Jessé Souza questiona naturalização da desigualdade e mostra como privilégios sociais são construídos desde a infância

Sociólogo, escritor e pesquisador participa do 4º Fórum Coexistir, em São Paulo, ao lado do especialista em Diversidade, Equidade e Inclusão Filipe Roloff

A desigualdade brasileira não começa no mercado de trabalho. Muito antes de chegar à escola ou à vida profissional, diferenças de origem social já influenciam comportamentos, oportunidades e o acesso ao chamado capital cultural. Essa é uma das reflexões que o sociólogo, escritor e pesquisador Jessé Souza levará ao 4º Fórum Coexistir – Diversidade e Inclusão, no dia 23 de setembro, em São Paulo.

Conhecido por seus estudos sobre desigualdade, classes sociais e sociedade brasileira, Jessé Souza parte de uma questão central: por que privilégios sociais são frequentemente percebidos como resultado de mérito individual? Em sua avaliação, parte da resposta está justamente naquilo que permanece invisível.

Segundo o sociólogo, o capital familiar exerce papel fundamental na formação das disposições que favorecem o desempenho escolar e, posteriormente, a trajetória profissional. “É na família que as condições sociais de cada classe social específica se atualizam na psique da criança”, explica. Entre essas disposições, ele cita capacidade de concentração, hábito de leitura e habilidade de pensamento abstrato.

Para Jessé, o problema está também na forma como a sociedade compreende a herança e os privilégios. Como a herança costuma ser associada principalmente ao dinheiro, ficam menos evidentes outros recursos transmitidos socialmente e que podem influenciar o percurso de uma pessoa.

“Essa origem social dos privilégios que vão dar acesso à apropriação de qualquer forma de capital cultural mais tarde é invisibilizada porque isso tudo se dá, antes de tudo, na família de 0 a 3 anos”, afirma.

Quando a origem social chega ao mercado de trabalho

A reflexão ganha uma dimensão ainda mais contundente quando aplicada ao mundo profissional. Para Jessé Souza, determinados grupos chegam à vida adulta carregando desvantagens que não necessariamente são reconhecidas nos processos de avaliação social e profissional.

Em sua análise, o preconceito de classe também precisa ser compreendido como uma forma de desumanização. O sociólogo chama atenção para o que denomina “ralé estrutural”, conceito utilizado para descrever uma parcela expressiva da população que não teve acesso, desde a infância, às condições necessárias para incorporar de maneira significativa o capital cultural legitimado socialmente. “O racismo não é só de raça, existe racismo de classe social também”, avalia.

Segundo Jessé, a lógica por trás desse processo está na redução do outro a uma condição considerada inferior. “A operação do racismo é você desumanizar o outro”, afirma. A consequência, em sua leitura, é que determinadas pessoas podem ser vistas socialmente como incapazes antes mesmo que suas competências sejam efetivamente avaliadas.

Essa dinâmica, segundo o sociólogo, também ajuda a compreender os obstáculos enfrentados por mulheres negras, pessoas com deficiência e outros grupos que encontram barreiras de acesso e ascensão dentro das organizações.

Um preconceito que nem sempre é consciente

Outro aspecto destacado por Jessé Souza é que o preconceito de classe não precisa necessariamente resultar de uma decisão consciente. Ele pode operar de maneira automática, incorporada às formas cotidianas de perceber e avaliar as pessoas. “Você fala de um preconceito de classe que coopera de forma pré-reflexiva, não é uma escolha consciente.”

A ideia coloca em discussão um dos desafios centrais da diversidade e inclusão nas organizações: reconhecer que desigualdades podem ser reproduzidas não apenas por decisões deliberadamente discriminatórias, mas também por padrões sociais profundamente incorporados.

É justamente esse encontro entre as estruturas sociais e as relações dentro das organizações que Jessé Souza pretende colocar em debate no 4º Fórum Coexistir. Sua participação deverá ampliar a discussão sobre diversidade para além das políticas corporativas, trazendo para o centro da conversa questões como origem social, privilégios, desigualdade e os mecanismos que influenciam oportunidades ao longo da vida.

Ao lado de Jessé Souza, o Fórum contará com Filipe Roloff, especialista em Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), que abordará os desafios para a construção de culturas organizacionais mais diversas e inclusivas. Enquanto Jessé parte das estruturas sociais que ajudam a produzir desigualdades, Roloff discutirá como as organizações podem identificar e transformar mecanismos que reproduzem essas desigualdades no ambiente corporativo.

Ao final das apresentações, os dois especialistas participarão de uma mediação aberta a perguntas e interação com o público, ampliando o debate sobre diversidade, inclusão e empregabilidade.

Serviço

4º Fórum Coexistir – Diversidade e Inclusão

Tema: Transformando pessoas, organizações e a sociedade

Data: 23 de setembro

Horário: das 8h30 às 12h30

Local: Auditório Siemaco – Alameda Eduardo Prado, nº 648, Campos Elíseos, São Paulo/SP.

Realização: Programa Coexistir e Sincovaga-SP

Apoio: FecomercioSP, Siemaco e Nurap

Inscrições gratuitas: forum.coexistir.com.br

Vagas: limitadas.

Imagem : Freepik

Fonte : Presstalk Comunicação Corporativa – Assessoria de imprensa do Sincovaga-SP

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