Por que a inflação se mantém há tanto tempo acima da meta do BC? ‘Novos serviços’ podem ser a chave

Novos ‘vilões’ da inflação de serviços dão mais resistência à derrubada de preços e revelam outra face da economia impulsionada pelo maior uso do delivery e a expansão do e-commerce

Até pouco tempo atrás, quando se falava em inflação de serviços em alta, era quase certo que o corte de cabelo, a manicure e os serviços médicos e dentários encabeçariam o ranking dos vilões dos reajustes desse grupo de preços. Nos últimos tempos, no entanto, apareceram novos vilões na lista: transporte por aplicativo e aluguel de veículos, entre outros.

Não é que os reajustes dos serviços tradicionais tenham dado uma trégua. Nos últimos 12 meses até junho, os aumentos de preços da manicure (7,69%), do corte de cabelo (7,29%) e dos serviços médicos e dentários (7,41%) ultrapassaram a inflação geral acumulada que foi de 5,35%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No entanto, no mesmo período, outros serviços tiveram aumentos que superaram de longe a inflação geral. O transporte por aplicativo, por exemplo, ficou em 44,49% mais caro, seguido pelo aluguel de veículo (16,13%), conserto de automóvel (10,15%) e seguro voluntário de veículo (9,21%), apontam os dados do IBGE.

Só em junho, o transporte por aplicativo subiu 13,77%, o aluguel de veículo, 5,45%, e o serviço de higiene para animais, os pets, encareceu 1,20%.

Para economistas consultados pelo Estadão, os novos vilões da inflação de serviços, além de darem mais resistência à derrubada desses preços, revelam outra face da economia que ganhou força depois da pandemia, impulsionada pelo maior uso do delivery e a expansão do e-commerce.

Esses novos vilões colocaram mais lenha na inflação de serviços, que vem sendo sustentada pelo mercado de trabalho aquecido, ganhos reais de renda e taxa de desemprego na mínima histórica. E, normalmente, a inflação de serviços já leva mais tempo para cair em reação à alta dos de juros, hoje em 15% ao ano.

O resultado é que a escalada dos reajustes dos serviços se tornou, na avaliação de economistas, o principal obstáculo a ser vencido, a fim de que a inflação fique no intervalo da meta de até 4,5% neste ano. Segundo o último Boletim Focus do Banco Central (BC), que projeta inflação em 5,10% para este ano, a hipótese de ficar no intervalo da meta está descartada, por enquanto.

“Inflação de serviços é a maior preocupação do BC”, afirma Fabio Romão, economista sênior da LCA 4intelligence. Ele observa que as boas safras têm contribuído para moderar o avanço da inflação da alimentação em casa, que no ano passado subiu 8,2% e deve fechar este ano em 7%. “É ainda forte, mas não supera o resultado do ano passado”, observa.

Já no caso da inflação de serviços, o movimento é inverso, diz Romão. Fechou o ano passado em 4,85% e neste ano deve subir para 5,9%, segundo as suas projeções.

O economista Guilherme Moreira, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), diz que, como a alimentação dominou a discussão, não foi dada muita atenção à inflação de serviços. “Agora, com o arrefecimento de alimentos, o principal ponto vai ser a inflação de serviços.”

Em 12 meses até junho, a inflação de serviços acumula alta de 6,18% segundo o IPCA do IBGE. É a maior marca desde dezembro de 2024 (6,22%) e está quase um ponto porcentual acima da inflação geral. De maio para junho, a inflação de serviços deu um salto e mais que dobrou: foi de 0,18% para 0,40%. No acumulado em 12 meses, também avançou. Estava em 5,8% em maio e atingiu 6,18% em junho.

Nova economia

“Há uma resistência na inflação de serviços diferente do que a gente estava acostumado a ver, menos óbvia”, observa Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galapagos Capital.

Nas contas da economista, os serviços intensivos em mão de obra, que reúnem os preços da manicure, cabeleireiro, eletricista, entre outros, acumulam alta de 5,93% em 12 meses até junho. O resultado está acima da média da inflação cheia para o período (5,35%).

Mas Tatiana ressalta que a inflação dos serviços intensivos em mão de obra não está tão acima da média da inflação cheia, se comparada com a variação do núcleo da inflação de serviços. O núcleo da inflação de serviços acumulada alta de 6,83% em 12 meses até junho, uma diferença de quase um ponto e meio porcentual em relação à inflação geral.

A economista explica que a medida do núcleo da inflação de serviços é um indicador de tendência. Ele exclui os serviços cujos preços são mais voláteis, como passagens aéreas.

