Nem bengala, nem invisibilidade: como o varejo pode conquistar a geração prateada

Opinião

 Luiz Paulo Foggetti

Se entrar hoje em muitas lojas, é provável que encontre um cenário curioso: luzes dignas de uma pista de dança, música ambiente em um volume que exige leitura labial e etiquetas de preço impressas em tamanho de letra microscópico — que parecem ter sido pensadas para pôr à prova a visão de uma águia.

Para a geração que já celebrou 60, 70 ou mais voltas ao sol, a mensagem silenciosa de muitas marcas parece ser clara: “este espaço não foi feito para você”. O grande contrassenso? Esta mesma fatia da população detém uma estabilidade financeira invejável, tem tempo para escolher e vontade de consumir.

Aqui ficam alguns cuidados práticos (e indispensáveis) para os nossos varejistas:

A iluminação e a legibilidade não são caprichos

Antes de falar de marketing emocional, comecemos pela anatomia básica: aos 60 e 70 anos, a capacidade de focar pequenos detalhes e a adaptação a ambientes escuros mudam.

Tamanho de letra: Se um cliente precisa ativar a lanterna e a câmara do celular para conseguir ler a composição de uma camisola ou a validade de um pacote de bolachas, é sinal de que há vendas perdidas.

Luz clara e uniforme: Esquinas escuras ou vitrines em penumbra convidam ao desinteresse (e aumentam o risco de acidentes). Luz convidativa e etiquetas legíveis são o melhor convite à compra.

O som ambiente: uma conversa, não uma discoteca

Ninguém procura uma biblioteca silenciosa ao entrar em um centro comercial, mas a música de fundo nunca deve competir com o diálogo. Dificuldades auditivas ligeiras tornam o ruído de fundo um obstáculo real.

Se o cliente precisa pedir três vezes para o colaborador repetir o preço ou explicar a diferença entre dois modelos de calçado, o cansaço vence o entusiasmo da compra.

Conforto ergonómico e respeito pelo ritmo

Fazer compras pode ser um excelente programa de lazer, desde que o percurso não pareça uma maratona de obstáculos. Ter uma poltrona ou cadeira confortável não serve apenas para quem está acompanhando ou quer experimentar um par de sapatos sem se equilibrar numa perna só.

Colocar os produtos de maior interesse a três centímetros do chão ou no topo de uma estante inalcançável é pedir desnecessariamente flexibilidade olímpica. O campo de visão e de alcance central deve reinar.

Tecnologia que acolhe em vez de humilhar

A revolução digital é bem-vinda, e a maioria dos seniores usa celular, aplicações de mensagens e redes sociais diariamente. Porém, substituir todo o atendimento humano por telas confusas ou códigos QR minúsculos pode gerar frustração desnecessária.

O segredo está na tecnologia assistida: o terminal de autoatendimento pode existir, desde que haja um colaborador por perto pronto para ajudar sem condescendência nem olhares de impaciência.

O fim do “senhorzinho”: olho no olho e escuta ativa

Talvez o cuidado mais importante de todos resida na atitude da equipe de vendas. Tratar um cliente ativo de 65 anos como um infante frágil é meio caminho andado para afastá-lo. O atendimento não precisa ser lento, mas precisa ter cadência. Quem compra quer perceber o valor do que está levando, sem a sensação de estar sendo despachado da caixa registadora.

Atender bem a maturidade não exige criar uma “loja especial para idosos” nem reinventar a roda. Trata-se, essencialmente, de aplicar bom senso, hospitalidade clássica e ergonomia elementar. No fim de contas, um espaço com boa luz, sem ruído estridente, com assentos disponíveis e atendimento cordial agrada a quem tem 70 anos e, curiosamente, faz com que quem tem 30 também queira voltar.

Luiz Paulo Foggetti é consultor em Economia da Longevidade e co-head da iniciativa Vigora.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
 

Fonte : https://mercadoeconsumo.com.br/

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