As 300 maiores empresas do varejo brasileiro alcançaram R$ 1,3 trilhão em vendas em 2025, mas o crescimento do setor perdeu velocidade, segundo matéria de hoje do jornal Valor Econômico, assinada pela repórter Adriana Mattos. Em termos reais, já descontada a inflação, a expansão foi de 4,3%, o menor ritmo desde 2021, segundo o levantamento Top 300 do Varejo Brasileiro 2026, elaborado pelo Instituto Retail Think Tank (IRTT).
O estudo, realizado pelos especialistas Alberto Serrentino, Eduardo Terra e Alberto Biagi e publicado pelo Valor Econômico, mostra que o crescimento nominal das vendas foi de 8,6% em 2025. Embora o resultado tenha superado a inflação oficial, foi a menor expansão anual desde 2018.
Um dos principais sinais de desaceleração aparece na abertura e no fechamento de lojas. Entre as 282 redes com dados comparáveis nos dois últimos anos, o saldo foi positivo em 2.474 unidades, o menor resultado dos últimos cinco anos. O número contrasta com 2020, quando o setor registrou um saldo de 163 lojas.
Para os especialistas ouvidos pelo levantamento, o desempenho reflete o ambiente econômico brasileiro, marcado por juros elevados, maior endividamento das famílias, inadimplência e redução do consumo de alguns produtos e serviços. A situação também é influenciada por fatores como o avanço das apostas esportivas e a transferência de parte da renda das famílias para gastos considerados não essenciais.
Apesar da desaceleração, o levantamento destaca a força das redes regionais. As 50 maiores empresas do varejo, grupo que inclui importantes companhias regionais, aumentaram sua participação no faturamento total do setor de 33,5%, em 2020, para 35,7%, em 2025. Entre as 100 maiores, a participação passou de 39,7% para 42,4% no mesmo período.
O movimento de expansão geográfica também ganhou força. O número de redes presentes em dois ou três Estados aumentou, enquanto 41 empresas passaram a atuar nas 27 unidades da Federação em 2025, contra 38 no ano anterior.
Segundo Eduardo Terra, o varejo brasileiro ainda tem como característica importante a presença de empresas regionais e familiares. A concentração permanece relativamente baixa quando comparada a outros grandes mercados. As dez maiores varejistas representam cerca de 19% das vendas brasileiras, contra 57% no México, 53% nos Estados Unidos e 82% na Alemanha, de acordo com o estudo.
Entre as empresas que avançaram para novas regiões está a Lojas G, rede paranaense de utilidades domésticas, que investiu R$ 20 milhões na abertura de sua primeira unidade no Espírito Santo. Outro exemplo é o Grupo Amma, de Santa Catarina, que iniciou a expansão de sua operação de atacarejo para outros Estados.
O levantamento também evidencia o amadurecimento de grandes redes. Em 2020, 138 cadeias varejistas registravam faturamento superior a R$ 1 bilhão. Em 2025, esse número chegou a 206 empresas. No grupo com receitas acima de R$ 10 bilhões, houve crescimento ainda mais expressivo: eram oito empresas no início da década e passaram a 28.
A transformação digital também aparece como uma das tendências do setor. Pela primeira vez, o estudo verificou a adoção de inteligência artificial pelas empresas participantes. 79 varejistas declararam ter projetos de IA em andamento, enquanto 35 grupos afirmaram desenvolver iniciativas de vendas utilizando agentes de inteligência artificial.
Para os especialistas, entretanto, os números de 2025 ainda não capturam integralmente as dificuldades enfrentadas pelo varejo nos meses mais recentes. O cenário para 2026 é considerado mais desafiador, diante das incertezas relacionadas ao câmbio, aos preços do petróleo, à inflação e às condições de crédito.
Assim, embora o varejo brasileiro continue crescendo e apresente espaço para expansão, especialmente entre redes regionais, o setor entra em uma nova fase: crescimento mais moderado, maior disciplina financeira e busca por eficiência passam a ser determinantes para a expansão das empresas.