No acumulado do ano, a inflação está em 3,44% e, nos 12 meses encerrados em julho, em 4,44%, abaixo dos 4,64% registrados até junho.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, subiu 0,07% em julho, segundo dados divulgados nesta terça-feira (11) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado representa uma desaceleração em relação a junho, quando a alta havia sido de 0,16%.
No acumulado de 2026, a inflação está em 3,44%. Já nos 12 meses encerrados em julho, a alta é de 4,44%, abaixo dos 4,64% registrados até junho.
- Com o resultado, a inflação acumulada em 12 meses permanece dentro do intervalo de tolerância da meta definida pelo Banco Central (BC). Desde 2025, o sistema de metas contínuas estabelece um objetivo de inflação de 3%, com intervalo de tolerância de 1,50% a 4,50%.
O grupo Habitação teve a maior alta em julho, de 0,99%, puxado principalmente pelo aumento da conta de luz. A energia elétrica residencial subiu 3,09% no mês, ante 1,53% em junho, e sozinha respondeu por 0,13 ponto percentual da inflação.
Já Alimentação e bebidas ajudou a segurar a inflação, com queda de 0,67%. Entre os demais grupos, os preços variaram de uma queda de 0,66% em Vestuário a uma alta de 0,40% em Saúde e cuidados pessoais.
Veja o resultado dos grupos do IPCA
- Alimentação e bebidas: -0,67%;
- Habitação: 0,99%;
- Artigos de residência: 0,07%;
- Vestuário: -0,66%;
- Transportes: 0,05%;
- Saúde e cuidados pessoais: 0,40%;
- Despesas pessoais: 0,22%;
- Educação: -0,03%;
- Comunicação: 0,04%.
Alimentos mais baratos ajudam a segurar inflação
Os preços de alimentos e bebidas caíram 0,67% em julho, principalmente por causa da redução de 1,14% nos alimentos comprados para consumo em casa. Entre os produtos que mais ficaram baratos estão:
- tomate (-29,09%),
- batata-inglesa (-19,59%),
- cenoura (-14,41%)
- café moído (-2,45%).
O tomate foi o produto que mais ajudou a reduzir a inflação no mês. Na outra ponta, o leite longa vida subiu 2,47% e as frutas ficaram 1,20% mais caras.
Já quem comeu fora de casa enfrentou uma alta maior nos preços. A alimentação fora do domicílio subiu 0,55% em julho, contra 0,15% em junho. O preço dos lanches aumentou 0,76%, enquanto o das refeições subiu 0,42%.
Entre as regiões pesquisadas pelo IBGE, Rio Branco teve a maior alta de preços em julho, de 0,32%, principalmente por causa do aumento das passagens aéreas e da energia elétrica.
Belém teve a maior queda, de 0,45%, influenciada principalmente pela redução dos preços da gasolina e do açaí.
Conta de luz pesa na inflação de julho
O grupo Habitação acelerou de uma alta de 0,63% em junho para 0,99% em julho, principalmente por causa do aumento da energia elétrica residencial, que passou de 1,53% para 3,09%.
A conta de luz foi o item que mais contribuiu individualmente para a inflação do mês, com impacto de 0,13 ponto percentual.
O resultado considera reajustes nas tarifas de energia em algumas cidades:
- Em São Paulo, uma das concessionárias aumentou as tarifas em 8,85%, a partir de 4 de julho;
- Em Porto Alegre, o reajuste foi de 14,89%, válido desde 19 de junho;
- Em Curitiba, de 19,55%, desde 24 de junho.
Além dos reajustes, a conta de luz continuou sendo influenciada pela bandeira tarifária amarela, que acrescenta R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos.
Ainda no grupo Habitação, a taxa de água e esgoto subiu 0,40%, refletindo reajustes aplicados em Salvador, Porto Alegre, Brasília e Rio Branco. Já o gás encanado ficou 0,04% mais barato, devido a uma redução média de 2% nas tarifas no Rio de Janeiro.
