Emprego cresce em São Paulo, mas retenção de trabalhadores desafia comércio e serviços

Estudo do Sincovaga-SP aponta desaceleração na geração líquida de vagas no comércio e redução do tempo médio de permanência nos serviços. Entidade defende negociação coletiva, qualificação e medidas para ampliar a contratação formal.

O mercado de trabalho formal no comércio e nos serviços do Estado de São Paulo enfrenta um desafio que vai além da abertura de vagas: transformar as contratações em vínculos duradouros. É o que aponta o estudo econômico Empregabilidade em crise?, elaborado pelo Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de São Paulo (Sincovaga-SP), com base em dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e da FecomercioSP.

Segundo o levantamento, os dois setores reuniam 10,78 milhões de vínculos formais em julho de 2026. Entre janeiro e julho daquele ano, o saldo conjunto foi positivo em 179 mil empregos. Apesar da expansão do estoque de trabalhadores, os indicadores apontam desaceleração na geração líquida de postos e dificuldades crescentes de retenção, especialmente nos serviços.

Nesse segmento, o saldo de empregos chegou a 186.166 vagas entre janeiro e julho de 2026. Paralelamente, o tempo médio de permanência dos trabalhadores diminuiu 6,3 meses entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2026. No mesmo intervalo, as admissões aumentaram 80%, evidenciando um cenário em que a entrada de novos profissionais não se traduz necessariamente em relações de trabalho mais estáveis.

A rotatividade tem impactos diretos sobre as empresas, que precisam investir continuamente em recrutamento, integração e treinamento. A substituição frequente de equipes também pode comprometer a produtividade e dificultar a organização das operações.

Comércio registra saldo negativo em 2026

No comércio paulista, os dados de janeiro a julho de 2026 indicam um quadro de ajuste. No período, foram registradas 1,050 milhão de admissões e 1,057 milhão de desligamentos, resultando em saldo negativo de 7.013 postos de trabalho.

A comparação entre os anos também mostra uma redução na geração líquida de empregos. Em 2021, a cada 100 admissões no comércio, eram gerados 12,4 postos líquidos. Em 2025, esse número caiu para 3,4 e, entre janeiro e julho de 2026, chegou a -0,7.

Nos serviços, o indicador passou de 11,7 postos líquidos a cada 100 admissões, em 2021, para 3,9 em 2025. Entre janeiro e julho de 2026, houve recuperação para 6,5.

Os números devem ser interpretados considerando os diferentes recortes temporais: os resultados de 2021 e 2025 correspondem aos respectivos anos, enquanto os de 2026 abrangem somente os sete primeiros meses. Portanto, a comparação não representa períodos equivalentes.

O estoque de vínculos formais, por sua vez, cresceu entre 2021 e 2025: 11,7% no comércio e 15,1% nos serviços. Em julho de 2026, os dados parciais indicavam a continuidade da expansão do estoque, embora a geração líquida de empregos apresentasse comportamentos distintos entre os setores.

Jornada, custos e segurança jurídica entre os entraves

Na análise do Sincovaga-SP, as dificuldades de contratação e retenção estão relacionadas, entre outros fatores, à necessidade de conciliar as regras trabalhistas com a diversidade das operações do comércio e dos serviços.

Horários estendidos, trabalho noturno, funcionamento aos fins de semana e variações sazonais da demanda exigem organização específica das jornadas e escalas. Ao mesmo tempo, encargos e obrigações trabalhistas podem tornar a contratação adicional mais difícil, sobretudo para micro e pequenas empresas, que dispõem de menor capacidade para absorver custos fixos e reorganizar equipes.

O estudo também destaca a segurança jurídica como fator relevante. Dúvidas sobre as modalidades de contratação e o cumprimento das regras podem aumentar o risco percebido pelos empregadores e dificultar decisões de expansão dos quadros de funcionários.

A proposta apresentada é preservar a proteção do emprego formal e, simultaneamente, ampliar a capacidade de contratação, com instrumentos que considerem as características de cada atividade econômica e o porte das empresas.

Negociação coletiva e qualificação entre as propostas

Para enfrentar os desafios identificados, o material reúne seis frentes de atuação: negociação coletiva, inclusão, qualificação, retenção, simplificação e monitoramento dos indicadores do mercado de trabalho.

A negociação coletiva ocupa posição central na proposta, com a possibilidade de estabelecer escalas, bancos de horas e jornadas adaptadas à realidade de cada setor, respeitando os instrumentos legais aplicáveis. O estudo também defende que mudanças mais amplas nas relações de trabalho ocorram de maneira gradual e responsável, de modo a preservar contratos e acordos existentes e evitar aumentos abruptos de custos.

Outro ponto é a produtividade. Segundo a análise apresentada, reduções de jornada sem ganhos correspondentes de produtividade podem pressionar preços, margens empresariais, emprego e informalidade. Por isso, o material recomenda que eventuais mudanças sejam acompanhadas de medidas capazes de melhorar a eficiência das operações.

A qualificação profissional também aparece como prioridade, com cursos de curta duração orientados às necessidades das empresas e desenvolvidos em conjunto com entidades setoriais. Para estimular a permanência dos trabalhadores, são apontadas medidas como maior previsibilidade das escalas, melhoria da liderança, benefícios e oportunidades de progressão profissional.

O estudo ainda propõe avaliar incentivos temporários e mecanismos de transição de benefícios para favorecer a formalização de trabalhadores que hoje estão fora do mercado formal, além de simplificar procedimentos e adequar exigências ao porte dos negócios.

Monitoramento para orientar decisões

A criação de um painel recorrente de indicadores é outra recomendação do levantamento. A proposta é acompanhar não apenas o estoque e o saldo de empregos, mas também o tempo de permanência, a disponibilidade de vagas e as dificuldades de contratação.

A iniciativa permitiria observar com maior precisão a evolução do mercado e identificar os fatores que dificultam a transformação de oportunidades de trabalho em relações estáveis.

A conclusão do estudo é que São Paulo continua gerando empregos, mas enfrenta obstáculos para converter admissões em vínculos duradouros. Para o comércio e os serviços, superar esse cenário exige combinar negociação coletiva, transição responsável, qualificação alinhada à demanda e estratégias de retenção, considerando as particularidades das atividades econômicas e a realidade das empresas de diferentes portes.

Fonte: Estudo econômico “Empregabilidade em crise?”, do Sincovaga-SP, com dados do Novo Caged, da RAIS e da FecomercioSP. Extração em 15 de setembro de 2026. Os dados de estoque de 2026 e os saldos de admissões e desligamentos referem-se a janeiro a julho; a evolução do tempo médio de permanência e das admissões nos serviços considera fevereiro de 2021 a fevereiro de 2026.

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