Mark Travers (*)
A sensação de produtividade ao realizar várias atividades ao mesmo tempo pode ser enganosa. Na prática, o hábito de alternar tarefas sem concluir mentalmente a anterior tende a comprometer o foco, reduzir a precisão e aumentar o desgaste cognitivo. Esse fenômeno é conhecido como “resíduo de atenção”, conceito que descreve a ativação mental que permanece quando o cérebro muda de uma tarefa para outra sem encerrar completamente a anterior.
A ideia de que a multitarefa representa eficiência é amplamente difundida no ambiente profissional contemporâneo. No entanto, pesquisas mostram que o cérebro humano não executa múltiplas tarefas simultaneamente; ele apenas alterna rapidamente entre objetivos. Cada troca exige um esforço cognitivo adicional, que reduz a velocidade de raciocínio e aumenta a fadiga mental ao longo do tempo.
Uma das principais referências nesse campo é a pesquisadora Sophie Leroy, que demonstrou que a dificuldade não está apenas em interromper uma tarefa, mas em se desligar psicologicamente dela. Experimentos indicam que indivíduos que deixam objetivos parcialmente ativos apresentam pior desempenho nas atividades seguintes. Curiosamente, concluir a tarefa não é sempre suficiente para eliminar o resíduo de atenção: o fator decisivo é alcançar o chamado “fechamento cognitivo”, isto é, a sensação mental de que o trabalho foi efetivamente encerrado.
A neurociência ajuda a explicar esse mecanismo. As redes cognitivas responsáveis por manter metas e regular a atenção − especialmente aquelas associadas ao córtex pré-frontal − possuem capacidade limitada. Quando múltiplos objetivos permanecem ativos na mente, eles passam a competir pelos mesmos recursos cognitivos, de forma semelhante a vários programas rodando simultaneamente em um computador com pouca memória.
O problema também dialoga com um conceito clássico da psicologia: o efeito Zeigarnik, segundo o qual tarefas incompletas tendem a permanecer mais presentes na memória do que aquelas concluídas. Essa “tensão mental de fundo” pode gerar ansiedade, fadiga decisória e até contribuir para quadros de esgotamento profissional. Paradoxalmente, profissionais de alto desempenho podem ser ainda mais vulneráveis, justamente por criarem representações mentais mais fortes de seus objetivos.
Nesse cenário, blocos contínuos de trabalho ganham relevância. Períodos ininterruptos de concentração reduzem o custo cognitivo da retomada de tarefas complexas e favorecem maior profundidade analítica. Por essa razão, especialistas em produtividade têm defendido práticas que protejam o foco em ambientes cada vez mais marcados por notificações, reuniões e demandas simultâneas.
Entre as estratégias mais eficazes estão os chamados rituais de transição — pequenas ações que ajudam o cérebro a “encerrar” uma atividade antes de iniciar outra. Anotar os próximos passos, registrar o progresso feito ou resumir rapidamente o estado de uma tarefa são práticas simples que reduzem o resíduo de atenção. Outras medidas incluem agrupar tarefas semelhantes, estabelecer períodos mais longos de trabalho concentrado e gerenciar interrupções, como notificações e mensagens constantes.
Apesar disso, especialistas ressaltam que soluções individuais nem sempre são suficientes. Em muitos ambientes profissionais, interrupções fazem parte da própria dinâmica de trabalho. Por isso, reduzir o impacto da alternância de tarefas também exige mudanças organizacionais − como protocolos claros de comunicação, janelas de foco coletivo e redefinição de expectativas sobre tempo de resposta.
No fim das contas, a sensação de permanecer mentalmente preso a uma tarefa mesmo após iniciar outra não é sinal de falta de disciplina. Trata-se de uma resposta natural do cérebro diante de limites cognitivos bem documentados. A produtividade tende a aumentar não pela força de vontade, mas pelo alinhamento entre rotinas de trabalho e o modo como a mente humana realmente funciona.
*Mark Travers é colaborador da Forbes USA. Ele é um psicólogo americano formado pela Cornell University e pela University of Colorado em Boulder.
Fonte : https://forbes.com.br/forbes-saude/2026/02/o-habito-no-1-que-prejudica-sua-produtividade/