Cenário econômico e suas implicações para o consumo e o varejo
A boa notícia: inflação perdendo força
Em recentes conversas com clientes do setor de varejo, consumo e serviços, percebemos um otimismo moderado após a divulgação da inflação de outubro, que registrou alta de apenas 0,09%, o menor patamar para o mês nos últimos 27 anos e abaixo do esperado pelo mercado. Essa boa notícia daria espaço para aumento do poder de compra das famílias, favorecendo o consumo. De fato, em ambientes onde a inflação está sob controle, há uma correlação direta entre a inflação baixa e controlada e um aumento da confiança do consumidor, maior renda disponível e consequentemente o crescimento das vendas.
Entretanto, a queda isolada da inflação não significa que o ambiente de consumo esteja, de fato, mais favorável ao consumo.
A má notícia: economia com sinais de retração
Ao mesmo tempo em que comemoramos a inflação menor, novos indicadores macroeconômicos mostram uma limitação na atividade econômica e no consumo. O indicador IBC‑BR, conhecido por ser a prévia do PIB, registrou, em setembro, queda de 0,2% em relação a agosto, pior do que a expectativa que era de -0,1%. Além disso, o Banco Central do Brasil apontou que o terceiro trimestre de 2025 sofreu retração de -0,9% em relação ao segundo trimestre, o pior resultado dos últimos dois anos.
Dessa forma, a leitura que devemos fazer da queda da inflação em setembro não deve ser a de que as famílias ganharão automaticamente mais espaço para consumir, mas sim que o recuo no aumento dos preços vem principalmente do resultado já esperado da política monetária restritiva conduzida pelo Banco Central nos últimos trimestres. A elevação da taxa básica para o patamar de 15% teve justamente o objetivo de frear o ritmo da atividade econômica, reduzir pressões de demanda e ancorar as expectativas de inflação.
Esse movimento coloca o Brasil como segundo colocado no ranking de maior juro real do mundo, em torno de 9,51%, atrás apenas da Turquia, com 12,34%. E é importante reforçar que a taxa de 15% da Selic, estabelecida pelo Banco Central, é apenas a taxa base. Para as grandes empresas, o crédito já chega na casa de 20% a 30% ao ano; para pequenas e médias, aquelas que mais dependem de capital de giro e têm menor capacidade de negociação, as taxas são muito mais elevadas, isso quando o crédito, de fato, está disponível.
Outro ponto que precisa ser considerado é que os dados da inflação de outubro ainda não significam uma tendência sustentada. Será necessário acompanhar os próximos meses para entender se estamos diante de um ciclo mais consistente de inflação mais baixa ou se foi apenas um ponto fora da curva, influenciado pelo aperto monetário recente e por fatores específicos, como a forte queda no preço da energia registrada em outubro.
As consequências desse cenário de juros elevados e atividade fraca já estão visíveis. Mesmo com o menor desemprego da série histórica e com a maior massa salarial já registrada, a confiança do consumidor permanece em níveis muito baixos, enquanto a inadimplência em níveis recordes. Como consequência, os segmentos de consumo, varejo e serviços têm apresentado desempenho abaixo do esperado ao longo de 2025, com vendas mais fracas.
Impacto para o consumo e varejo
O atual cenário combina inflação em queda, crescimento fraco e juros em níveis elevados, uma equação que mantém o consumo contido e impõe desafios ao varejo e aos serviços. A inadimplência em patamar recorde também mostra que a maior parte das famílias brasileiras está com o seu orçamento totalmente comprometido – e já há falta, uma vez que as dívidas não estão sendo pagas.
As vendas de 2025 confirmam esse ambiente de retração, e esse cenário também acelera a compressão de margens e a necessidade de aumentar a eficiência operacional. Embora os gastos governamentais de 2025 e 2026 possam criar estímulos artificiais ao consumo, o mercado já antecipa uma possível ressaca em 2027, aumentando ainda mais a necessidade de eficiência nas operações.
Eduardo Yamashita é COO da Gouvêa Ecosystem.
Fonte : https://mercadoeconsumo.com.br/