Mudanças devem ser pensadas para criar mais empregos, sem redução de salário e com mais tempo para lazer e descanso
O fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho estiveram em pauta na Fundacentro. O debate, realizado na sede da instituição em São Paulo/SP, trouxe pesquisadores, representantes de Centrais Sindicais e do Congresso Nacional. Uma das questões levantadas é que essas mudanças devem ocorrer sem redução salarial nem intensificação do trabalho.
Na avaliação de Pedro Tourinho, presidente da Fundacentro, há contextos degradantes, e a escala 6×1 impacta diretamente a vida das pessoas. Para ele, o evento permite traçar caminhos para superar esse desenho de organização do trabalho que coloca os trabalhadores em situação de risco, violação e insegurança.
“Falar da extensão da jornada de trabalho como um determinante importante do risco de acidentalidade, do adoecimento dos trabalhadores, é assegurar que nós estamos cumprindo a nossa missão”, afirma Tourinho. O evento mostra a conexão da instituição com a necessidade que se apresenta nas ruas e na expressão das pessoas, além do “diálogo permanente com as representações laborais, patronais, para melhorar, de fato, as condições de trabalho em todo o país”.
O presidente participou da mesa de abertura com os diretores Remígio Todeschini, de Conhecimento e Tecnologia, e José Cloves da Silva, de Pesquisa Aplicada, representantes das Centrais Sindicais e do deputado federal Vicente Paula da Silva (Vicentinho).
Olhar sindical
Para a secretária nacional de Saúde do Trabalhador da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Josivânia Souza, a escala 6×1 é exaustiva, especialmente para as mulheres, ao não permitir vida social e cuidado com a saúde. Também se luta pela redução da jornada de trabalho, em um cenário de intensificação e precariedade. Os trabalhadores convivem com longas jornadas, acúmulo de funções e desrespeito ao limite físico e psicológico. Com a reforma trabalhista, houve a flexibilização da contratação.
Membro da Diretoria Executiva da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), Márcio Ayer, destaca que os trabalhadores do comércio, da construção civil e do telemarketing são os que mais estão submetidos a esse tipo de escala, além disso, muitas vezes, as 44 horas semanais de jornada são ultrapassadas.
O secretário geral da UGT (União Geral dos Trabalhadores), Canindé Pegado, recorda que o Brasil teve apenas uma redução de jornada de trabalho, indo das 48 horas estabelecidas na década de 1930 para 44 horas com a promulgação da Constituição Federal de 1988.
“Já faz 37 anos que a gente não tem uma alteração sequer nessa questão da jornada de trabalho, e tudo mudou. As novas formas de trabalho estão alteradas. A jornada de trabalho tem que ser direito humano”, reflete Pegato. Ele defende a garantia de descanso ao trabalhador e a geração de empregos por meio da redução de jornada, citando experiências internacionais, como da Espanha.
Para o secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Juruna, é importante que o debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada seja colocado nas convenções coletivas, além do debate no Parlamento.
Já o secretário de Política Sindical da Intersindical, Ribamar Passos, critica o desmonte da legislação trabalhista e os prejuízos trazidos pela reforma trabalhista. Ele destaca que a precarização do trabalho tem atingido os jovens, e os trabalhadores submetidos a escala 6×1 estão entre os mais precarizados.
Movimentação social
O deputado Vicentinho falou sobre a tramitação de projetos voltados para o tema no Congresso Nacional e das dificuldades para aprovação frente à composição do Legislativo. “Como deputado da classe trabalhadora, a gente sempre vê o caminho mais difícil, mas nunca perde a esperança. Caminhos difíceis, que nós vamos superar”, afirma.
Vicentinho contou a história de mobilização sindical para a mudança da jornada de 48h para 44h em 1988, em que buscaram apoio de parlamentares de diferentes correntes, além do histórico de greves com foco na redução. A luta e a mobilização social são fundamentais para as mudanças legislativas.
Atualmente o debate sobre o fim da escala 6×1 ganha força com o movimento Vida Além da Trabalho (VAT). A pesquisadora da Fundacentro (aposentada), Leda Leal, destaca a importância dessa ação, que nasceu nas redes sociais a partir de um vídeo de Rick Azevedo. Ele trabalhava em uma farmácia na escala 6×1 e atualmente é vereador no Rio de Janeiro. “Vida Além do Trabalho é um nome muito poderoso porque faz uma defesa da vida sem negar a importância do trabalho”, afirma. Almeja-se, assim, que o trabalho não invada a totalidade da vida.
Na avaliação da pesquisadora, a maioria desses trabalhadores é jovem e atua principalmente no comércio e na prestação de serviços. “Muitos cumprem regimes ainda piores e trabalham dez, doze dias seguidos por um único dia de descanso”, aponta. “O VAT foi se organizando e rapidamente se tornou nacional, com milhares de seguidores que trocavam as suas experiências e assim passavam a se sentir menos isolados e deprimidos, acolhidos e esperançosos”, relata.