No núcleo, acabam sendo reunidos serviços intensivos em mão de obra, como os serviços pessoais, mas também os menos intensivos, como mensalidades escolares, passagem de ônibus, transporte por aplicativos, serviços bancários, seguros, serviços de comunicação, conserto de automóveis e eletrodomésticos, por exemplo.

Na análise de Tatiana, esses números mostram que a inflação de serviços intensivos em mão de obra está pesando e poderia estar mais pressionada por conta do vigor do mercado de trabalho. Mas os dados indicam que os outros serviços que estavam fora da rotina das pessoas, como aluguel de carro e transporte por aplicativos, estão bastante pressionados.

“Tem uma nova economia, que se intensificou depois da pandemia, muito pautada pelo e-commerce, delivery, que tem impacto na demanda agregada e que está apertando os serviços de forma diferente, com efeitos em cascata”, ressalta a Tatiana.

Mudança de perfil de consumo

Para Romão, da LCA 4intelligence, o perfil do consumidor mudou muito e isso tem reflexos na demanda e na inflação de serviços. Ele lembra que, normalmente, o transporte por aplicativo tinha pico de reajuste no final de cada ano. “Foi uma surpresa o reajuste em meados de 2025.”

Foi exatamente surpreso que o cabeleireiro Raul Aguilera, de 42 anos, que mora na Penha, zona leste, e trabalha em Pinheiros, zona oeste, se sentiu quando constatou a alta de preços dos aplicativos de transporte.

Até janeiro, ele usava transporte por aplicativo três vezes na semana para ir para casa, nos dias em que saía tarde do serviço. Gastava entre R$ 40 e R$ 45 a cada corrida.

Hoje, reduziu o uso do aplicativo a uma vez na semana, só quando está muito cansado para voltar para casa de Metrô. O motivo foi a alta de preço da corrida, que varia hoje entre R$ 60 e R$ 68. “Só vou quando estou no limite, senão não dá, acabo trabalhando apenas para pagar aplicativo”, diz ele.

No salão onde Aguilera é prestador de serviços, o corte de cabelo masculino subiu de R$ 65 para R$ 85 em janeiro, um aumento de 30%. Ele diz que não há no radar novos reajustes.

Apesar do porcentual de reajuste do corte ser elevado, Aguilera destaca que os clientes cortam o cabelo uma vez ao mês. Já os reajustes de preços dos aplicativos de transportes pesam mais porque a frequência de uso é diária.

A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne nove empresas de aplicativos, informa, por meio de nota, que “o preço das viagens é influenciado por fatores como tempo e distância dos deslocamentos, categoria do veículo escolhido, nível de demanda por corridas no horário e local específicos, entre outros”. “A depender desses fatores, os valores podem ter variação dinâmica e alinhados com as estratégias comerciais de cada plataforma para manter o equilíbrio e a competitividade no mercado no qual atuam”, diz. Além disso, ressalta que “a metodologia específica do IPCA para a coleta de preços de corridas intermediadas por aplicativos é desconhecida”.

Prestadores de serviços

A mudança de comportamento do consumidor no uso de novos serviços que sancionam os reajustes de preços por conta da demanda aquecida também tem desdobramentos sobre os prestadores de serviços, por exemplo. Isto é, aquelas pessoas que alugam um carro para trabalhar como motorista de aplicativo. “Acaba sendo uma alternativa para quem perdeu o emprego e não consegue se recolocar”, observa Romão.

Dados do IPCA apontam que o preço da locação de veículos para pessoas físicas dobrou de maio para junho, de 2,62% para 5,45%. Em 12 meses até junho, acumula alta de 16,13%.

Marco Aurélio Nazaré, presidente da Associação Brasileira das Locadoras de Veículos (ABLA), atribuiu o aumento do valor da locação de veículos à alta de custos do setor, como o preço dos carros, das peças de reposição, dos pneus e da taxa de juros. “O setor de aluguel de carros é superintensivo em capital e é difícil manter a frota renovada.”

Segundo o executivo, as locadoras não repassaram integralmente essa alta de custos para o valor da locação para não perder a demanda. “Se tivermos aumentos de custos, os preços de locação vão continuar subindo.”

Segundo a entidade, no segmento de pessoas físicas, somente a locação de veículos voltada para motoristas de aplicativos cresceu neste ano, entre 6% e 7% em relação ao primeiro semestre de 2024. Já a locação feita por pessoa física no balcão por um curto espaço de tempo e o aluguel por contrato, por períodos longos, não têm registrado avanços na demanda.

Fonte : Por que a inflação se mantém há tanto tempo acima da meta do BC? ‘Novos serviços’ podem ser a chave – Estadão

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