PIB tem ‘desaceleração importante’ e consumo das famílias liga novo alerta, dizem economistas

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Consumo das famílias caiu 0,4% e indústria de transformação perdeu força, enquanto setores ligados a commodities sustentaram parte do crescimento. Economistas veem efeitos dos juros altos e um avanço menos espalhado pela economia.

A economia brasileira continua crescendo, mas perdeu força no segundo trimestre. Para especialistas ouvidos pelo g1, o resultado mostra sinais de enfraquecimento do consumo das famílias e de setores ligados ao mercado interno.

Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5% entre abril e junho, abaixo da alta de 1,1% registrada no primeiro trimestre do ano. O principal destaque negativo foi a queda de 0,4% no consumo das famílias, principal termômetro da economia pelo lado da demanda.

O PIB mede tudo o que é produzido no país em determinado período. Pelo lado da produção, reúne agropecuária, indústria e serviços. Pelo lado da demanda, considera consumo das famílias e do governo, investimentos, exportações e importações.

De um lado, setores ligados à produção de commodities ajudam a sustentar a economia. De outro, o consumo perde força e segmentos mais dependentes do mercado interno enfrentam dificuldades.

Para os especialistas, o resultado mostra que o crescimento está menos espalhado pela economia e mais concentrado em alguns setores. Esse cenário também levanta dúvidas sobre a capacidade de o país manter um ritmo mais forte nos próximos trimestres.

Veja abaixo a visão dos especialistas:

Juliana Inhasz, professora de economia do Insper

Para Juliana Inhasz, o principal ponto de atenção no resultado do PIB está na composição do crescimento. O avanço de 0,5% ficou um pouco acima da expectativa do mercado, de 0,4%. Mas o desempenho dos setores mostra que o crescimento está concentrado em poucas áreas.

“O número cheio é razoável, mas a composição é ruim. Mostra que temos vários problemas e que estamos perpetuando um cenário de crescimento baixo, bastante moderado, se é que vamos conseguir sustentar esse crescimento ao longo de algum tempo”, afirma.

Para Inhasz, os números também mostram um desempenho desigual dentro da indústria.

“A composição da indústria está mostrando que a atividade econômica no setor é muito desigual. A indústria extrativa está crescendo 3,4%, enquanto a indústria de transformação está recuando. Isso mostra a incerteza do setor industrial e o impacto das taxas de juros altas, além de eventuais impactos tributários”, diz.

Segundo a economista, a fraqueza da indústria de transformação merece atenção porque o setor envolve cadeias produtivas mais longas e tem maior capacidade de gerar empregos e agregar valor no país.

“A indústria manufatureira, que possui a cadeia produtiva mais longa, emprega mais gente aqui dentro e agrega mais valor ao mercado, de fato está enfraquecida e muito enfraquecida, porque depende das condições do mercado interno.”

O consumo das famílias também preocupa. Para Inhasz, a queda no segundo trimestre mostra que as famílias estão mais cautelosas, mesmo com o mercado de trabalho ainda aquecido.

“Quando as famílias reduzem seu consumo, como aconteceu, com queda de 0,4%, estamos falando que as pessoas estão consumindo menos, estão segurando os recursos. Isso é um reflexo, primeiro, de incerteza dentro da economia.”

Enquanto o consumo das famílias caiu, os gastos do governo cresceram 0,4% em relação ao primeiro trimestre. “O governo continua tentando dar suporte ou aquecer a economia, com uma alta de 0,4%. Então, ele nada contra a corrente.”

Os investimentos, medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), cresceram 1,2% no trimestre. Ainda assim, a taxa de investimento — que mostra quanto do PIB é destinado a investimentos em máquinas, equipamentos, construção e outras formas de ampliar a capacidade de produção — ficou em 16,1%.

“Com essa taxa de investimento frente ao PIB, vamos ter dificuldade de crescer de forma persistente. Provavelmente, com essa taxa rodando na casa de 16% a 17% do PIB, não conseguimos crescer nem 2% ao ano sem gerar pressão inflacionária.”

