Investimentos no varejo chegam a bilhões em logística, tecnologia e expansão física, mas, segundo Geldo Machado, o crédito caro e o endividamento ainda limitam compras de maior valor.
Os investimentos no varejo seguem bilionários mesmo com o consumidor adiando compras de maior valor. Empresas direcionam recursos para logística, tecnologia, crédito e expansão física enquanto juros elevados e endividamento ainda restringem a capacidade de compra das famílias.
O Mercado Livre prevê R$ 57 bilhões no Brasil em 2026. O iFood anunciou R$ 24 bilhões até março de 2027. Shopping centers seguem ampliando área comercial e renovando operações. O capital está entrando antes de uma recuperação uniforme do consumo.
Esse contraste ajuda a explicar uma das principais tensões do varejo brasileiro em 2026: as empresas ampliam capacidade e canais de venda enquanto parte da demanda continua limitada pelo custo do crédito.
Investimentos no varejo avançam em logística, tecnologia e lojas
Os aportes mostram que o investimento em varejo e plataformas ligadas ao consumo não está concentrado em uma única frente. Há dinheiro sendo destinado à infraestrutura, canais digitais, serviços financeiros e pontos físicos.
- Mercado Livre: R$ 57 bilhões no Brasil em 2026, 50% acima de 2025. O montante inclui custos e despesas operacionais e será direcionado principalmente à expansão logística, ao marketplace e à carteira de crédito do Mercado Pago.
- iFood: R$ 24 bilhões no ano fiscal de abril de 2026 a março de 2027, 41% acima do ciclo anterior. Mais de R$ 2 bilhões serão destinados a tecnologia e inovação, além da expansão em supermercados, farmácias, lojas, pet shops e serviços financeiros.
- Shopping centers: a Abrasce registra cinco empreendimentos inaugurados em 2026, somando 95.538 m² de ABL, além de dois previstos para setembro e novembro, com outros 57.405 m². As previsões estão sujeitas a alterações.
- Shopping Ibirapuera: o projeto de renovação já recebeu mais de R$ 120 milhões, com reformas internas, modernização da infraestrutura, nova fachada e atualização do mix comercial.
Os números não formam uma única série e não devem ser somados. Mercado Livre e iFood adotam períodos e critérios próprios, enquanto a Abrasce mede expansão física de shopping centers.
A lógica comum está na preparação para disputar demanda: ampliar capacidade, melhorar eficiência e abrir novos canais antes de uma recuperação mais homogênea do consumo. Isso não significa que todos os investimentos tenham a mesma motivação ou o mesmo retorno esperado.
Bilhões entram no varejo, mas consumidor ainda encontra crédito caro
É nesse ponto que aparece a principal barreira. O varejo restrito recuou 0,8% em julho frente a junho, enquanto o varejo ampliado avançou 0,4%. A diferença mostra que a perda de ritmo não atingiu todas as atividades da mesma forma.
Entre os segmentos mais sensíveis ao financiamento, móveis e eletrodomésticos caíram 4,9% em julho, a maior retração desde dezembro de 2023. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) relaciona esse desempenho ao custo do crédito e ao comprometimento do orçamento familiar.
Parte da queda também teve componente conjuntural. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atribuiu a retração de categorias como eletrodomésticos e vestuário à antecipação de compras antes da Copa do Mundo, que elevou a base de comparação de julho.
Mas a restrição não termina no calendário. Segundo a CNC, 82% das famílias brasileiras estão endividadas, recorde da série da entidade. Entre elas, uma média de 29,5% da renda está comprometida com o pagamento de dívidas.
Para Geldo Machado, presidente do Sinfac Nordeste, esse ambiente exige decisões comerciais mais precisas.
“Quando o fluxo cai e o crédito permanece caro, o varejista precisa ser mais preciso na oferta. O comportamento de agosto mostra que não existe uma recuperação homogênea: há regiões reagindo, enquanto outras seguem com consumo mais contido.”
Essa desigualdade também aparece no varejo físico. Em agosto, o fluxo nas lojas caiu 1,5% no Brasil frente ao mesmo mês de 2025, no terceiro recuo anual consecutivo. No Sul, porém, avançou 8,4% na mesma comparação.
A diferença regional reforça que a reação do setor ocorre em ritmos distintos e ajuda a explicar por que investimentos, fluxo de consumidores e vendas não avançam necessariamente na mesma velocidade.
O que pode destravar o consumo no varejo
A CNC projeta crescimento de 2,3% para o comércio em 2026. Um dos vetores favoráveis é a redução da inflação dos alimentos: a alimentação no domicílio caiu 1,14% em julho e 0,61% em agosto. Segundo a entidade, esse alívio pode devolver alguma capacidade de compra às famílias.
O teste agora está na conversão desse alívio em consumo. Com empresas ampliando capacidade e o fluxo ainda reagindo de forma diferente entre segmentos e regiões, o varejo chega aos próximos meses com capital disponível para crescer, mas sem garantia de que a demanda avançará no mesmo ritmo.
Fonte : Investimentos no varejo chegam a bilhões apesar do crédito caro – Economic News Brasil