Governança: o próximo passo para crescer com bases sólidas

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Empresas familiares e redes regionais investem em processos, definição de responsabilidades e fóruns de decisão para profissionalizar a gestão e garantir longevidade

Em empresas familiares e redes regionais de supermercados, profissionalizar a gestão não significa abrir mão da identidade construída ao longo dos anos. Ao contrário: estabelecer processos, responsabilidades e fóruns de decisão pode ser fundamental para garantir crescimento, continuidade e longevidade ao negócio.

A governança corporativa ganha importância nesse cenário ao organizar a relação entre família, propriedade e gestão, criando regras mais claras para decisões estratégicas e reduzindo o risco de conflitos entre acionistas e gestores. No varejo, segmento no qual as margens são apertadas e a operação exige decisões rápidas, estruturas bem definidas também contribuem para maior controle e eficiência.

O movimento de profissionalização já pode ser percebido no mercado. Estudo elaborado pelo ACI Institute do Brasil em parceria com o Board Leadership Center Brasil, da KPMG, mostra que a proporção de empresas com comitês de auditoria no Brasil chegou a 90% em 2024, ante 88% em 2023. Entre as companhias do segmento Novo Mercado, todas possuem comitê de auditoria, enquanto em metade delas o coordenador do órgão é um conselheiro independente.

Os comitês têm entre suas atribuições a supervisão da qualidade e eficácia das demonstrações financeiras, dos controles internos, da gestão de riscos e do sistema de compliance. Suas responsabilidades também vêm incorporando temas como divulgação de informações climáticas, sustentabilidade, segurança cibernética, privacidade de dados e inteligência artificial generativa.

No setor supermercadista, dados mais recentes da 3ª edição do Guia ESG do Setor Supermercadista Brasileiro, elaborado pela ABRAS e KPMG, mostram que o tema continua avançando e sendo estruturado pelas empresas. Realizado em agosto de 2024, o levantamento contou com 120 empresas de diferentes portes e regiões do País, sendo 10% delas entre as 30 maiores empresas do setor segundo o Ranking ABRAS 2024. O estudo avaliou avanços e desafios nas práticas ambientais, sociais e de governança e classificou os temas analisados em diferentes níveis de maturidade.

A evolução indica que a governança vem deixando de ser tratada apenas como uma questão de controle para ganhar espaço na estratégia empresarial. Conselhos, comitês, indicadores, compliance e processos mais estruturados passam a apoiar decisões e contribuir para uma gestão mais profissional.

Cada rede, um modelo

Não existe uma única estrutura de governança aplicável a todas as empresas. Os modelos variam de acordo com o porte, a estrutura societária, o estágio de profissionalização e os objetivos de cada negócio.

Nas redes regionais familiares, por exemplo, a governança pode ser estruturada de forma a profissionalizar a gestão sem eliminar a identidade e os valores construídos pela família. É o caso do Grupo Koch, citado na matéria como referência nesse processo. A empresa equilibra as dimensões de família, gestão e propriedade por meio de conselho de acionistas, conselho de administração, conselho de família, acordo de acionistas e auditorias independentes.

Já grandes companhias podem adotar um modelo de governança corporativa tradicional, com conselho de administração estruturado para garantir transparência e responsabilidade. Há ainda modelos baseados em franquias e associativismo, nos quais a expansão ocorre com determinado grau de autonomia local. Entre os exemplos citados estão o GPA, no modelo corporativo, e Dia Supermercados e Rede Smart, nos modelos de franquia e associativismo.

No Flex Atacarejo, a implementação do programa de governança começou há quatro anos, pela organização dos rituais, documentos, acordos de acionistas, processos de decisão, números, relatórios e indicadores acompanhados pelos conselheiros. “Na sequência, a empresa aprimorou os controles de gestão e estruturou um orçamento colaborativo, baseado em orçamento base zero, envolvendo as gerências de operações antes da aprovação pelo conselho”, relata Antônio Furtado, conselheiro do Grupo.

Para Giancarlo Alcalai, professor de Governança Corporativa da ESPM, a profissionalização da gestão é um dos caminhos para fortalecer a tomada de decisão. “A profissionalização da gestão, com conselhos administrativos e ou consultivos mais diversificados e independentes, pode fortalecer a transparência e a tomada de decisões estratégicas”, afirma.

Na prática, governança não significa apenas criar um conselho. Envolve definir quem decide, quais são as responsabilidades de cada área, quais informações sustentam as decisões e como os resultados serão acompanhados. Para empresas familiares e redes regionais, esse processo pode ser especialmente importante em momentos de expansão, sucessão ou profissionalização.

Ao estruturar processos e responsabilidades, o supermercadista cria condições para separar questões familiares das decisões empresariais, reduzir riscos e preservar a cultura do negócio. A governança passa, assim, de uma estrutura de controle para uma ferramenta de gestão capaz de apoiar o crescimento e a longevidade da empresa.

Para Anderson Ozawa, CEO da Aozawa Consultoria, o avanço da governança no varejo está diretamente ligado à necessidade de criar estruturas capazes de lidar com riscos e aumentar o controle sobre a operação. “As empresas que estruturaram comitês de auditoria, implementaram processos de compliance e fortaleceram a governança em prevenção de perdas e controles internos conseguem lidar melhor com riscos sistêmicos, financeiros e operacionais”, finaliza.

Fonte : https://www.supervarejo.com.br/varejo/governanca-o-proximo-passo-para-crescer-com-bases-solidas

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