Redes varejistas avaliam antecipar o fechamento das lojas e ampliar iniciativas de produtividade para compensar os impactos da redução da jornada de trabalho
A perspectiva de mudanças na jornada de trabalho com o fim da escala 6×1 já mobiliza o varejo alimentar. Uma das alternativas em discussão pelas redes supermercadistas é reduzir o horário de funcionamento das lojas, com a possibilidade de antecipar o fechamento para as 20h ou 21h a partir de 2027.
A avaliação foi apresentada por Belmiro Gomes, CEO do Assaí Atacadista, durante entrevista coletiva sobre os resultados da companhia no terceiro trimestre de 2026. Segundo o executivo, a tendência é que o comércio brasileiro passe a adotar horários mais próximos aos praticados em países que já operam com jornadas de trabalho no modelo 5×2.
Gomes destacou que as entidades representativas do varejo discutem a possibilidade de implementar ajustes nos horários de atendimento após a virada do ano. Para o executivo, o calendário de transição representa um desafio adicional, uma vez que as mudanças na jornada estão previstas para começar em dezembro, período de maior movimento do comércio em razão das festas de fim de ano.
Além da eventual redução do horário de funcionamento, o setor busca alternativas para elevar a produtividade e minimizar os custos decorrentes da reorganização das equipes. Entre as iniciativas defendidas pelo Assaí está a adoção de embalagens que também funcionem como expositores nas gôndolas, permitindo que os funcionários realizem a reposição de produtos de maneira mais rápida e eficiente.
Outra frente envolve a melhoria dos códigos de barras utilizados nos produtos. Segundo Gomes, códigos maiores e com melhor qualidade de impressão podem agilizar os processos de leitura nos caixas convencionais e de autoatendimento. Embora pareçam ajustes pontuais, os ganhos de tempo podem ser significativos quando considerados os bilhões de itens processados pelo setor.
O executivo também destacou a importância da ampliação dos sistemas de self-checkout como ferramenta para otimizar a operação e conter despesas.
Impactos distintos entre supermercados e atacarejos
Na avaliação do CEO do Assaí, embora o fim da escala 6×1 represente um desafio para todo o varejo, os efeitos tendem a ser diferentes entre os formatos de negócio. O atacarejo, por operar com uma estrutura de serviços mais enxuta, apresenta menor participação das despesas com pessoal em relação às vendas.
De acordo com estimativas do setor mencionadas por Gomes, os gastos com funcionários representam aproximadamente 5% das vendas no atacarejo, enquanto nos supermercados tradicionais essa proporção varia entre 10% e 12%.
Com isso, a companhia avalia que poderá absorver os custos de eventuais contratações adicionais por meio de ganhos de eficiência operacional, sem comprometer significativamente suas margens.
O debate sobre a reorganização das jornadas também coloca em evidência a necessidade de maior integração entre varejistas, fornecedores e indústria. Para o Assaí, a busca por produtividade deverá envolver toda a cadeia de abastecimento, com mudanças em processos, embalagens, logística e tecnologia.
O cenário indica que a adequação à nova jornada exigirá planejamento e revisão dos modelos operacionais do comércio de alimentos, setor que precisa conciliar a organização das escalas de trabalho, a eficiência dos custos e a manutenção do atendimento aos consumidores.