Transição demográfica amplia oportunidades para Comércio e Serviços e demanda estratégias mais segmentadas, acessíveis e integração entre canais físicos e digitais
O envelhecimento da população deve alterar a cesta de consumo das famílias, trazendo novas oportunidades aos setores do Comércio e Serviços. É o que revela um estudo produzido pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017–2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com estimativas da Federação, o número de famílias chefiadas por pessoas com 60 anos ou mais vai passar de 23,5% da população, na década de 2020, para mais de 50% da população, em 2060, de 7,3 milhões para 23 milhões, respectivamente. Essa mudança terá repercussões sobre o mercado de trabalho, a formação da renda, os sistemas de Saúde e Previdência e as decisões de consumo.
“Para o Comércio e os Serviços, a questão central não é apenas quantas pessoas terão 60 anos ou mais, mas quem decidirá a compra, como a renda será formada e quais as necessidades e dificuldades influenciarão o consumo, analisa Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP. “Essa transformação precisa ser incorporada ao planejamento das empresas, desde a escolha dos produtos até a organização do atendimento.”
Mudanças na composição do consumo
O estudo da FecomercioSP sinaliza que os efeitos da transição demográfica serão diferentes entre as categorias de consumo. O exercício utiliza a estrutura de despesas da POF e mantém constantes os padrões de gasto por faixa etária da pessoa responsável pela família, ajustando a quantidade de famílias conforme a evolução populacional projetada.
Nesse cenário, entre 2020 e 2060, as despesas com planos e serviços de saúde apresentam expansão proporcionalmente superior (190%) à do consumo total (108%), enquanto os gastos com educação avançam em ritmo menor (44%). Habitação, por sua vez, deverá registrar aumento em torno de 130%.
A diferença entre as categorias de consumo reforça a importância de avaliar como a transição demográfica pode reorganizar o orçamento familiar. A transformação também abre espaço para adaptação residencial, serviços de cuidado, mobilidade, alimentação e lazer. A conversão dessas necessidades em consumo efetivo dependerá da renda disponível, das condições de saúde e do acesso a produtos e serviços.
Além disso, nem todas as mudanças de consumo podem ser explicadas apenas pela idade do responsável pelo domicílio. Lares chefiados por pessoas idosas podem reunir diferentes gerações — com necessidades e decisões de compra compartilhadas — e influenciadas pelos contextos cultural e tecnológico da geração a que pertencem.
Segundo Kelly, essa adaptação das empresas para atendimento a esse novo perfil de consumo deve seguir algumas etapas. Em primeiro lugar, é preciso entender quanto o negócio está exposto às mudanças no perfil etário da população. Assim, será possível segmentar clientes por necessidades e capacidade de consumo, bem como mapear jornadas, testar soluções em uma escala controlada e expandir apenas aquelas iniciativas que apresentem resultados mensuráveis.
“Esse processo reduz o risco de criar produtos estigmatizados, realizar investimentos sem demanda comprovada ou replicar práticas de outros setores sem validação”, explica.
A economia prateada é diversa
A economia prateada reúne consumidores de 60 anos ou mais, os quais apresentam diferenças relevantes de renda, escolaridade, território, composição familiar, patrimônio, saúde e autonomia. Essas características influenciam a capacidade de consumo e as prioridades de compra.
“Geração e idade são referências úteis, mas insuficientes para explicar decisões de consumo. A segmentação deve considerar também as condições de vida, as preferências e as necessidades dos clientes”, observa Kelly.
Os hábitos também refletem mudanças culturais e tecnológicas. “O comportamento dos idosos de hoje não deve ser reproduzido automaticamente nas projeções sobre os consumidores de amanhã. As empresas precisarão acompanhar essa evolução e atualizar as estratégias com base no relacionamento com os clientes”, explica.
