas mostram que as mulheres ainda estão concentradas em cargos de entrada até gerência e diretoria, onde somos maioria, em torno de 55%, mas acima na jornada profissional, em cargos de presidência, conselheiras ou CEOs, esse número vai baixando e formando um funil”, afirma. “E ainda há o aspecto da idade, da cor, da sexualidade, da maternidade, e tudo o mais que vai reduzindo a possibilidade de igualdade”.

“Há avanços em gênero, em alguns pontos, mas há ainda persiste a desigualdade salarial, em torno de 20%, e o peso exagerado sob a nossa responsabilidade, não somente de filhos, mas o cuidado que engloba tudo, pais, irmãos, pets. A sociedade exige de nós o comportamento do cuidado, que é cultural e vem dos estereótipos”, explicou. “E essa atitude do cuidado também se repete nas empresas, em ações que muitas vezes não são intencionais, mas têm impacto. É comum que as mulheres organizem as festas de final de ano e aniversário, escrevam atas, sirvam café para o cliente”, exemplificou Margareth.

“E se não bastasse ainda existe a questão da violência, com taxas assustadoras de feminicídio, violência doméstica aumentando a cada ano, um verdadeiro iceberg de violência que se desdobra para o ambiente de trabalho. Tanto que cresce também o número de ações trabalhistas relacionadas a racismo, assédio sexual e moral e homofobia, em torno de 30% desde 2023, de um ano para o outro no Brasil. Então, além de cuidar da carreira, a mulher também tem a missão de sobreviver a tudo isso, com o risco de ser discriminada e muitas vezes ameaçada no ambiente de trabalho”, analisou.

Para Margareth, uma forma de dar visibilidade a essa pauta nas empresas é despolarizá-la. O objetivo é não “assustar” profissionais em posições de liderança que não estão em grupos menorizados, homens brancos e heteros que estão com a caneta na mão, aprovam orçamentos, iniciativas e códigos de ética. “Inclusão e pertencimento é sobre todos. Então, cuidado com a polarização, de ‘que todo homem é machista e todo branco é racista’, pois isso acaba gerando paralisia, silêncio e medo, não aprendizado. É uma postura que cria guetos dentro das organizações, quando a conversa tem de ser muito mais ampla para avançarmos”, orientou. “Esse é um aprendizado, de que temos de dar a todos e todas segurança emocional, justiça e equidade, independentemente de qualquer marcador social”, completou.

A igualdade de oportunidades também passa pela questão da inclusão de pessoas com deficiência, cuja qualidade e velocidade refletem muito a eficiência da Lei de Cotas, que fez 34 anos, afirma Djalma Scartezini, CEO da Rede Empresarial de Inclusão Social (REIS). “A deficiência é uma característica e no mundo corporativo, muitas vezes, entregamos o nosso intelecto ao trabalho, não o nosso físico. Temos de celebrar talentos, competências técnicas e comportamentais, não o que falta”, afirmou.

“Estamos avançando, mas muito devagar, pois somente nos últimos 10 anos a lei começou a ser mais fiscalizada. Ficamos anos sem concurso para Auditor Fiscal do Trabalho e abriram agora mais de 3 mil vagas. Não são pessoas que querem apenas multar, mas sobretudo orientar. Hoje temos, segundo a RAIS, cerca de 500 mil pessoas com deficiência contratadas, porém é um número que não evolui ao longo dos últimos dez anos, e está estagnado”, avaliou.

“Muitas dessas pessoas estão em cargos de entrada. Só conheço uma pessoa com deficiência, além de mim, que chegou a CEO. A explicação para isso, em parte, é que o lugar onde você nasce determina o lugar que você vai chegar, mesmo com esforço. Não podemos falar de direitos humanos como se fosse uma sala separada na empresa. É uma construção de cultura o tempo inteiro, a forma como contrata, como se cumprimenta e como promove e celebra o avanço das pessoas e inclusive como demite. Muitas empresas fazem festa para contratar a pessoa e a demite por e-mail”, comparou.

“É importante estar em um evento como esse porque isso tem que estar conectado com o objetivo de negócio. A construção dessa visão do business tem de ser para todos. A capa que vestimos não importa, o que importa é o que realizamos”, explicou Scartezini. “Outro ponto que merece atenção é a tentativa de flexibilizar a Lei de Cotas, o que é perigoso. Quem já cumpre, acelere, não precisa frear, vá adiante e supere a meta. Troque estratégias com outras empresas, para juntos chegarmos nesse objetivo”, concluiu o executivo.

Clique aqui e conheça os principais resultados da Pesquisa Ethos/Época de Diversidade, Equidade e Inclusão 2025, que mapeou práticas em mais de 200 empresas.

Fonte : Thaís Abrahão – Presstalk Comunicação

AGO/25

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