Preço dos ultraprocessados caiu 15% nos últimos anos, ante 1,6% dos alimentos in natura, diz estudo

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Pesquisa foi conduzida pelo Idec e por cientistas da UFMG

Um levantamento conduzido pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) em parceria com grupos de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra que os produtos ultraprocessados tiveram uma redução de preços maior do que a dos alimentos considerados saudáveis, na contramão do que preconizam especialistas em saúde.

Entre 2018 e 2024, o preço médio por quilo dos produtos ultraprocessados caiu cerca de 15,3%, de R$ 22,20 para R$ 18,80, enquanto o dos alimentos in natura ou minimamente processados passou de R$ 18,90 para R$ 18,60 (1,6%). Já os alimentos processados saíram de R$ 26,10, em 2018, para R$ 22,60, em 2024.

O quilo do arroz polido, por exemplo, subiu de R$ 4,50 para R$ 5,90 e o feijão passou de R$ 7,10 para R$ 9,30, segundo o estudo. Em contraste, o refrigerante sabor cola caiu de R$ 5,60 para R$ 4,70 por litro e o quilo da mortadela baixou de R$ 21,10 para R$ 15,10.

A projeção dos pesquisadores para 2026 é de que o preço dosultraprocessados fique abaixo do dos alimentos in natura ou minimamente processados.

Para Ana Maria Maya, nutricionista e especialista em alimentação do Idec, a tendência está ligada à estrutura de incentivos agrícolas no País. Segundo ela, commodities têm produção estimulada e são, muitas vezes, a matéria-prima dos ultraprocessados. “Esse incentivo à comoditização da alimentação faz com que os preços desses produtos se tornem menores do que os dos alimentos saudáveis ao longo dos anos”, explica.

O estudo indica que essa queda deve continuar. A previsão é de que o preço médio dos ultraprocessados chegue a R$ 17,90 o quilo em 2026, ante os R$ 18,40 registrados neste ano. “Observávamos essa tendência de redução de custos, mas acreditávamos que se consolidaria apenas por volta de 2030. Com a pandemia, esse movimento se intensificou”, diz Ana Maria.

Em relação aos alimentos in natura, a pesquisa afirma que eventos climáticos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor, impactam diretamente os custos de produção e distribuição. “Além dos desastres climáticos, faltam políticas de adaptação e mitigação no campo. Soma-se a isso a insuficiência de subsídios para produção de alimentos saudáveis”, avalia a especialista do Idec.

Embora a reforma tributária preveja isenção de impostos para alimentos in natura, ela não altera a estrutura desigual de incentivos ao longo da cadeia produtiva. Para Ana Maria, a medida atua sobre a tributação do consumo, mas não corrige distorções na produção e distribuição de alimentos.

Nutricionista e mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), Beatriz Lugli acrescenta que os produtos altamente industrializados acabam sendo mais baratos devido ao baixo custo de produção. Em muitos casos, ela diz, os ultraprocessados — associados a doenças crônicas como diabetesobesidade e alguns tipos de câncer — têm tributação igual ou menor do que alimentos in natura.

Para o Idec e os pesquisadores da UFMG, o cenário reforça o desafio de garantir alimentação adequada especialmente para os mais vulneráveis. “Se os ultraprocessados se tornam mais baratos e acessíveis, isso significa que o acesso à alimentação de qualidade continua comprometido”, alerta Ana Maria.

“É preciso avançar em políticas como tributação fiscal, regulação da publicidade e iniciativas para tornar alimentos in natura mais acessíveis, como mercados públicos ou programas escolares”, defende Beatriz, que não integrou a pesquisa.

O que são alimentos ultraprocessados?

Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, divide os alimentos conforme a classificação Nova, desenvolvida pelo professor Carlos Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP:

  • Alimentos in natura ou minimamente processados: são aqueles consumidos da maneira como vêm da natureza (folhas, sementes, raízes, ovos) ou que passam por algum processo mínimo de processamento, mas sem adição de ingredientes (como os grãos de feijão, que são apenas secos e embalados, ou os grãos de café, que são torrados e moídos para virar pó).
  • Ingredientes culinários processados: são substâncias extraídas de alimentos do primeiro grupo por procedimentos físicos, como prensagem, centrifugação e concentração. É o caso do azeite obtido de azeitonas, da manteiga proveniente do leite e do açúcar vindo da cana ou da beterraba.
  • Alimentos processados: são os ingredientes do primeiro grupo (in natura ou minimamente processado) após passarem por pequenas modificações que poderiam ser reproduzidas em ambiente doméstico, como conservas, geleias e pães artesanais.
  • Ultraprocessados: grupo composto por alimentos e bebidas que foram submetidos a métodos mais agressivos de alteração do produto in natura, além da adição de substâncias de uso industrial, como aromatizantes, corantes, conservantes, emulsificantes e outros aditivos. Aqui, entram as bebidas lácteas, barrinhas de cereais, macarrão instantâneo, sucos em pó, nuggets de frango, bolachas e biscoitos, por exemplo.

Fonte : https://www.estadao.com.br/saude/preco-dos-ultraprocessados-caiu-15-nos-ultimos-anos-ante-16-dos-alimentos-in-natura-diz-estudo-nprm

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