Os negócios devem avaliar a própria exposição à mudança no perfil etário, segmentar o público por necessidades e capacidade de consumo e testar soluções antes de ampliar os investimentos. “Esse processo reduz o risco de criar produtos estigmatizados ou investir sem demanda comprovada”, alerta.
Oportunidades para diferentes setores
Na saúde, surgem possibilidades relacionadas à prevenção, ao acompanhamento e aos cuidados domiciliares. Em finanças e seguros, há espaço para soluções de planejamento financeiro e proteção, com informações claras e adaptação às condições de cada cliente.
Turismo, lazer e cultura podem desenvolver experiências acessíveis e opções de viagens com diferentes formatos. Na moradia, reformas e adaptações favorecem segurança, monitoramento assistido e autonomia. Alimentação e varejo podem explorar conveniência, embalagens de fácil manuseio e porções adequadas à composição dos domicílios.
Na educação, as oportunidades incluem aprendizagem ao longo da vida, inclusão digital e atualização profissional, abrindo oportunidades para as pessoas que também queiram voltar ao mercado de trabalho ou abrir o próprio negócio.
Para a assessora econômica, a adaptação empresarial vai além de campanhas publicitárias. “É preciso identificar as necessidades dos clientes, testar soluções e medir os resultados. Esse processo reduz o risco de investir em produtos sem demanda comprovada ou em abordagens que reforcem estereótipos sobre o envelhecimento”, explica.
Digital amplia possibilidades, mas exige atenção
A integração entre canais físicos e digitais será importante para atender consumidores com diferentes graus de familiaridade tecnológica. Segundo o Módulo de Tecnologia de Informação e Comunicação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua TIC), a internet estava presente em 95% dos domicílios brasileiros em 2025, enquanto sua utilização alcançava 74,5% das pessoas com 60 anos ou mais.
Outro levantamento, a pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros, TIC Domicílios 2025, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (Cetic.br/NIC.br), aponta que, entre os usuários de internet dessa faixa etária, 81% acessavam a rede pelo celular sem utilizar computador. O resultado reforça a importância de sites e aplicativos com boa leitura em telas pequenas, comandos claros e etapas simples de compra.
A conectividade, entretanto, não elimina diferenças na capacidade de uso nem garante que o consumidor consiga concluir uma transação. Cadastros extensos, informações pouco claras, dificuldades para recuperar senhas e ausência de suporte podem resultar em abandono.
O avanço dos canais digitais fortalece a importância de um atendimento humano acessível, especialmente para esclarecer dúvidas e resolver problemas com compras mais complexas. As empresas devem combinar conveniência digital com escuta, informações claras e respeito à autonomia do cliente. A continuidade entre loja, site, aplicativo e telefone também evita que o consumidor precise reiniciar a sua solicitação a cada contato. “No ambiente digital, acompanhar o abandono em cada etapa da compra ajuda a identificar onde simplificar a jornada ou oferecer suporte”, orienta Kelly.
Segurança e transparência também fazem parte dessa experiência. Identificar os canais oficiais, orientar sobre prevenção a fraudes e apresentar claramente preços, reajustes, cancelamento e condições de contratação contribui para a confiança, sobretudo em crédito, seguros, assinaturas e serviços continuados.
Adaptação gradual nas MPEs
Micro e Pequenas Empresas (MPEs) podem iniciar essa trajetória com medidas graduais e de baixo custo, como melhorar a legibilidade de etiquetas e materiais, organizar a circulação no estabelecimento, simplificar a compra online e capacitar a equipe para atender a diferentes necessidades.
A escolha das ações deve partir da realidade dos clientes e da capacidade de investimento do negócio. Definir responsáveis, metas e indicadores ajuda a priorizar adaptações com impacto comercial e acompanhar o seu retorno.
“O envelhecimento da população exige planejamento, mas a adaptação pode começar com melhorias simples. Ouvir os clientes e resolver dificuldades do dia a dia é o primeiro passo para construir uma oferta mais adequada e ampliar oportunidades de negócio”, conclui a assessora.