Quase 700 mil brasileiros bloqueiam acesso a apostas; especialistas alertam para risco maior durante a Copa

A proximidade da Copa do Mundo de 2026 tem acendido um sinal de alerta entre especialistas em saúde mental e comportamento financeiro. O motivo é o crescimento das apostas esportivas online e o potencial aumento de casos de dependência associados ao evento, que tradicionalmente mobiliza milhões de torcedores.

Dados do Ministério da Fazenda mostram que quase 700 mil pessoas já recorreram à Plataforma Centralizada de Autoexclusão, ferramenta que permite bloquear o acesso a todas as casas de apostas vinculadas ao CPF do usuário. Entre os cadastrados, quatro em cada dez afirmaram que a decisão foi motivada pela perda de controle sobre as apostas e pelos impactos negativos provocados em suas vidas.

A maior parte dos usuários optou pela exclusão por prazo indeterminado, o que reforça a preocupação com o avanço do problema. Paralelamente, a procura por serviços de saúde mental do Sistema Único de Saúde (SUS) relacionados à dependência de jogos online cresceu cerca de 140% nos últimos cinco anos.

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, grandes eventos esportivos tendem a criar um ambiente propício para o aumento de comportamentos compulsivos. O especialista em finanças comportamentais Ahmed El Khatib, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que a Copa transforma o futebol em um fenômeno social e emocional, ampliando o interesse até mesmo de pessoas que normalmente não acompanham o esporte. Esse contexto favorece o engajamento nas plataformas de apostas.

O mercado global acompanha essa tendência. Estimativas apontam que as apostas esportivas durante a Copa do Mundo do Catar, em 2022, movimentaram cerca de US$ 35 bilhões, valor 65% superior ao registrado no Mundial da Rússia, em 2018. Para 2026, a expectativa é de expansão contínua do setor.

Outro fator apontado como preocupante é o aumento da sofisticação das plataformas. Recursos como as chamadas “bet builders” permitem que os usuários criem apostas personalizadas, combinando diferentes previsões para uma mesma partida. Embora transmitam a sensação de maior controle e conhecimento do jogo, essas modalidades aumentam a complexidade estatística e reduzem as chances reais de acerto.

A publicidade também desempenha papel relevante. Campanhas envolvendo celebridades, atletas e influenciadores ocupam espaços nas redes sociais, na televisão, em outdoors e até em sistemas de transporte público. Especialistas alertam que a associação entre ídolos esportivos e casas de apostas contribui para a percepção de legitimidade da atividade.

Do ponto de vista da saúde mental, a psicóloga Juliana Bizeto explica que as apostas ativam mecanismos cerebrais relacionados à recompensa e à expectativa. O simples aguardar pelo resultado já pode gerar excitação suficiente para reforçar o comportamento, independentemente do desfecho da aposta.

Os especialistas também destacam a vulnerabilidade de determinados grupos, como pessoas endividadas, indivíduos com transtornos de ansiedade, depressão ou impulsividade elevada, além daqueles com histórico familiar de dependência. Entre os jovens, a preocupação é ainda maior. Embora a legislação proíba apostas para menores de 18 anos, pesquisas apontam que mais de um milhão de adolescentes brasileiros entre 14 e 18 anos já participaram de algum tipo de aposta.

A exposição precoce à publicidade do setor agrava o cenário. Levantamento da Cetic.br mostrou que mais da metade das crianças e adolescentes brasileiros já teve contato com anúncios de apostas esportivas. Especialistas afirmam que, como o cérebro ainda está em desenvolvimento nessa faixa etária, a capacidade de avaliar riscos e controlar impulsos é menor, aumentando a suscetibilidade à dependência.

Apesar de a Copa de 2026 ser a primeira realizada sob um mercado de apostas regulamentado no Brasil, os especialistas ressaltam que a regulamentação reduz riscos operacionais e fraudes, mas não elimina os impactos emocionais, financeiros e comportamentais associados ao hábito de apostar.

Fonte: Victória Ribeiro. Reportagem publicada no O Estado de S. Paulo em 21 de junho de 2026.

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