Nos últimos anos, formatos mais competitivos em preço, como o atacarejo, ganharam espaço
O pedido de recuperação extrajudicial apresentado pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA) para renegociar cerca de R$ 4,5 bilhões sinaliza desafios estruturais enfrentados por redes que atuam principalmente em segmentos de maior valor agregado, como supermercados premium e de bairro. Esse modelo, que aposta em conveniência, sortimento diferenciado e experiência de compra, tem sido pressionado por um consumidor mais atento aos preços.
Em 2025, a rede St. Marche entrou com pedido judicial para renegociar cerca de R$ 639 milhões em dívidas. “O consumidor brasileiro tem se mostrado mais sensível a preço nos últimos anos, o que fortalece formatos como atacarejo e grandes redes com forte estratégia promocional”, afirma Renato Armoni, advogado do Urbano Vitalino Advogados, com atuação em contencioso cível e arbitragem.
Nos últimos anos, formatos mais competitivos em preço, como o atacarejo, ganharam espaço, enquanto redes voltadas a consumidores de maior renda enfrentam desafios para manter margens e ritmo de expansão. De acordo com uma pesquisa da Shopping Brasil, entre 2021 e 2025, o chamado Ads Share por canal mudou: atacarejo, de 14% para 33%; supermercados, de 46% para 51%; e hipermercados, de 40% para 16%.
Embora cada processo tenha particularidades, Armoni aponta fatores estruturais comuns, como o aumento do custo financeiro, a necessidade constante de capital de giro e a intensificação da concorrência no varejo alimentar.
“Isso não significa que o modelo premium deixe de ter espaço, mas exige ajustes constantes de posicionamento, experiência de compra e eficiência operacional para manter competitividade”, explica.
Desafio de manter a operação competitiva
Armoni destaca que o principal desafio é equilibrar o processo de reorganização da dívida com a manutenção da operação no dia a dia. Isso envolve preservar o abastecimento das lojas, manter competitividade de preços e continuar investindo em eficiência logística e experiência do consumidor.
“Qualquer sinal de instabilidade pode afetar a confiança do mercado e dos parceiros comerciais”, diz.
Mudanças estratégicas também podem fazer parte do processo, dependendo do diagnóstico financeiro da companhia. Revisões no mix de produtos, priorização de categorias mais rentáveis e ajustes em políticas promocionais são algumas das medidas possíveis para melhorar a geração de caixa.
Impactos na cadeia de abastecimento
Mesmo quando o processo não atinge diretamente fornecedores, como no caso do GPA, a cadeia de abastecimento costuma reagir com cautela até que o plano de reestruturação esteja consolidado. Na prática, isso pode levar a ajustes nas condições comerciais, como redução de prazos de pagamento, exigência de garantias adicionais ou revisão de volumes negociados.
“Fornecedores passam a acompanhar mais de perto a situação financeira da empresa e podem adotar uma postura mais conservadora nas negociações”, explica o advogado.
Estratégia de reestruturação
De acordo com Daniel Vilas Boas, sócio do VLF Advogados, a escolha pela recuperação extrajudicial feita pelo GPA indica uma tentativa de conduzir o processo de forma mais simples e menos litigiosa. Já na recuperação judicial, a empresa entra com um pedido na Justiça, suspende as cobranças e, durante o processo, apresenta um plano de recuperação para aprovação pelos credores.
“A recuperação extrajudicial tende a ser um processo mais leve, mais rápido e com menos briga judicial”, afirma Vilas Boas.
O GPA já conta com 46% de adesões ao plano, mas ainda precisa de 4% adicionais para atingir o quórum mínimo de 50% e garantir a aprovação final. “Com mais de um terço de adesões, a empresa já pode entrar com o pedido, mas o plano só será aprovado se alcançar mais de 50% de adesões”, explica.