O movimento organizou uma petição pública contra a escala 6×1, que pedia ao Congresso Nacional uma alternativa de trabalho mais digna. Nesse contexto, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 8/2025 foi apresentada pela deputada federal Érica Hilton na Câmara e propõe: “duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e trinta e seis horas semanais, com jornada de trabalho de quatro dias por semana”. Outra proposta, a PEC 221/2019 do deputado federal Reginaldo Lopes, coloca: “duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e trinta e seis semanais”.
“Não é preciso ser médico ou psicólogo para saber que quanto menor é o tempo de trabalho, menor é a fadiga e o risco desse trabalho causar prejuízos à saúde”, defende a médica Leda. No entanto, é preciso estar atento para que a redução da jornada não provoque uma intensificação do trabalho. Isso poderia acabar com os benefícios para a saúde e segurança dos trabalhadores.
Em sua avaliação, os trabalhadores são os protagonistas dessa luta, e os técnicos, além de apoiá-la e se reconhecerem como parte dela, já que também trabalham, deveriam “priorizar a escuta dos trabalhadores e ajudar a montar um enorme quebra-cabeças sobre a influência dos tempos de trabalho, durações, horários e ritmos nas nossas vidas”.
“Um quebra-cabeças com peças nacionais e internacionais, oriundos de várias instituições e de várias disciplinas, com dados históricos e geográficos, estatísticos e de relato de casos, com experiências exitosas ou fracassadas, que ficaria à disposição de todos e poderia subsidiar propostas de mudança nos tempos de trabalho e de não trabalho”, conclui a médica.
A importância da mobilização social e a necessidade de pesquisa também estiveram na apresentação do diretor Remígio Todeschini. Ele falou sobre a pressão pela redução da jornada na Revolução Industrial, as mobilizações do século XX e o papel das greves nos diferentes períodos.
Também apresentou como o tema jornada de trabalho aparece em projetos da instituição. São pesquisas voltadas para trabalho em turnos e noturnos e outras para categorias de trabalhadores, por exemplo, docentes – com sobrecarga de trabalho e jornadas extensas que são fatores de adoecimento – e trabalhadores de aplicativos – precarização do trabalho sem proteção social com jornadas excessivas de até 18h.
Estudos
O professor da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), Ildeberto Muniz de Almeida abordou o fim da escala 6×1 e a acidentalidade no trabalho. Para tanto, apresentou diferentes estudos que mostram os impactos de jornadas extensas, passando por jovens trabalhadores de aplicativos brasileiros até o reconhecimento de doenças ocupacionais atribuídas a cargas de trabalho pesadas, a partir de casos do Japão, da Coreia e de Taiwan.
“Os principais fatores psicossociais de risco identificados na literatura incluem jornadas de trabalho excessivas, longa duração, trabalhos pesados, baixo controle sobre as tarefas, tarefas rotineiras e repetitivas, conflitos interpessoais, recompensas inadequadas, insegurança no empenho, problemas organizacionais”, aponta Almeida.
Já a diretora técnica do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Adriana Marcolino, traçou os impactos econômicos e sociais do fim da escala 6×1. Considerando-se todos os trabalhadores, inclusive os subocupados, o Brasil apresenta uma média de 40 horas semanais de jornada. No entanto, muitos enfrentam jornada de trabalho superior a 48h por semana.
Outro aspecto abordado pela socióloga do Dieese foi a diminuição dos níveis de regulação de jornadas de trabalho e de proteção com reformas trabalhistas em cerca de 100 diferentes países após a crise econômica de 2008. No Brasil, aprovada em 2017, a reforma trabalhista foi marcada pela flexibilização, intensificação e precarização do trabalho.
“É fundamental que consigamos estabelecer um novo regramento em relação à jornada de trabalho, tanto no que diz respeito a sua duração, reduzindo a jornada de trabalho, mas também a sua distribuição”, recomenda Marcolino. Ela também ressaltou os impactos do trabalho em diversas dimensões da vida, particularmente na saúde e segurança dos trabalhadores e trabalhadoras. “A OIT [Organização Internacional do Trabalho] divulgou um dado recentemente de como, nos últimos 20 anos, aumentou ao redor do mundo o número de mortes relacionadas a essas jornadas abusivas”, completa.
Repensar essa distribuição, com redução da jornada de trabalho, possibilitaria, em sua avaliação, melhorar a estrutura do mercado de trabalho brasileiro, a permanência das mulheres nele e a geração de empregos. Em relação à produtividade, a diretora técnica do Dieese destaca que é resultado de investimentos em tecnologia, infraestrutura e qualificação profissional, não apenas do fator trabalho, como muitas vezes é colocado.
O que ficou claro, a partir de todas as exposições, é que a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 passam pela mobilização social e por mudanças legislativas. Essa foi a tônica do debate final do evento, que contou com a participação de Vicentinho, Leda Leal, Adriana Marcolino, Ildeberto Muniz, Pedro Tourinho e Remígio Todeschini. O público presente participou do debate com perguntas e comentários.