Na avaliação da economista, uma taxa de investimento baixa limita a capacidade do país de produzir mais bens e serviços. Assim, se o consumo crescer mais rapidamente do que a produção consegue acompanhar, os preços podem voltar a subir.

Carla Beni, economista e professora da FGV

Para Carla Beni, a perda de força do consumo está relacionada aos efeitos dos juros altos, que demoram a aparecer por completo na economia.

“A política monetária contracionista que se iniciou no começo de 2022, quando a Selic passou para dois dígitos, está começando a fazer efeito agora, porque nos anos anteriores o nosso PIB cresceu, em média, 3% ao ano.”

Na avaliação da economista, o elevado nível de inadimplência também ajuda a explicar por que as famílias estão consumindo menos.

“Se pegarmos o mapa da inadimplência do Serasa, estamos aí com mais de 48% da população adulta negativada. Então, você vê isso no reflexo da queda do consumo das famílias.”

A professora ressalta ainda que o bom desempenho da agropecuária não significa que a economia como um todo esteja crescendo no mesmo ritmo.

“A agropecuária sempre apresenta sinais robustos de crescimento, mas a representação dela dentro do PIB é muito pequena. A agropecuária representa mais ou menos 7% a 8% do PIB. Os serviços são 70% e a indústria, 20% a 22%.”

Para ela, o desempenho do agro ajuda a sustentar o PIB, mas não é suficiente para compensar a perda de força de setores que têm peso maior na economia.

André Caruso, CEO da Pilar Capital

Para André Caruso, o resultado do segundo trimestre confirma que a economia brasileira entrou em uma fase de desaceleração.

“O crescimento de 0,5% do PIB no segundo trimestre confirma uma desaceleração importante da economia brasileira. Ainda é crescimento, mas já mostra com mais clareza os efeitos de uma política monetária restritiva sobre consumo, crédito e investimentos.”

Para o terceiro trimestre, Caruso vê risco de queda do PIB, mas ainda não considera uma recessão o cenário mais provável.

“O IBC-Br terminou junho em queda de 0,6% no mês e deixou um carregamento estatístico de aproximadamente -0,4% para o terceiro trimestre. Indústria e serviços também perderam força no fim do segundo trimestre.”

Se há ponto positivo, é que a perda de força da economia também pode aumentar o espaço para o Banco Central reduzir a Selic. Segundo o economista, o próprio Banco Central já reconhece que a economia está perdendo força gradualmente.

Se a economia perder ainda mais força nos próximos meses e a inflação continuar cedendo, Caruso vê espaço para cortes de juros.

“Se os próximos indicadores mostrarem um terceiro trimestre muito fraco, especialmente com desaceleração dos serviços e do mercado de trabalho, e a inflação corrente continuar cedendo, acredito que o Banco Central poderá discutir não apenas o corte esperado para setembro, mas também a possibilidade de novos movimentos nas reuniões de novembro e dezembro.”

O principal obstáculo, porém, está nas expectativas de inflação. “O mercado financeiro ainda projeta IPCA de 5,01% em 2026 e de 4,28% em 2027. Portanto, o PIB mais fraco ajuda bastante, mas sozinho não autoriza uma aceleração dos cortes.”

Fazenda mantém previsão de alta de 2,3% no PIB de 2026

A Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda manteve em 2,3% a previsão de crescimento do PIB em 2026.

A projeção indica um crescimento igual ao registrado no ano passado. Em 2025, o PIB brasileiro avançou 2,3%, após alta de 3,4% em 2024.

Segundo a pasta, a economia deve continuar perdendo força no terceiro trimestre, mas tende a retomar gradualmente o crescimento no fim do ano, à medida que a redução dos juros beneficie os setores mais dependentes de crédito.

Fonte : https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/09/01/pib-mostra-desaceleracao-importante-da-economia-e-acende-alerta-sobre-consumo-das-familias-apontam-economistas.ghtml?utm_source=share-universal&utm_medium=share-bar-app&utm_campaign=materias

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