Ricardo Patah (*)
O Brasil atravessa um momento que exige reflexão profunda e senso crítico. Em meio a um ambiente de radicalização política e debates rasos, a sociedade parece aprisionada em uma espécie de transe ou alienação coletiva. Enquanto trabalhadores e trabalhadoras se veem envolvidos em disputas estéreis sobre rótulos ideológicos − quem é de direita, quem é de esquerda − decisões fundamentais para o futuro do país seguem sendo tomadas longe do olhar atento da maioria. E, nesse cenário, passando livremente.
A realidade cotidiana da população é dura. Assalariados e autônomos enfrentam jornadas exaustivas, salários insuficientes e a constante insegurança quanto ao amanhã. Ainda assim, parte significativa do debate público é desviada para a defesa apaixonada de personagens e projetos políticos que jamais demonstraram compromisso real com os interesses da sociedade.
Essa divisão interessa a quem lucra com o conflito, não a quem vive do próprio trabalho. Enquanto a sociedade se fragmenta, o Congresso Nacional atua de forma célere quando o tema envolve seus próprios privilégios.
Na volta do recesso, parlamentares aprovaram, a toque de caixa, projetos que reajustam salários e ampliam benefícios de servidores da Câmara e do Senado com impacto fiscal estimado em cerca de R$ 4,3 bilhões já em 2026 e que permitirá que um grupo restrito de cerca de 70 funcionários ultrapasse o teto do funcionalismo público, atualmente fixado em R$ 46.366,19.
Entre os benefícios está a concessão de um dia de folga a cada três dias trabalhados, com limite de até dez dias de descanso por mês, podendo serem indenizadas, convertendo-se em pagamento em dinheiro.
Na prática, trata-se da criação de um mecanismo que amplia rendimentos e reforça privilégios para poucos, em um país marcado por profundas desigualdades sociais. O contraste é chocante. Enquanto trabalhadores de diversos setores lutam pelo fim da escala 6×1 e por condições mínimas de dignidade, saúde e convivência familiar, o Parlamento prioriza projetos que garantem descanso remunerado e supersalários a uma parcela já beneficiada do serviço público. É um sinal claro de desconexão entre quem legisla e a realidade vivida pela maioria da população brasileira.
Esse movimento representa um verdadeiro desrespeito à sociedade. Em vez de enfrentar debates estruturais − como a valorização do trabalho, a geração de emprego e renda e a redução das desigualdades −, o Congresso reafirma uma lógica de autoproteção e manutenção de privilégios históricos.
Romper com a alienação coletiva é uma tarefa urgente. É preciso deslocar o foco das disputas vazias e recolocar no centro do debate nacional os interesses de quem sustenta o país com seu trabalho. Caso contrário, enquanto a sociedade se divide, decisões que ampliam injustiças continuarão sendo aprovadas em silêncio − e a conta, como sempre, seguirá recaindo sobre os mesmos.
Ricardo Patah é presidente da UGT.
Fonte: Linkedin