Plano de saúde e passagens aéreas ficam mais caros
O grupo Saúde e cuidados pessoais subiu 0,40% em julho, influenciado principalmente pelos produtos de higiene pessoal, que ficaram 0,64% mais caros. O destaque foi o perfume, com alta de 1,04%.
Os planos de saúde também subiram, 0,42%, refletindo os reajustes autorizados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
Já o grupo Transportes teve alta de 0,05%. As passagens aéreas subiram 11,67%, mas o resultado foi parcialmente compensado pela queda de 1,44% nos combustíveis.
O etanol recuou 2,26%, a gasolina caiu 1,37%, o diesel, 1,22%, e o gás veicular, 0,08%.
Economistas veem espaço limitado para novos cortes de juros
Apesar de estar dentro da meta do BC (4,50%), a inflação acumulada em 12 meses (4,44%) ainda está acima do centro da meta, de 3%. Isso significa que o IPCA está dentro da faixa considerada aceitável pelo BC, mas ainda não está no nível que a autoridade monetária considera ideal.
- Por que a inflação importa para os juros? A inflação é um dos principais indicadores observados pelo Banco Central para decidir se deve manter, aumentar ou reduzir a Selic. Quando os preços sobem de forma persistente e as expectativas ficam acima da meta, o BC tende a manter os juros elevados por mais tempo. Quando a inflação está sob controle e as expectativas melhoram, pode haver espaço para reduzir a taxa.
Para Gabriel Magno, especialista em investimentos e sócio da AW Capital, o IPCA de julho veio “levemente acima do esperado”, mas a diferença foi pequena, uma vez que o mercado projetava alta de 0,03%, contra os 0,07% registrados.
Por isso, ele não espera que o resultado altere significativamente a estratégia do Copom para conter os juros.
“Como a diferença entre realizado e projetado pelos analistas foi bem pequena, acredito que o Copom [Comitê de Política Monetária] ainda terá um tom mais cauteloso”, disse. Magno prevê que a Selic termine o ano em 13,75%, o que representaria apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual em relação ao nível atual.
Já Joel Freitas, diretor e sócio da M7, avaliou que o cenário de inflação continua relativamente favorável, principalmente porque a taxa acumulada em 12 meses está próxima do teto da meta.
Ele ponderou, porém, que serviços como saúde, educação e alimentação fora de casa continuam pressionados pelo mercado de trabalho aquecido.
Para os próximos meses, Freitas espera uma inflação mais controlada, mas destaca que o comportamento dos alimentos e das tarifas de energia elétrica ainda pode alterar esse cenário.
Segundo ele, o fenômeno climático El Niño também pode representar um risco para os preços dos alimentos, já que mudanças nos regimes de chuva e temperatura podem afetar a produtividade das lavouras, atrasar colheitas e reduzir a oferta de produtos mais sensíveis às condições climáticas.
“Caso esses impactos se confirmem, a atual trajetória de queda dos preços pode perder força ou até se reverter, com reflexos sobre a inflação. Por isso, o fenômeno deve seguir no radar do Banco Central como um possível vetor de pressão inflacionária nos próximos meses”, afirmou Freitas.
Mesmo com a desaceleração dos preços, o Banco Central mantém uma postura cautelosa em relação aos juros. Na ata divulgada nesta terça-feira (11), o Copom afirmou que há “riscos elevados” para a inflação e que o cenário atual exige “serenidade e cautela” na condução da política monetária.
Na semana passada, o BC reduziu a Selic de 14,50% para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo. Para a próxima reunião, porém, o Comitê não indicou se continuará reduzindo os juros.
Segundo a ata, a intensidade do ciclo de cortes dependerá da evolução dos indicadores econômicos.
- Os gastos públicos podem aumentar o consumo e dificultar a queda da inflação, além de gerar preocupação com a dívida do governo;
- O BC também monitora fatores externos, como a alta do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio, e climáticos, que podem encarecer produtos e se espalhar para outros preços.
- Outro ponto de atenção são as expectativas: as projeções do mercado para os próximos anos continuam acima da meta, o que pode levar o BC a manter os juros altos por mais tempo.